The Strokes apoiam Lula e expõem a velha fantasia de um rock sem política
Ao declarar apoio à reeleição do presidente brasileiro, a banda americana reacende uma discussão que acompanha o rock há décadas: por que ainda existe tanta resistência quando artistas decidem expressar suas convicções políticas?

Uma estrela vermelha ocupa quase toda a imagem. Na parte inferior, Luiz Inácio Lula da Silva discursa para uma multidão. A fotografia remete a outro período da política brasileira, mas a publicação é de 14 de outubro de 2026. Não saiu de um perfil partidário ou de uma organização sindical. Apareceu na conta oficial do The Strokes, uma das bandas mais influentes do rock alternativo deste século.
A imagem, criada por Filipe Lampejo e Rita Davis, foi acompanhada por “Oblivius (Moretti Remix)”, versão assinada por Fabrizio Moretti, baterista do grupo, nascido no Rio de Janeiro. A manifestação ocorre em meio à disputa do segundo turno presidencial brasileiro, marcado para 25 de outubro.
Não houve um longo manifesto. A banda publicou a imagem e tornou público seu posicionamento. O gesto também não representa uma mudança repentina na postura de Julian Casablancas. Durante o Lollapalooza Brasil de 2022, o vocalista já havia se manifestado contra Jair Bolsonaro. Quatro anos depois, o apoio a Lula aparece de maneira ainda mais explícita, agora no próprio perfil do grupo.
A publicação recoloca uma pergunta antiga no debate cultural: por que determinados públicos aceitam a rebeldia de seus artistas favoritos até o momento em que ela deixa de ser apenas uma estética?
O rock construiu parte de sua história questionando convenções sociais, guerras, governos, preconceitos e estruturas de poder. Isso não significa que todos os seus artistas compartilhem a mesma ideologia, tampouco que exista uma orientação política obrigatória para quem aprecia o gênero. Sua história é plural, contraditória e atravessada por conflitos.
Mas exigir que músicos se mantenham afastados da política é desconhecer uma dimensão importante da própria cultura que ajudaram a construir. Um artista não deixa de ser músico quando se manifesta sobre uma eleição. Assim como uma canção não perde seu valor porque o compositor possui convicções diferentes das nossas.
Apoiar Lula é uma escolha política do Strokes. Discordar desse apoio também é um direito. O problema começa quando a discordância se transforma na exigência de que artistas abdiquem de suas próprias opiniões para continuar merecendo admiração. Há uma diferença considerável entre discutir o posicionamento de uma banda e desejar que seus integrantes se limitem a reproduzir as músicas que aprendemos a gostar.
Casablancas nunca precisou da autorização de seu público para pensar politicamente. Fabrizio Moretti não precisa esconder sua relação com o Brasil. E os Strokes não têm obrigação de reduzir sua existência pública aos discos que lançaram.
A questão ganha outra dimensão quando observamos o momento político em que essa manifestação acontece. O Brasil atravessa uma eleição marcada por disputas intensas sobre o futuro do país, o papel das instituições e diferentes concepções de sociedade. É natural que artistas, intelectuais e cidadãos participem desse debate, inclusive assumindo posições que despertem controvérsia.
A cultura não existe em uma redoma de vidro, protegida dos acontecimentos históricos. Ela nasce dentro da sociedade, absorve suas tensões e, em muitos casos, devolve ao público perguntas que não encontram respostas confortáveis.
Também não é necessário transformar o apoio do Strokes em uma prova de superioridade moral ou intelectual. O posicionamento de um músico não substitui argumentos, não elimina divergências e não torna qualquer candidato imune a críticas.
O valor dessa manifestação está, sobretudo, na liberdade de fazê-la publicamente. É possível passar a vida ouvindo uma banda e discordar profundamente de suas escolhas políticas. O que não faz sentido é esperar que seus integrantes permaneçam eternamente presos à imagem que construímos deles.
Os discos continuam ali. Is This It, Room on Fire, First Impressions of Earth. A música permanece. O que muda é a percepção de quem imaginava que aqueles artistas existiam apenas enquanto os fones de ouvido estivessem ligados.
Em 2026, o Strokes decidiu colocar uma estrela vermelha em seu Instagram. O gesto tem um significado político claro, mas também revela uma tensão antiga entre a autonomia dos artistas e as expectativas de seu público.
Afinal, quem disse que gostar de uma banda significava ter o direito de escolher aquilo que seus integrantes podem pensar?
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