'Yankee Hotel Foxtrot', A obra-prima do Wilco que abriu portas para uma nova sonoridade

Esse é daqueles discos notáveis de ficar ali pertinho do coração

Wilco (da esquerda para a direita): Leroy Bach, Jeff Tweedy, Glenn Kotche e John Stirratt. 2002

Pegando carona na vibe de que 'Yankee Hotel Foxtrot' do Wilco, completou 20 anos em abril deste ano (o tempo voa, parece que foi ontem), falaremos um pouco sobre essa obra-prima icônica da música alternativa, um dos melhores álbuns já feitos nos anos 2000, e vem sobrevivendo muito bem ao efeito do tempo; quanto mais os anos passam, mais sua audição se aflora em camadas estonteantes e impactantes. Para você entender melhor, esse é aquele tipo de disco que a cada nova audição você descobre alguma batida nova, um ruído novo, um elemento novo... a sonoridade apresentada pelo Wilco em Yankee...foi algo totalmente inovador e ousado. Um disco amplamente experimental, Jeff Tweedy e cia parecem tomar posse de uma parafernália de instrumentos para reproduzir a magia do álbum.


Entretanto, nem tudo foi um mar de rosas para trazer ‘Yankee Hotel Foxtrot’ para o mundo, o quarto disco do grupo de Chicago, rendeu alguns conflitos com a gravadora da banda, a Warner/Reprise, por conta da sonoridade "não comercial do álbum", e marcou também à saída do guitarrista Jay Bennett. A banda recusou a proposta da gravadora de remodelar o disco para deixa-lo mais comercial e comprou as fitas de estúdios já finalizadas da Reprise.


Com álbum nas mãos e sem gravadora o Wilco encontrou abrigo no pequeno selo nova-iorquino Nonesuch Recs e finalmente o disco chegou às lojas, e o desfecho disso vocês já sabem qual foi, né? Sem dúvidas um baita disco, muito além do seu tempo, agora, se me permitem a divagação, imagine você em uma época onde a internet ainda era discada, esqueça as plataformas de streamings, smartphones e outras tecnologias, a gente ouvia os discos na rádio Terra, quando finalmente a internet conectava.


A revolução que o Radiohead fez com 'Ok Computer' em 97, o Wilco reformulou em 2002 com 'Yankee Hotel Foxtrot'. Uma banda totalmente livre das amarras do rótulo de conjunto Country Alternativo que lhes foi concedido com o belo álbum duplo 'Being There' de 1996, o Wilco brincou docemente com a construção das ótimas canções de 'Summerteeth' de 1999, e foram muito além de suas limitações e criaram algo complexo e perigosamente cativante, liricamente sofisticado e provocativo, repleto de ruídos e de alguma forma sereno.


'Yankee Hotel Foxtrot' confirmou todas as suspeitas, o Wilco sempre esteve certo, a gravadora estava errada.

A extensa e instigante "I Am Trying to Break Your Heart" que abre o disco já revelava do que o Wilco era capaz, a faixa é encantadoramente sombria quanto qualquer coisa que Tweedy tenha escrito até hoje. Sintetizadores e sons metálicos permeiam por toda atmosfera da canção. Enquanto a positividade alegre de "Heavy Metal Drummer" ressoa por entre versos cintilantes, perfeita para aqueles dias de céu azul aberto. Os violões harmoniosos e convidativos da elegante "Kamera" dissipa toda atmosfera sombria da faixa de abertura, mas não deixa de carregar seus toques nostálgicos com aquele espírito de tristeza entrelaçada em suas entrelinhas, uma canção Folk-Pop que lembra os traços da linda "A Day in the Life" dos Beatles. A faixa esbanja cenas do processo criativo alcançado pelo Wilco.


"Ashes of American Flags" deságua em uma sonoridade introspectiva e experimental comovente que assume um ar psicodélico e pungente após os terríveis ataques ao World Trade Center. "Todas as minhas mentiras são sempre desejos, Eu sei que morreria se pudesse voltar novo," canta Jeff Tweedy. Assim como outros grandes artistas, o caminho adotado pelo Wilco pode ter incomodado muitos fãs da fase 'AM', como também ter causado certos desconfortos em uma certa gravadora que terá que viver até o seu último dia com o peso de ter dispensado um dos grandes discos dos anos 2000. No caso do Wilco sua sonoridade veio apenas evoluindo desde 'AM' de 1995, ganhado traços cada vez mais contemporâneos para libertar uma complexidade rara na música pop, mas diluída perfeitamente em 'Yankee Hotel Foxtrot'.


"Jesus, Etc." pode muito bem ser o epicentro criativo do Wilco, um Folk-Pop com rajadas de violinos magistrais que tirou aplausos de Bob Dylan, as guitarras soam celestiais e Jeff Tweedy já se consagrava como um ótimo letrista. Existe uma simplicidade que percorre em cascata quando ele canta: "Prédios altos tremem, vozes escapam, cantando canções tristes e tristes em dois acordes/ Amarrados em suas bochechas, melodias amargas girando sua órbita". Triste, sublime e adorável.


Um disco delicioso e sedutor, com uma aura discursiva, reflexiva e conceitual repleto de cinismo, melancolia e guitarras acústicas. Portanto, um álbum de rock fantástico. E por que te contar? Todos vocês já sabem disso.

 

Yankee Hotel Foxtrot

Wilco


Lançamento: 16 de abril de 2002

Gênero: Rock Alternativo, Indie Rock, Art Rock

Ouça: "Jesus, Etc.", "Kamera" e "I Am Trying to Break Your Heart"

Humor: Enigmático, Catártico, ambicioso

 

NOTA DO CRÍTICO: 10

 

OUÇA NO SPOTIFY:

















 

OUÇA "JESUS, ETC."


 

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