top of page

Tudo tem um começo: 33 anos de Pablo Honey, do Radiohead

O som de uma banda antes de virar sinônimo de inovação

Radiohead
Imagem: Reprodução

No começo dos anos 90, o mundo da música alternativa vivia a euforia e toda a comoção do grunge, do Nirvana, Pearl Jam e tantos outros; enquanto isso, todo mundo observava de perto a louca corrida pela próxima grande banda. O Radiohead surge justamente nesse furacão feroz, mais precisamente em 93, com o disco Pablo Honey (esse divide opiniões). Logo na primeira audição, ele parecia exatamente isso mesmo: mais um nome entrando na grande fila. Guitarras altas, refrões diretos, canções banhadas por toda aquela urgência juvenil.



O disco em si dialogava muito com tudo que já estava rodando por aí: Nirvana, U2, R.E.M. E mal sabia a indústria que aquela banda que nascia ali, ainda meio perdida, sem saber direito o que queria ser, viria a se tornar o que se tornou e o que ainda iria causar no mundo.


Existe aquele velho ditado de que existem discos que já nascem clássicos. E tem aqueles que nascem no meio do caos, em total conflito. Isso talvez fizesse sentido lá atrás, quando ele foi lançado. Ouvir Pablo Honey hoje, afastado e distante de todo o contexto histórico da época, muda tudo.


Com tudo que vinha surgindo naquele período, quando você olha para o trabalho de estreia do Radiohead, sente que as estruturas eram mais tradicionais, aquele som mais cru, com uma produção sem muitos riscos, algo mais contido mesmo. Mas o que pouca gente enxerga nesse álbum subestimado até demais, na minha opinião, é que, por trás de toda aquela casca noventista, já existia algo que não era tão comum ali: hoje eu vejo um certo desconforto íntimo. Talvez ele tenha sido vendido como um disco sobre revolta coletiva. Mas, se você escutar com atenção, apreciar as letras, ele se torna um álbum sobre inadequação.


“You” abre o álbum com energia, tensão, melancolia, características que anos depois ganhariam novas camadas. “How Do You”, gosto dessa, gosto da presença que ela impõe, não é revolucionária em nada. É uma canção de ótimas guitarras. “Stop Whispering” e “Anyone Can Play Guitar”, todas elas carregam aquela ambição juvenil de quem quer provar que pode ocupar espaço, nós somos capazes. Mas é com “Creep” que tudo se condensa. Maior hit deles. Goste você da banda ou não.


E não sou eu que estou dizendo. A música se tornou gigante. Abriu portas. Ao mesmo tempo, virou aquela faixa de sombra. Thom e cia. se tornaram maiores do que “Creep”. A discografia prova isso. Mas muita gente esquece de um detalhe que transforma essa canção em algo maior do que um mero hit de começo de banda: a entrada nervosa e abrupta da guitarra de Jonny Greenwood.



Aquela distorção que rasga o verso não está ali apenas para enfeitar ou gerar efeitos. Ela está ali para estragar, interromper e constranger. Só que não estraga nada, ela materializa o desconforto da letra. E é justamente aí que começa a nascer o Radiohead que depois iria desafiar formatos.


O sucesso de “Creep” pode ter feito muita gente acreditar que eles ficariam presos ali. Que seguiriam como mais um nome dentro da estética confortável da época. Mas tudo ali dentro de Pablo Honey já apontava caminhos, fissuras um tanto interessantes. “Thinking About You” tem vulnerabilidade, tem beleza crua até demais.


Mas você já olhou com a devida atenção para “Blow Out”, faixa que encerra o disco? Talvez seja o momento mais revelador: quando você ouve com atenção, percebe que a dinâmica começa a se expandir, a tensão cresce, não é uma música apenas de verso e refrão. Ali já tinha um embrião formado do que viria depois.


Eu nem falei de “Lurgee”, volte uma música e a ouça novamente.


Quando The Bends chegou, o queridinho de muita gente, adoro ele, por sinal, ficou evidente que o primeiro disco não era um destino fixo. O Radiohead era dono de uma inquietação grande demais para caber em um único disco. Eles tinham muito mais para dizer, muito mais para explorar. Aquilo que você ouviu no primeiro álbum era um ponto de partida.


A sonoridade ganhou um ar mais denso, as letras pararam de olhar para fora e começaram a encarar, de fato, o vazio existencial. Os arranjos ficaram mais ambiciosos, ousados, pararam de pedir atenção e começaram a exigir entrega na escuta. A banda começou a moldar sua identidade de verdade. E então veio OK Computer, explodindo qualquer expectativa e redefinindo o que o rock alternativo podia ser. E a conversa toda mudou de tom. Depois, ainda haveria a ruptura total de Kid A e a maturidade sensível de In Rainbows.


Porém, meus amigos, nada disso iria existir sem aquele começo ainda perdido, lá em 93. O disco que muitos torcem o nariz, outros defendem com dentes e unhas, dizendo que ele ainda é um disco subestimado. Nada disso existiria sem o álbum que poderia ter sido só mais um lançamento na avalanche alternativa dos anos 90. Pablo Honey não é a obra-prima da banda, não é o ápice criativo. Mas é o retrato de uma banda antes da consciência da própria grandeza.



Enxergar o disco com esse olhar é justamente o que o torna tão interessante trinta e três anos depois. Quando paramos para ouvir essas músicas, não estamos apenas diante de um disco de estreia, estamos diante de uma banda vivendo aquele momento em que ainda não sabiam que mudariam o rumo da cena alternativa, da distribuição de músicas. Ainda eram apenas um grupo de amigos, jovens, tentando transformar suas inquietações em som.


E, às vezes, é exatamente aí que tudo começa.


Feliz Pablo Honey para você.




bottom of page