Eurythmics nasceu de um relacionamento destruído, e talvez seja isso que tornou tudo tão intenso
- Marcello Almeida
- há 17 horas
- 3 min de leitura
Annie Lennox e Dave Stewart transformaram um término amoroso em uma das parcerias mais importantes da história do synth pop

Existe algo profundamente estranho na história do Eurythmics. Não estranho no sentido artístico, porque musicalmente a dupla parecia compreender perfeitamente como transformar melancolia, tensão e desejo em hinos pop gigantescos, mas estranho emocionalmente mesmo.
Afinal, poucas pessoas conseguiriam terminar um relacionamento amoroso e, logo depois, decidir construir uma carreira inteira ao lado daquela mesma pessoa. Ainda assim, foi exatamente isso que aconteceu entre Annie Lennox e Dave Stewart.
Muito antes de redefinirem o synth pop nos anos 80 com clássicos como “Sweet Dreams (Are Made of This)”, os dois viveram um relacionamento intenso, complicado e emocionalmente desgastante. O romance acabou, mas a conexão artística permaneceu viva de uma forma quase impossível de explicar racionalmente.
Em vez de seguirem caminhos separados, Lennox e Stewart fizeram justamente o contrário: criaram uma banda juntos. E talvez exista algo quase autodestrutivo nessa decisão. Porque enquanto muitas bandas desmoronam justamente por causa de relações amorosas internas, o Eurythmics nasceu diretamente dos escombros de uma.
Dave Stewart falou sobre isso de forma bastante sincera em sua autobiografia Sweet Dreams Are Made of This, lançada em 2016.
“Eu conheço praticamente cada molécula da Annie”, escreveu o músico ao refletir sobre a relação entre os dois. Ainda assim, ele deixou claro que existia uma linha emocional que jamais conseguiu atravessar completamente. “Não acho que isso deva ser compartilhado com o mundo. Se eu realmente escrevesse sobre mim e Annie, seria um livro totalmente diferente.”
A fala parece quase desconfortável justamente porque revela o quanto aquela relação nunca deixou de existir completamente, mesmo depois do fim romântico. E talvez seja isso que sempre tornou o Eurythmics tão fascinante. Por trás da estética fria, futurista e sofisticada da dupla, existiam duas pessoas emocionalmente ligadas de maneira muito mais profunda do que a maioria do público imaginava.
Não era apenas uma parceria criativa. Era uma convivência construída sobre ruínas emocionais ainda abertas. Stewart chegou a admitir que não conseguia pensar em outro caso parecido dentro da música popular.
“Não consigo lembrar de nenhum casal que tenha terminado um relacionamento e depois decidido formar uma banda. Normalmente acontece o contrário”, afirmou. Ele ainda citou Sonny & Cher como exemplo oposto. “Sonny e Cher já eram famosos antes de se separarem. O que aconteceu com a gente foi completamente louco.”
E talvez tenha sido justamente essa loucura que alimentou a intensidade artística da dupla. Porque embora o Eurythmics tenha vendido mais de 75 milhões de discos e ajudado a definir o som dos anos 80, existia sempre uma tensão silenciosa por trás das músicas. Algo não resolvido. Algo que nunca desapareceu completamente. Isso fica ainda mais evidente quando Stewart comenta sobre “Why?”, primeiro grande single solo de Annie Lennox após o fim oficial da dupla.
Segundo ele, era óbvio que a canção falava diretamente sobre sua relação com Annie. Mesmo assim, os dois nunca conversaram sobre aquilo.
“Nós nos encontramos centenas de vezes desde então e nunca falamos sobre as músicas que escrevemos um sobre o outro”, revelou. “Seria como abrir uma caixa de Pandora. Quem sabe o que sairia dali?”
Existe algo profundamente singelo nessa recusa. Porque apesar de toda intimidade, de toda história compartilhada e de toda parceria construída ao longo dos anos, talvez Lennox e Stewart nunca tenham encontrado palavras suficientes para definir exatamente o que eram um para o outro. Parceiros? Ex-amantes? Almas criativas dependentes? Rivais emocionais? Talvez tudo isso ao mesmo tempo.
O curioso é que essa complexidade acabou sendo mascarada pelo enorme sucesso comercial da dupla. O público enxergava o glamour, os sintetizadores, os videoclipes icônicos e a estética elegante da new wave. Mas por trás daquelas músicas existia uma dinâmica emocional extremamente delicada, sustentada por duas pessoas que claramente precisavam uma da outra para criar, mas talvez nunca tenham conseguido conviver plenamente fora desse processo artístico.
E talvez seja justamente isso que torna o Eurythmics tão especial até hoje. Porque enquanto muitas bandas soam como construções calculadas da indústria, Annie Lennox e Dave Stewart pareciam transformar feridas emocionais reais em música pop monumental.
Como se cada sintetizador carregasse tensão reprimida. Como se cada refrão escondesse conversas que nunca aconteceram. Como se o verdadeiro coração do Eurythmics estivesse justamente nas coisas que eles nunca conseguiram dizer um ao outro.
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