The Cure: Songs of a Lost World e a arte de envelhecer sentindo tudo
- Marcello Almeida

- há 11 horas
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A tristeza muda de forma quando o tempo passa. Mas nunca deixa de ser verdade

Foram 16 anos de silêncio até que o The Cure voltasse a dizer algo novo. Não no sentido da novidade, da urgência ou da atualização estética, mas no sentido mais raro de todos: dizer algo verdadeiro. Songs of a Lost World não nasce de pressa, nem de demanda. Nasce do tempo. E o tempo, aqui, pesa.
O disco abre um diálogo honesto sobre envelhecer, sobre a memória, sobre a constatação silenciosa de que aquela euforia juvenil um dia cede espaço a outro tipo de emoção. Não melhor, nem pior. Apenas diferente. Os efeitos da idade não se anunciam com alarde; eles chegam de mansinho, tocando cada alma de um jeito próprio.
Apesar de ter apenas oito faixas, Songs of a Lost World não corre. Não acelera. Não pede atenção imediata. É um álbum lento, paciente e consciente de si. Isso não significa que o Cure tenha perdido sua energia ou sua veia punk. A atmosfera gótica, sombria e profundamente sensorial da banda está ali, intacta. O que mudou foi a forma de sentir. E isso é libertador.
Robert Smith e companhia já não precisam devorar a vida com voracidade. Há uma maturidade que permite saborear a tristeza, respirar dentro dela, entendê-la sem pânico. Existe algo sedutor nessa liberdade de aceitar o peso dos anos e transformá-lo em música. Coisa que eles fazem com tamanha perfeição e genialidade. Que disco, meus amigos, que disco.
Talvez a vida seja exatamente assim. À medida que envelhecemos, a tristeza muda de linguagem. Pessoas chegam, pessoas partem, e cada uma deixa um vestígio invisível em algum canto da alma. Já não ficamos tristes pelos mesmos motivos de antes. Boys Don’t Cry sempre foi mais desejo do que verdade. A tristeza nunca foi fraqueza. Sempre foi presença. Sempre foi necessária.
O Cure continua brilhando feito uma estrela escura, com shows que ultrapassam três horas e uma postura rara em tempos de consumo acelerado. Livre das pressões do streaming, de métricas e de relevância instantânea, a banda retorna com um disco que não tenta recuperar o tempo perdido. Ele aceita seu lugar no mundo e segue no próprio ritmo. Sem pressa. Isso, por si só, é profundamente excitante.
Aqui não há espaço para canções de amor ingênuas ou eufóricas como The Lovecats ou Just Like Heaven. Amo as duas, só pra deixar claro. Songs of a Lost World soa calmo, cansado, melancólico e poeticamente adulto. Um espelho honesto daquele fim de 2024 em minha vida, em que tudo aconteceu rápido demais e desapareceu rápido demais. Que presente melhor poderia existir do que um novo álbum do Cure dizendo para irmos mais devagar?
Smith parece se apossar das emoções do ouvinte, dilacerando cada nota como quem conhece intimamente esse aperto no peito. Esse sufoco silencioso que acompanha tempos áridos, onde tudo se perde antes mesmo de ser compreendido.
Talvez por isso o disco caminhe lentamente. Respira. Solta. Deixa ir. Ao contrário de tantas bandas atuais, o Cure não precisa provar vitalidade, juventude ou relevância. Não há mais nada a provar. O Grammy veio, aliás, dois, mas isso não muda nada, não valida nada nessa trajetória linda deles. Nunca precisaram disso, nunca precisaram de permissão.
E isso é o mais honesto. Olhe para as eventualidades da vida: talvez acabemos nos parecendo com eles. Smith parece dizer que já não carrega medo da morte, do envelhecer ou das incertezas. E essas oito canções gotejam diariamente sobre nós, à medida que ficamos mais frágeis.
Songs of a Lost World chega como um presente inesperado numa noite chuvosa, escorrendo pelo vidro da janela. A noite combina com esse disco. Sua sonoridade é densa, escura e genuinamente madura.
A abertura com Alone é um manifesto silencioso. Um lembrete de que o rock pode envelhecer com dignidade, mesmo quando carrega tristeza. Há beleza em cada nota pesada que a vida compõe. Brindar o vazio com fragmentos amargos também é uma forma de amor. A melancolia da faixa não apenas inaugura o álbum, como estabelece o tom de tudo o que vem depois. É solidão, mas também aceitação.
“Para onde foi?”
Talvez não exista resposta. Mas existe um conforto estranho em perceber que nossos medos se tornam reais e, ainda assim, seguimos vivos, com alguma dignidade e ainda sentindo.
A Fragile Thing ecoa como uma canção de amor sombria sobre ausência, desgaste e saudade. Um amor que começa quente e intenso e termina frio, diluído pela rotina, pelos ressentimentos e pelas mudanças de percurso. Amor também é fragilidade. Sempre foi. O Cure continua perversamente edificante em seu niilismo. Robert Smith se transmuta em raiva, ansiedade, tristeza e dúvida, lembrando a honestidade devastadora de Kafka em A Metamorfose.
Warsong é gótica, climática e angustiante. Um lamento sobre tudo aquilo que poderia ter sido. Há doçura nessa tristeza, que se desdobra no rock noir de Drone: Nodrone. É o Cure em estado puro: épico, sombrio e estranhamente minimalista. Cada elemento importa. Cada som carrega peso. O baixo, a bateria, a guitarra rasgada, o piano quase silencioso. Tudo parece necessário, como se o vazio exigisse cada nota para existir.
Em I Can Never Say Goodbye, Smith encara de frente o peso da perda. A canção, dedicada ao irmão falecido, fala da dificuldade brutal de dizer adeus. Não há teatralidade aqui. Só verdade.
No fim, Songs of a Lost World deixa a sensação de que somos pó ao final de cada canção. Mas sempre há uma luz discreta guiando o caminho. Um coração pulsando na escuridão. Um abrigo possível.
Indiscutivelmente, o trabalho mais pessoal do Cure. A mortalidade sussurra ao redor, mas há cores escondidas na sombra. Há flores brotando entre pedras frias. E enquanto houver música assim, envelhecer não será perder. Será apenas sentir diferente.
















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