42 discos que atravessaram 2025 com a gente
- Redação

- 20 de dez. de 2025
- 21 min de leitura
Atualizado: 21 de dez. de 2025
Não é sobre eleger vencedores, é sobre escutar o que ficou

Esta lista não nasce da pressa, do hype ou da necessidade de apontar vencedores. Ela surge do acúmulo de escutas, de discos que voltaram em dias diferentes, em estados de espírito distintos, e continuaram dizendo algo. Não são “os melhores” no sentido absoluto, são os que despertaram sensações, emoções e reflexões ao longo do ano.
Em 2025, a música internacional se mostrou menos preocupada em seguir fórmulas e mais interessada em existir com verdade. Esses álbuns atravessam temas como identidade, memória, corpo, desejo, luto, prazer, pertencimento e transformação. Alguns chegam como explosão, outros como sussurro. Uns pedem volume, outros pedem silêncio. Todos pedem tempo.
Este recorte não pretende definir o ano, mas dialogar com ele. É uma lista construída a partir da experiência, de discos que acompanharam momentos, mudaram de significado com o passar dos meses e provaram que ainda faz sentido ouvir um álbum inteiro, sem pular faixas, sem distrações. Não um pódio, mas um mapa afetivo de tudo aquilo que 2025 nos fez sentir.
E se esta lista existe, ela também existe por causa de quem está do outro lado. O Teoria chega a 70 mil pessoas não como um número, mas como uma comunidade formada por gente que escuta, sente, discorda, volta, comenta, compartilha e permanece. Não são “seguidores” no sentido vazio da palavra, são pessoas apaixonadas por música, cinema e cultura pop, exatamente como a gente. Esta lista é um reflexo dessa troca: uma escuta coletiva, construída junto, disco por disco.
“A Bridge To Far” - Midlake

Para muitos, o Midlake foi uma moda passageira na década de 2000. Quem acompanhou a banda, sabe que não é bem assim e foi agraciado com dois discos importantes nessa década. For The Sake Of Bethel Woods (2022) e agora com A Bridge To Far.
Não mais tão enraizados na sonoridade 70’s, o grupo texano também abraça outras sonoridades, em canções onde arranjos e melodias se sintonizam em prol do ouvinte que exige qualidade.
“Constellations For The Lonely” - Doves

Em 2009, o Doves anunciou seu fim. Sabe aquela banda que poderia ser tão comentada quanto um Elbow e um Coldplay? Pois então. 16 anos depois, eles retornam com um disco poderoso, contudo difícil (assim como foi a vida dos integrantes do grupo durante esse tempo).
Um grupo maduro que faz do seu passado um exímio ensinamento de como seguir adiante. Seja em momentos acústicos, eletrônicos ou mais enérgicos, esse é um disco para novamente colocar a banda na lista de melhores do ano.
“Ill At Ease” - Preoccupations

Para quem acompanha as letras de música num disco, Ill At Ease pode ser desconfortável, embora sincero. O vocalista Matt Flegel em meio a um Pós-Punk enérgico e criativo falando de fim de mundo, de modinhas em redes sociais, da polarização do mundo.
Esse ‘pouco à vontade’ do título passa para a música dos canadenses, mas fique tranquilo que as nove faixas te deixarão muito bem e ainda dão aquele puxão de orelha básico em quem acha que música não pode refletir sobre problemas modernos.
“Instant Holograms On Metal Film” - Stereolab

Sabe aquela banda de inúmeros discos na bagagem que, mesmo assim, você sempre pode indicar para alguém o último disco? É o Stereolab. Assim como o Doves, uma banda que retorna triunfalmente após a separação.
O novo disco traz o velho Stereolab em ótima forma, experiente, seguro, em sua criativa fusão de nostalgia e modernidade. Seja influenciado pelo Kraut-Rock 70’s, seja influenciado pela Eletrônica 90’s, um grupo que novamente acerta a mão no que faz.
“Dan’s Boogies” - Destroyer

Embora esse não seja o melhor disco na carreira do veterano Daniel Bejar, Dan’s Boogies conquista por abraçar os adjetivos que o músico tem de melhor: irreverência e ecletismo.
Um lugar onde o Pós-Punk Revival pode conviver tranquilamente com o Chamber Pop, onde o caos sonoro pode também dar lugar a serenidade. Isso sem contar o trabalho primoroso de arranjos e orquestrações que muitas vezes ditam a melodia de várias músicas, por mais estranhas e atípicas que elas possam parecer.
My Raining Stars – Momentum

Momentum é dessas descobertas que encaixam de imediato, não pelo impacto, mas pela familiaridade emocional. Um disco de canções no sentido mais puro: melodias grudentas, guitarras acolhedoras e um domínio claro da escrita pop. A sonoridade dialoga diretamente com o indie dos anos 90, entre o indie rock e o dream pop que orbitavam selos como Creation e Sarah Records, evocando aquela sensação rara de conforto que só certos discos conseguem oferecer.
Dentro desse universo, Special Place funciona como ponto de síntese. A faixa traduz com precisão essa nostalgia do fim dos anos 80 e início dos 90, tanto pela levada quanto pela melodia, lembrando a fluidez e o groove dos Stone Roses. É ali que o disco revela com mais clareza sua força afetiva: uma música que não apenas remete a uma época, mas cria um espaço emocional onde dá vontade de ficar.
“Mayhem” – Lady Gaga

Em um ano dominado pelo pop, Mayhem se destacou como o lançamento mais impactante de 2025. No oitavo álbum de estúdio, a cantora e compositora estadunidense Lady Gaga reafirma sua força criativa ao apresentar 14 faixas que misturam estilos, referências e atmosferas sonoras sem perder a personalidade que moldou sua carreira.
O disco é uma obra intensa, marcada por camadas ricas, experimentações bem conduzidas e um apelo artístico fascinante. Um projeto que conquista pela ousadia e merece ser apreciado com atenção.
“Forever Howlong” – Black Country, New Road

Com 11 faixas distribuídas em pouco mais de 52 minutos, Forever Howlong marca um novo momento para o Black Country, New Road. O álbum adota uma estética mais acessível e emocional, misturando pop progressivo, rock alternativo, folk e nuances clássicas e barrocas.
O resultado é um trabalho coeso, delicado e maduro, que evidencia o talento individual e coletivo da banda. Sem buscar o impacto imediato dos primeiros discos, o grupo britânico entrega uma obra de reinvenção, mostrando que transformou vulnerabilidades em arte e encontrou força na própria união.
“People Watching” – Sam Fender

Produzido por Sam Fender ao lado de Adam Granduciel, Dean Thompson, Joe Atkinson e Markus Dravs, People Watching reforça o crescimento do artista como um dos nomes mais importantes do rock britânico. O álbum mistura o Heartland Rock com elementos modernos, criando uma narrativa intensa tanto musical quanto visualmente.
As faixas dialogam com política, afeto e observações do cotidiano, consolidando o músico como o “Bruce Springsteen britânico” na cena musical e entregando um trabalho emocionalmente poderoso.
“Orbits” – The Circling Sun

Entre os grandes destaques do jazz em 2025, Orbits ocupou um espaço especial. O supergrupo neozelandês The Circling Sun constrói, ao longo de sete faixas e pouco mais de 36 minutos, uma experiência sonora que parece nos transportar para uma jornada espacial.
O disco combina harmonias expansivas, texturas elegantes e uma fluidez instrumental que reforça a força coletiva dos músicos. É uma obra que impressiona pelo equilíbrio entre técnica, sensibilidade e imaginação.
Double Infinity – Big Thief

Big Thief chegou a um ponto raro da carreira: aquele em que a banda não precisa provar mais nada — apenas seguir a própria intuição. Double Infinity nasce exatamente desse lugar de liberdade. Gravado com 13 músicos tocando ao vivo, o disco soa orgânico, espiritual e profundamente humano, como se cada canção estivesse sendo descoberta no exato momento em que acontece.
Há algo de lúdico e quase ritualístico aqui. Risadas que viram introdução, vozes que abandonam as palavras e se dissolvem em sons, estruturas que se formam e se desfazem sem pressa. Mesmo nos momentos mais emocionais, o álbum nunca pesa: ele flutua. Double Infinity é Big Thief em estado de entrega total — um disco que celebra o ato de criar como experiência coletiva, sensível e livre. Um dos registros mais belos e intuitivos do ano.
Tether – Annahstasia

Tether se impõe desde o primeiro segundo. O timbre grave, áspero e carregado de intenção de Annahstasia em “Be Kind” já deixa claro que estamos diante de uma artista rara — dessas que não pedem atenção, exigem. Sua voz não apenas conduz as canções: ela as tensiona, dobra, desafia.
Ao longo do disco, Annahstasia revela um magnetismo constante, seja no dueto íntimo e delicado de “Slow”, ao lado de Obongjayar, seja na reflexão crua sobre capitalismo em “Silk And Velvet” ou na intensidade quase catártica de “Believer”. Tether é um álbum de presença, força e identidade muito bem definidas — um trabalho de estreia que não soa como promessa, mas como afirmação. Um dos registros mais impactantes e sofisticados do ano.
Tsunami Sea – Spiritbox

Tsunami Sea confirma o Spiritbox como uma das forças mais expressivas do metal contemporâneo. O impacto é imediato: guitarras cortantes, batidas esmagadoras e uma sensação constante de avanço, como uma maré que não recua. O disco entrega a agressividade prometida pelo título, mas se recusa a ficar apenas no peso pelo peso.
O diferencial está na atmosfera e, sobretudo, na performance vocal de Courtney LaPlante,
que transita com naturalidade entre fragilidade etérea e fúria absoluta. Essa alternância cria tensão emocional e profundidade, elevando as canções a um estado quase espiritual, por vezes inquietante. Tsunami Sea não é apenas um ataque sonoro: é um disco que mexe com sensações, prova maturidade artística e consolida o Spiritbox como um nome central entre os melhores discos internacionais do ano.
Bloodless – Samia

Bloodless marca um salto artístico impressionante na trajetória de Samia. Em seu terceiro álbum, ela investiga a construção da identidade — quem somos, quem nos tornamos e o quanto o mundo nos molda silenciosamente ao longo do caminho. É um tema denso, mas tratado com uma sensibilidade que impede qualquer peso excessivo.
As canções são calorosas, ricas em detalhes emocionais e conduzidas por uma escrita madura, que transforma reflexões íntimas em pequenas cenas profundamente reconhecíveis. Cada faixa funciona como um recorte de vida, delicado e envolvente, sem nunca soar autoindulgente. Bloodless é um disco de crescimento, escuta atenta e humanidade — um trabalho que consolida Samia como uma das vozes mais interessantes e consistentes do indie contemporâneo.
More – Pulp

Em More, o Pulp retorna sem a tentação de viver apenas do passado. Quatorze anos depois do último disco, a banda soa viva, afiada e surpreendentemente leve, como quem entende o próprio legado, mas se recusa a transformá-lo em peça de museu. Há inteligência, humor e movimento — marcas que sempre definiram o grupo — agora filtradas pela experiência do tempo.
Jarvis Cocker canta para os desajustados de ontem e de hoje, com a mesma empatia, só que com mais consciência e menos urgência juvenil. As canções são elegantes, espirituosas e cheias de vitalidade, provando que envelhecer não significa perder o ritmo — apenas dançar de outro jeito. More é um disco de reencontro que não soa protocolar: é Pulp reafirmando sua relevância e mostrando que ainda há espaço para charme, ironia e humanidade entre os grandes discos internacionais do ano.
Essex Honey – Blood Orange

Essex Honey é um disco de retorno — geográfico, emocional e espiritual. Aqui, Dev Hynes transforma o luto pela perda da mãe e as reverberações de antigas dores em uma obra profundamente sensível, que revisita os subúrbios de Londres como quem revisita a própria memória.
A sonoridade é etérea e sofisticada: pop orquestral cintilante que se mistura a R&B ambiente, jazz delicado, gravações de campo e vozes quase sussurradas. As participações — de Lorde, Mustafa, Zadie Smith, entre outros — surgem com discrição, mais como presenças do que como destaques individuais. Tudo flui com suavidade e propósito.
Essex Honey é um álbum sobre pertencimento, ausência e reconciliação com o passado. Um trabalho silenciosamente poderoso, que confirma Dev Hynes como um dos grandes arquitetos emocionais da música contemporânea — e um dos discos mais elegantes e tocantes do ano.
The Art of Loving – Olivia Dean

Em The Art of Loving, Olivia Dean observa o amor contemporâneo com lucidez e delicadeza. Em meio a relações mediadas por aplicativos, expectativas confusas e pequenos constrangimentos afetivos, o disco funciona como um retrato honesto de como amar — e tentar amar — neste tempo.
A sonoridade é leve, soul e elegantemente pop, mas nunca superficial. Por trás do frescor melódico, as letras exploram desejo, insegurança, medo e as zonas cinzentas que existem entre entrega e proteção emocional. Tudo isso ganha força na interpretação contida e vulnerável de Dean, que canta sem excessos, apostando na intimidade. The Art of Loving é um álbum maduro, sensível e atento ao presente — um registro que entende que amar, hoje, é também aprender a lidar com as próprias contradições.
Let God Sort Em Out – Clipse

Depois de 16 anos, o Clipse retorna sem concessões. Let God Sort Em Out reafirma aquilo que sempre definiu a dupla: lirismo afiado, imagética provocadora e uma habilidade quase cirúrgica de transformar o tráfico de cocaína em metáfora cultural, ironia e comentário social. Malice e Pusha T rimam como quem nunca saiu de cena — frios, precisos e absolutamente conscientes do próprio legado.
A produção de Pharrell Williams é seca, opressiva e minimalista, criando o terreno perfeito para versos cheios de humor ácido, referências pop tortas e uma moralidade ambígua que sempre foi a marca do grupo. Não é um disco nostálgico: é um acerto de contas. Let God Sort Em Out soa como veteranos que conhecem bem o inferno que descrevem — e não pedem absolvição. Um retorno duro, elegante e necessário entre os grandes discos internacionais do ano.
Through the Wall – Rochelle Jordan

Through the Wall soa como a chegada a um lugar de pleno domínio artístico. Rochelle Jordan não está mais em busca de identidade — ela a habita por completo. O disco transmite segurança, fluidez e prazer criativo, como se medos antigos simplesmente não tivessem mais espaço dentro dessas canções.
Misturando house, soul, R&B e pop com elegância e refinamento, o álbum constrói uma atmosfera luxuosa, quente e profundamente envolvente. Cada faixa revela uma artista confortável com sua voz, seu corpo sonoro e seu percurso. Through the Wall é o retrato de uma maturidade conquistada com o tempo — um trabalho coeso, confiante e sofisticado, que reafirma Rochelle Jordan como um nome essencial entre os grandes discos internacionais do ano.
Black British Music (2025) – Jim Legxacy

Black British Music (2025) engana à primeira escuta. A leveza melódica, quase despreocupada, esconde um disco que digere traumas profundos, frustrações cotidianas e feridas geracionais com uma naturalidade desarmante. Jim Legxacy transforma experiências duras em canções acessíveis, doces e emocionalmente complexas.
Entre afropop ensolarado, beats ágeis que evocam videogames e viradas nostálgicas de R&B, o álbum constrói um retrato íntimo e contemporâneo da juventude negra britânica — sem manifesto explícito, mas com verdade emocional. Lançado pela XL Recordings, o disco confirma Legxacy como um compositor singular, capaz de equilibrar melancolia e melodia com rara sensibilidade.
Black British Music (2025) não apenas marca uma estreia forte em selo grande, como estabelece Jim Legxacy como um talento geracional entre os grandes discos internacionais do ano.
The Clearing – Wolf Alice

Em The Clearing, o Wolf Alice soa plenamente consciente do lugar que ocupa — e confortável nele. O quarto álbum revela uma banda madura, segura e emocionalmente expandida, capaz de olhar para temas como amor, amizade e o avanço do tempo sem dramatizar nem suavizar demais as arestas. Há reflexão, mas também aceitação.
O disco equilibra força e delicadeza: riffs encorpados, baterias ásperas e pianos marcados pelo uso convivem com melodias que respiram e se permitem silêncio. É nesse espaço — entre certezas que já não existem e dúvidas que não assustam mais — que o Wolf Alice encontra sua melhor forma. The Clearing não busca rupturas nem reinvenções radicais; ele cresce por dentro. Um trabalho sólido, elegante e profundamente humano, que reafirma a banda entre os nomes centrais da música internacional contemporânea.
“A Matter of Time” – Laufey

A Islândia segue revelando nomes marcantes, e Laufey é um dos maiores destaques da nova geração. Em A Matter of Time, lançado em 2025, a cantora e compositora aprofunda sua fusão entre jazz, soul, pop, música clássica e bossa nova.
São 10 faixas minimalistas, suaves e carregadas de sentimento, que reafirmam sua habilidade em criar climas íntimos e emocionantes. O álbum amplia sua identidade artística e a estabelece definitivamente como uma das vozes mais importantes da cena jazz contemporânea.
Fancy That – PinkPantheress

Fancy That começa como um cartão de visitas e rapidamente se transforma em afirmação estética. Desde a apresentação quase tímida e irônica, PinkPantheress deixa claro que está no controle do próprio universo — um espaço onde passado e presente do pop se encontram com leveza, humor e desejo.
O disco funciona como um jogo de amarelinha entre referências: batidas açucaradas, samples escolhidos com precisão cirúrgica e letras que soam como páginas de um diário emocional. Tudo é pequeno em escala, mas enorme em identidade. Há kitsch, charme e uma nostalgia filtrada pela internet, sem soar presa a ela. Fancy That é PinkPantheress em sua forma mais segura, transformando simplicidade em linguagem própria e reafirmando seu lugar como uma das vozes mais inventivas e cativantes do pop contemporâneo.
Maria Somerville – “Luster”

Das inspiradoras e belas paisagens do oeste da Irlanda, surgiu o belíssimo “Luster”, segundo álbum da cantora, compositora e apresentadora de programa de rádio (!) Maria Somerville. Um trabalho permeado pela exaltação à vida simples, distante do caos urbano, à aproximação com a natureza e à sensação de pertencimento oriunda do convívio em comunidade, da colaboração mútua e do compartilhamento de experiências entre pessoas próximas.
A sonoridade passeia com desenvoltura mágica pelo folk intimista, percorre por caminhos sustentados no sólido legado do pós-punk juntamente com o pop experimental, indo de encontro às atmosferas instigantes e peculiares proporcionadas pela herança shoegaze de Chapterhouse e My Bloody Valentine.
O canto sussurrado, doce e afável de Somerville é uma benesse celestial em tempos de incertezas das mais diversas. Lindas canções como ‘Projections’, ‘Garden’ (grande destaque de “Luster”) e ‘Up’ exemplificam bastante o verdadeiro acalento sonoro dessa brilhante artista irlandesa que merece bastante atenção.
Yasmine Hamdan – “I Remember I Forget”

Essa admirável cantora nascida em Beirute e radicada em Paris não pode ser considerada uma “revelação”, tendo em vista que já possui um bom tempo de trajetória. Porém, conhecer o seu trabalho resulta muito bem no significado de uma valiosa descoberta, daquelas mais instigantes, modernas e estupendas. “I Remember I Forget” traz o canto envolvente e hipnótico de Hamdan em meio a camadas e atmosferas que podem lembrar belas incursões nos assombros arrebatadores de um Massive Attack, por exemplo.
Parceira musical de longa data do francês Marc Collin (Nouvelle Vague), que é o coprodutor do álbum, a cantora libanesa flerta com o experimentalismo, trazendo para o universo pop/alternativo a riqueza sonora característica e singular da música árabe. A tradição contempla o presente (ou seria o futuro?) na sua música. Yasmine explora os sons do ocidente, sem jamais se desvincular de suas origens, sendo que os conflitos, as incertezas políticas e a destruição – em todos os níveis – de um povo e de suas terras ecoam nas canções, em um apelo vivo, com ardor, numa junção de melancolia e esperança, dor e persistência.
A voz magnética já persuade sutilmente na fulgência de ‘Hon’ na abertura, em que a iminente concretização da finitude é abordada, com a inquietude da tristeza e da impotência perante o caos (mostrado globalmente nas variadas telas de dispositivos) encontrando a beleza do alento proporcionado pela desenvoltura melódica. Em seus quase 40 minutos, este álbum parece ter certo poder de materializar aquele precioso objetivo de uma busca incessante, o mesmo que grande parte do mundo cada vez mais exibe sinais de já ter perdido o interesse humano em encontrar.
Baby! – Dijon

Em Baby!, Dijon leva sua estética ao ponto de ebulição. A produção continua íntima, quente e quase tátil — como se o ouvinte estivesse dentro do mesmo espaço físico em que as canções ganham forma —, mas agora tudo soa mais urgente, mais descontrolado e mais intenso. É um disco que vibra, respira e se expande sem nunca perder a proximidade emocional.
As músicas parecem caminhar entre o êxtase e o colapso, usando imperfeições, ruídos e camadas orgânicas como parte da experiência sensorial. Baby! não busca acabamento ou conforto: busca transcendência. Dijon transforma vulnerabilidade em força criativa e entrega um álbum que funciona menos como coleção de faixas e mais como estado de espírito. Um dos trabalhos mais espirituais, ousados e envolventes do ano.
Choke Enough – Oklou

Choke Enough é um disco que existe no limiar entre presença e desaparecimento. Oklou constrói um pop etéreo, quase aquático, pensado para ser ouvido em volumes baixos — não por delicadeza, mas por uma espécie de autopreservação emocional. Há um desejo claro de não ocupar espaço demais, de passar pelo mundo sem chamar atenção excessiva.
A experiência de escuta é como abrir uma janela em um ambiente abafado: o ar entra limpo, frio e silenciosamente transformador. As camadas eletrônicas são sutis, as melodias flutuam e as vozes parecem sussurradas para dentro de si mesmas. Choke Enough encanta justamente pela contenção, pela recusa do excesso e pela força do mínimo. Um disco hipnótico, sensível e profundamente contemporâneo, que encontra beleza no quase nada — e por isso mesmo permanece.
15. Geese - Getting Killed

Getting Killed é o tipo de disco que te coloca num estado de alerta desde os primeiros segundos. O Geese sempre mostrou potencial, mas aqui eles entregam algo mais maduro, mais coeso, mais intencional. Há uma tensão constante nas guitarras, uma urgência quase física nas melodias, como se cada faixa estivesse tentando escapar de si mesma.
14. Viagra Boys - viagr aboys

O novo álbum do Viagra Boys mantém o espírito caótico da banda, mas com um controle melhor das intenções. Há ironia, crítica e um senso de urgência que sustenta o disco inteiro. O vocal segue áspero e direto, enquanto a instrumentação mistura peso e ritmo de um jeito que já virou marca registrada. É sujo na medida certa, provocativo sem cair na autoparódia, e eficaz em transmitir tanto humor quanto inquietação.
A banda entende exatamente o próprio papel e entrega um trabalho sólido, que funciona tanto pelo impacto quanto pelo cuidado na produção.
Debí Tirar Más Fotos – Bad Bunny

Em Debí Tirar Más Fotos, Bad Bunny transforma arrependimento em grandeza artística. O título, simples e melancólico, funciona como fio condutor de um disco expansivo, ambicioso e emocionalmente preciso, no qual cada faixa parece capturar um instante que não pode mais ser revivido — apenas sentido.
O álbum é uma celebração vibrante das matrizes latinas, costurando salsa, bomba, plena, reggaeton e outras tradições com naturalidade e respeito. Narrativamente, é ainda mais poderoso: há dor amorosa que atravessa gerações, saudade moldada pela diáspora, ironia dirigida ao passado afetivo e um olhar político lúcido e grave sobre identidade e território.
Debí Tirar Más Fotos é Bad Bunny no auge — consciente de seu alcance, conectado às próprias raízes e capaz de transformar memória pessoal em experiência coletiva. Um disco monumental, à altura de um artista em pleno domínio de sua linguagem.
Addison – Addison Rae

Addison nasce de sensações difusas — cores, humores, estados de espírito — e transforma esse método intuitivo em um dos estreantes pop mais seguros e carismáticos dos últimos anos. Ao dispensar referências sonoras óbvias, Addison Rae encontra uma identidade própria, feita de brilho suave, desejo e observações enigmáticas sobre amor, fama e dinheiro em um tempo que pede hedonismo com consciência.
O disco funciona como um rito de passagem da cultura digital para o pop em sentido amplo. Há encanto, vulnerabilidade e uma autoconfiança crescente, como quem entende o palco que ocupa e decide ampliá-lo. Quando Rae se pergunta até onde pode chegar, Addison já aponta a direção: um começo ambicioso, elegante e promissor.
I Quit – Haim

Em I Quit, o Haim entrega o disco mais diverso e confiante de sua carreira. Dividido entre canções expansivas, feitas para grandes palcos, e momentos de introspecção contida, o quarto álbum do trio revela uma banda confortável em transitar por diferentes linguagens sem perder identidade.
Há ganchos pop diretos, memórias de estrada carregadas de afeto, flertes com o country e explosões de rock guiadas por urgência emocional. No centro de tudo, Alana, Danielle e Este assumem o controle da narrativa pós-término, recusando o papel passivo e transformando ruptura em afirmação. I Quit é um disco de autonomia, maturidade e liberdade criativa — um passo adiante para uma banda que segue se reinventando sem abrir mão de quem é.
LUX - Rosalía

Em LUX, Rosalía reafirma sua capacidade de transformar riscos estéticos em música pop de alta qualidade. O álbum é experimental, mas nunca gratuito; íntimo, mas nunca frágil demais. A produção é meticulosa, cheia de detalhes que ampliam o impacto emocional das faixas. Rosalía canta com uma precisão impressionante, oscilando entre vulnerabilidade e imponência.
O disco trabalha temas de desejo, fé e reinvenção com uma sofisticação rara no pop contemporâneo. LUX não é imediato — é um trabalho que se revela aos poucos, e justamente por isso permanece.
Euro-Country – CMAT

Euro-Country é o disco em que CMAT ocupa todo o espaço — sem pedir licença. Depois de transformar uma canção sobre ataques online em um momento global, Ciara Mary-Alice Thompson usa seu terceiro álbum para provar que humor, raiva, trauma e orgulho podem coexistir na mesma obra sem se anular. Pelo contrário: se fortalecem.
Entre gargalhadas afiadas e golpes emocionais inesperados, o disco atravessa feridas profundas da experiência irlandesa, comenta capitalismo com ironia pop e transforma o cotidiano em metáfora com inteligência rara. Tudo isso embalado por uma escrita afiada, melodias expansivas e uma presença artística que não se esconde nem se explica demais. Euro-Country é complexo, contraditório e vibrante — exatamente como sua autora. Um álbum que mostra o que acontece quando uma artista plenamente consciente de sua voz recebe liberdade total para ser quem é.
Lily Allen – “West End Girl”

Em um ano no qual as grandes estrelas do primeiro escalão do pop – Miley Cyrus, Lady Gaga, Taylor Swift – lançaram bons álbuns, eis que uma notável inglesa ressurge inesperadamente após considerável período de ausência e surpreende com um dos trabalhos mais poderosos, honestos e cativantes. É notório que relacionamentos rompidos motivaram históricas criações nas mais variadas expressões do universo artístico. Além da qualidade sonora facilmente perceptível, “West End Girl” traz a manifestação de força da cantora que, após praticamente duas décadas, mantém certa trajetória sem jamais deixar que exposições exacerbadas se sobreponham à autenticidade que sustenta a construção de sua carreira no cenário musical.
O que poderia ser um prato cheio para fomentar escândalos midiáticos de toda espécie hoje em dia e qualquer fragmento de sensacionalismo moderno nesta era de posts ultrarrápidos e reações imediatas e esquecíveis, se tornou ferramenta nas mãos (e, claro, na bela voz) dela da melhor forma e maneira viáveis para lidar com um fato tão pessoal e particular, de efeito vulnerabilizador, impactante e transformador. E aqui as canções de Allen dão conta tão bem disso que a audição não traz o ouvinte para uma imersão desconfortável e amarga.
Muito pelo contrário, o que se tem é uma sucessão de faixas deliciosamente pop de total respeito, como ‘Ruminating’, ‘Madeline’ (entenda como um recado direto para quem a carapuça servir), ‘Relapse’ e aquela que entra fácil na lista das melhores músicas de 2025, a vibrante e irresistível ‘Pussy Palace’. “West End Girl” é resultado de uma Lily mais linda do que nunca, fortalecida e ditando os rumos de seu percurso de cabeça erguida, sem precisar provar nada a ninguém.
Deftones – Private Music

É impressionante como o Deftones atravessa mais de três décadas sem perder identidade nem tensão. Private Music soa como a consolidação de tudo o que a banda construiu: riffs densos, groove pulsante e aquela sensualidade sombria que sempre caminhou lado a lado com a brutalidade. É um disco que não precisa provar nada, mas ainda assim soa faminto, físico, atento ao detalhe e à atmosfera.
Chino Moreno segue sendo o fio condutor entre extremos, ora rasgando, ora acariciando, enquanto a banda inteira trabalha o contraste com precisão cirúrgica. Peso e delicadeza coexistem o tempo todo, criando um som que ocupa o corpo e a mente ao mesmo tempo. Private Music reafirma algo raro: o Deftones não envelheceu tentando se atualizar. Evoluiu permanecendo inteiro. E continua sendo sentido, não apenas ouvido.
45 Pounds – YHWH Nailgun

45 Pounds não faz concessões — e essa é justamente a sua força. O YHWH Nailgun opera nas bordas do indie, criando um disco curto, intenso e profundamente físico, pensado para quem aceita se perder em estruturas instáveis e ideias em permanente mutação. Em pouco mais de 20 minutos, o álbum se transforma diversas vezes, como um organismo em combustão contínua.
A percussão incessante funciona como eixo de tensão, empurrando faixas que desafiam gênero, forma e expectativa. Nada aqui soa confortável ou previsível, mas tudo é estranhamente viciante. 45 Pounds é música em estado de risco: progressiva, pulsante e ousada o suficiente para testar seus próprios limites — e os do ouvinte. Um dos trabalhos mais aventureiros e hipnóticos do ano, feito para quem encara a música como território de experimentação.
Now Would Be a Good Time – Folk Bitch Trio

Now Would Be a Good Time aposta no que nunca sai de cena: harmonias vocais que se entrelaçam como destino. O disco é enigmático, atmosférico e carregado de tensão silenciosa, soando como uma trilha perdida — bela e inquietante — para um drama que nunca se explica por completo.
Ao longo de nove faixas, o Folk Bitch Trio comprime desejo, paixão, amadurecimento, incerteza, sexo e morte em canções onde as vozes são o eixo de tudo. Elas conduzem, confrontam e assombram, criando um clima suspenso entre o íntimo e o espectral. Now Would Be a Good Time é um álbum de delicadeza sombria, que encontra força na contenção e confirma o trio como uma presença singular dentro do folk contemporâneo.
Hayley Williams – Ego Death at a Bachelorette Party

Hayley Williams sempre foi intensidade em combustão, mas aqui ela abandona qualquer ideia de performance. Ego Death at a Bachelorette Party soa como um disco lançado aos pedaços, fragmentado, confessional, quase improvisado, e é justamente aí que ele acerta. As músicas funcionam como páginas de um diário exposto sem retoque, lidando com exaustão, trauma, autonomia e a necessidade de deixar morrer versões antigas de si mesma.
No meio desse caos emocional, Whim surge como um respiro lindo e viciante. As camadas grudam na gente, a levada é gostosa, o pop flui com um ritmo contagiante que insiste no repeat. A voz adocicada de Hayley soa quase angelical, íntima, como se estivesse cantando só para quem está ouvindo. Não é um disco confortável nem linear, mas é profundamente humano, um rito de passagem em que ela escolhe existir em voz própria, mesmo quando isso dói.
Wet Leg – “moisturizer”

2025, sem dúvida, foi o ano de Rhian Teasdale e Hester Chambers, a formidável dupla à frente da banda britânica mais comentada da atualidade. “moisturizer” vai muito além da quebra do histórico paradigma desafiador do ‘segundo álbum’ da discografia. É a afirmação convincente de uma banda que dialoga com o seu tempo, se impõe sem a mácula das concessões do pop fast food e traz simultaneamente aquele certo frescor, inquietude e irreverência que pareciam perdidos em alguma fresta intransponível de algum passado aí.
Rhian se assume apaixonada, convicta, corajosa e expõe invejáveis autenticidade e autonomia, seja colocando machos desavisados e folgados em seu devido lugar (‘catch these fists’) ou aderindo à doçura nostálgica em ‘davina mccall’. “moisturizer” está aí para deixar bem nítido que o rock ainda pode ser provocador, divertido, subversivo, em canções memoráveis e atitude que se distancia de artifícios banais.
Turnstile – “NEVER ENOUGH”

Na lista dos shows de 2026 mais aguardados por aqui, o quinteto de Baltimore consolidou com maestria os avanços e a ousadia criativa presentes no ótimo “GLOW ON” de 2021. Pode-se dizer que a faixa-título, com seu misto de beleza e peso, funciona como uma ‘Smells Like Teen Spirit’, prenunciando a tônica predominante no decorrer do álbum. A paulada certeira de ‘BIRDS’ alia a urgência do Black Flag àqueles riffs arrastados do Helmet nos anos 90. O vocalista Brendan Yates acerta – muito -também na produção.
Turnstile expande as inovações de seu (pós?) hardcore, flertando espontaneamente com synth, camadas etéreas, grooves irresistíveis (atenção no baixo de Franz Lyons) e até Sting/The Police. Em mais um ano de relevante domínio feminino na música, é importante destacar a presença enriquecedora da guitarrista Meg Mills.
Eusexua – FKA Twigs

Eusexua é menos um disco e mais um estado sensorial. FKA Twigs transforma experiência corporal, espiritualidade e pista de dança em linguagem própria, criando um álbum que nasce do êxtase, mas não se limita a ele. Inspirada por vivências em clubes de techno, a artista constrói uma obra onde prazer, vulnerabilidade e transcendência caminham juntos.
As faixas se sucedem como revelações físicas e emocionais: há anonimato, desejo, entrega e também confronto interno. Entre batidas hipnóticas e momentos de exposição radical, Twigs se reinventa sem apagar quem foi — ela se reencontra. Eusexua entende a dança como rito coletivo, como espaço de cura e comunhão, onde o corpo também pensa e sente. Um disco intenso, espiritual e libertador, que reafirma FKA Twigs como uma das artistas mais visionárias da música contemporânea.















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