A agulha e o vazio: 32 anos de Trainspotting
- Marcello Almeida

- 9 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 15 de mai.
“É mais fácil amar certas pessoas quando não se precisa estar perto delas.” Trecho do livro, mas poderia ser um epitáfio para relações, cidades, países inteiros.

“Trainspotting”, no linguajar escocês, é atividade inútil. Coisa sem propósito. Perder tempo vendo trens passar. Um nome perfeito para a vida de Renton, Sick Boy, Seeker, Cisne, Madre Superiora — jovens de Edimburgo que bebem até o osso, injetam até o silêncio, veem futebol pela televisão como quem vê a própria vida ir embora em replay. A prosa de Irvine Welsh é ácido na língua, cortada por humor negro, sarcasmo, ironia — e essa agilidade que não é gratuita, mas uma defesa contra o peso sufocante da realidade.
Não é só sobre drogas. É sobre ter decidido que a vida certinha — estudar, trabalhar, casar, ter filhos, pagar boletos, acumular bens — não serve. E não só não serve: é ofensiva. Um grito punk contra o script do sistema, no espírito sujo de Sid & Nancy, embalado por “Heroin” do Velvet Underground. Welsh não romantiza — ele joga na cara. Carne viva, agulha entrando, suor misturado ao pó da rua. Não há horizonte, só o próximo pico.
Esses personagens não são apenas marginais. São espelhos trincados de uma geração que não vê saída. Nos anos 90, era heroína e desemprego. Hoje, pode ser cocaína de banheiro, álcool barato, ansiolítico engolido sem receita, o vício de rolar telas até o amanhecer. A substância muda. O vazio não. E a pergunta segue: quem disse que a vida precisa ser apenas um mar de dívidas e acúmulo de coisas que vão te enterrar junto?
Os personagens do livro vivem em uma bolha, convenções sociais que vão determinando os passos de suas vidas e mediante a isso, o leitor embarca em uma viagem alucinógena pelas mazelas e desigualdades sociais impostas pelo sistema.

Há algo quase litúrgico na fuga deles. O crime, o sexo, a agulha — tudo vira rito. A picada não é só vício, é a comunhão blasfema contra a igreja do capitalismo. Morrissey canta There Is a Light That Never Goes Out e parece que fala com eles: o desejo de sair, de sumir, de se perder com alguém, porque qualquer lugar fora daqui já seria salvação.
O livro é um mergulho em um aquário de vidro rachado. As convenções sociais são a água — e eles, peixes tentando respirar fora dela. A leitura é como caminhar rápido demais numa rua que não conhece: cada esquina, um perigo; cada diálogo, um tapa. É por isso que Trainspotting não se lê por passatempo. Ele arranha. Ele suja.
E em 1996, Danny Boyle pegou esse caos e jogou na tela com um pulso que poucos diretores teriam coragem de manter. O filme é icônico, mas o livro tem um veneno próprio. Welsh escreveu para os que crescem no vazio, para os que não veem um futuro que valha o presente. Ele se tornou voz e cicatriz de uma geração.
Agora, em 2025, já se passaram 32 anos desde que Trainspotting foi publicado. E ele continua atípico, fora de qualquer molde. Não é literatura “importante” no sentido acadêmico, é literatura que respira fumaça, que tem gosto metálico na boca. Potente. Urgente. E visceral. Um lembrete incômodo de que, mesmo quando as drogas mudam e a estética muda, o buraco é o mesmo.

⭐⭐⭐⭐⭐
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