5 discos desta década que vão virar clássicos
- Marcello Almeida

- 19 de dez. de 2025
- 5 min de leitura
Não é sobre consenso, hype passageiro ou número de streams — é sobre impacto, permanência e o que ainda vai ecoar daqui a alguns anos

Toda década acaba criando seus próprios marcos, mesmo antes de acabar. Alguns discos chegam fazendo barulho imediato, outros crescem em silêncio, mas todos aqui têm algo em comum: parecem grandes demais para ficar presos ao seu tempo. Essa lista não tenta ser definitiva nem objetiva. Ela nasce de escuta, afeto e convivência com esses álbuns ao longo dos últimos anos. São discos que moldaram conversas, estéticas, sentimentos e, de alguma forma, ajudaram a definir como essa década soa. Talvez você concorde, talvez não — e é exatamente esse o ponto.
BRAT - Charli xcx (2024)

BRAT é daqueles discos que escapam da ideia de “álbum” e viram um acontecimento. Muita gente tentou reduzir isso a um projeto de hyperpop, mas o que a Charli faz aqui é juntar tudo o que ela viveu e construiu: SoundCloud, balada underground, club suado, cena LGBTQ+, caos e liberdade. A festa, aqui, não é só diversão — é resistência. É onde muita gente historicamente conseguiu existir sem ser apontada, e o disco carrega isso no DNA.
O que me incomoda em algumas das críticas é como elas ignoram esse lado. BRAT entende a história queer dentro da noite e abraça isso sem filtro. Ao mesmo tempo em que o clube nunca para de bater, a Charli se permite parar e encarar o vazio, a exaustão, a dúvida. É um disco que te faz dançar e, do nada, pensar “o que eu tô fazendo comigo?”. Pouquíssimos álbuns conseguem sustentar essas duas coisas ao mesmo tempo.
E o mais impressionante: não existe um "skip" no disco. É basicamente hit atrás de hit. “Von dutch”, “B2b”, “Sympathy Is a Knife”, as faixas gêmeas 360 e 365 — tudo funciona. É diverso, mas incrivelmente coeso. Goste ou não, BRAT já é um marco da década. E, sinceramente, não vejo outro disco criando um impacto cultural desse tamanho tão cedo.
Heavy Metal - Cameron Winter (2024)

Cameron Winter é provavelmente o artista mais empolgante a surgir na década. Vocalista da banda Geese, o novo álbum do grupo, Getting Killed, poderia estar nessa lista.. mas Heavy Metal parece o projeto que verdadeiramente capta a essência artística de Winter. Heavy Metal tem aquela qualidade rara de discos que parecem organizar o caos emocional de alguém sem nunca explicá-lo demais.
Cameron Winter escreve com um lirismo abstrato e às vezes absurdo, mas sempre humano, filtrado por uma lógica muito própria. A produção é mansa, agridoce, e fica ecoando depois que o álbum acaba — quanto mais você escuta, mais fundo ele parece ir. Não é exagero dizer que existe aqui um impacto geracional à la In the Aeroplane Over the Sea: um disco que não se entende completamente, só se sente.
Faixas como “Cancer of the Skull” e “Nina + Field of Cops” te deixam emocionalmente esgotado, enquanto “The Rolling Stones”, “Nausicaä (Love Will Be Revealed)” e “Love Takes Miles” oferecem uma mudança de paisagem, uma melancolia quase confortável. O timing desse álbum também importa: Cameron Winter está vivendo um momento enorme, tanto com o Geese quanto como artista solo, e o buzz em volta dele só cresce. Heavy Metal já soa como algo que vai atravessar os anos.
MOTOMAMI - Rosalía (2022)

MOTOMAMI é pura energia, risco e sensualidade. Rosalía empurra limites o tempo inteiro: reggaeton que vira jazz no meio, balada delicada falando de sexo e fetiche, ideias que em qualquer outra mão soariam deslocadas — aqui, tudo faz sentido. Mesmo com músicas tão diferentes entre si, o disco é incrivelmente coeso, quase como se fosse um fluxo contínuo de pensamento, corpo e som.
É, sem exagero, um dos meus álbuns favoritos da vida. “Hentai” é absurda, talvez o melhor momento vocal da carreira dela até seu mais recentre trabalho "LUX". “Saoko” abre o disco te puxando direto pra dentro do universo da Rosalía; e “Chicken Teriyaki” é nonsense, divertida e explosiva. Também tenho um carinho especial por faixas subestimadas como “Diablo” e “Delirio de Grandeza”.
O lado mais rápido, duro e funky de MOTOMAMI está entre o melhor pop da década. Mesmo quando o álbum oscila nas baladas mais lentas, quase sempre há uma ideia interessante ali. É um disco feito por uma artista que entende o passado, mas soa completamente à frente do tempo.
Let God Sort Em Out - Clipse (2025)

Depois de 16 anos, o Clipse volta como se o tempo tivesse servido mais pra afiar do que pra afastar. A pausa longa, muito ligada à transformação espiritual do No Malice, sempre fez parecer impossível um retorno que preservasse a essência crua da dupla. Mas Let God Sort ’Em Out existe justamente nesse equilíbrio: maturidade sem suavizar o discurso, fé sem apagar a rua. Com Pharrell novamente no comando, o álbum carrega aquele mesmo DNA de Hell Hath No Fury — frio, elegante, ameaçador — só que agora com o peso de quem viveu tudo aquilo e sobreviveu.
Pusha T continua sendo um dos flows mais viciantes do rap, preciso como um metrônomo e recheado de duplos sentidos que pedem replay. Nada aqui soa automático. Já No Malice entrega alguns dos momentos mais emocionais do disco, especialmente em “The Birds Don’t Sing”, onde a idade e a reflexão dão outra camada às barras. E os beats… absurdos. “So Be It”, “FICO” e “Birds Don’t Sing” são coisa de outro nível, enquanto “So Far Ahead” flutua de um jeito quase etéreo antes de cair pesado. É um disco que não tenta reinventar o Clipse — ele só prova, com autoridade, por que eles ainda importam tanto.
Did you know that there's a tunnel under Ocean Blvd - Lana del Rey (2023)

Ocean Blvd funciona quase como um filme longo e denso. Ao longo de 14 faixas e dois interlúdios, Lana revisita várias versões de si mesma — o folk confessional pós-Norman Fucking Rockwell!, momentos de trap discreto e até um soft rock delicado — tudo amarrado por arranjos orquestrais que carregam um ar sombrio, quase conspiratório. Existe sempre a sensação de que algo está escondido ali, seja nas risadinhas estranhas, nos silêncios prolongados ou nas cordas que parecem anunciar um fim inevitável. Diferente de outros discos, as faixas mais lentas não se arrastam: “Sweet” e “Paris, Texas” estão entre os momentos mais belos e impactantes do álbum.
Liricamente, este é um dos trabalhos mais honestos da carreira de Lana. Família, morte e herança emocional atravessam o disco inteiro, com o túnel da faixa-título servindo como metáfora para seu isolamento e sua tendência a se refugiar na fantasia. “Kintsugi” surge como o grande ápice emocional, transformando luto em reflexão e aceitação. Ocean Blvd abraça o erro e a imperfeição — vozes fora de tempo, ruídos, detalhes aparentemente descuidados — e é justamente nessa bagunça delicada que o álbum encontra sua força. É um trabalho vulnerável, imagético e profundamente humano.
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