The Lodge desperdiça o elemento surpresa, mas garante bons momentos de tensão e suspense



A dupla Veronika Franz e Severin Fiala causaram momentos inquietantes e assustadores, com uma frequência impactante fora de série com seu filme de estreia Boa noite, Mamãe, de 2016. Obra que instigou e despertou inúmeros burburinhos pela internet e ganhou os corações de críticos e espectadores pelo mundo afora. A dupla está de volta com seu segundo thriller de terror psicológico The Lodge.


O longa já inicia de forma brutal e perturbadora, demonstrando a atmosfera sombria e densa que perpetuará sobre o filme. A trama tenta recriar vários aspectos e elementos encontrados no primeiro filme: duas crianças alojadas em uma cabana isolada, com circunstâncias que caminham para momentos de total delírio e loucura. As crianças em Boa Noite, Mamãe eram perversas, desalmadas, assombradas pelas sombras do passado; em The Lodge conquanto, podem ser qualquer uma dessas coisas ou nenhuma delas.

Os diretores optam pela imensidão claustrofóbica e vão entregando uma atmosfera de jogos psicológicos que não fazem usos de jump scare para impactar, assustar e prender a atenção do espectador. O filme acerta e erra nesse aspecto, mas mesmo assim consegue segurar sua atenção com fagulhas de mistérios. A ambientação contribui muito para isso.


A premissa do filme acompanha Laura (Alicia Silverstone, de O Sacrifício do Servo Sagrado) levando seus dois filhos para casa do pai. O casal está passando por um processo de divórcio, situação que gera um clima de descontentamento entre os filhos, pelo fato de não aceitar a nova namorada do pai. Essa Transição vai resultar em um evento impactante e perturbador que irá mudar a vida de ambos.


Após alguns meses do fato ocorrido, as crianças são convidadas a passar um tempo junto com nova namorada do pai, Grace (Riley Keough, de A Casa que Jack Construiu), como forma deles se conhecerem melhor e aceitar a moça de uma vez por toda na vida deles. Com muita contrariedade as crianças aceitam passar uns dias com Grace em uma cabana totalmente isolada e cercada pela neve. Ao chegar ao local Grace tenta de todas as formas se entrosar com as crianças, mas não vai demorar muito para que esse retiro na neve venha a se tornar algo perturbador e sombrio.


Grace é marcada por traumas do passado e tem seus segredos obscuros, já as crianças alimentam o sentimento de que Grace seja uma psicopata, elementos de sobra para enfatizar o enredo da dupla de diretores, que criam de forma instigante momentos de claustrofobia, perturbação e loucura, devido ao isolamento. E não demora muito para eventos esquisitos começarem a acontecer, elevando a sensação de mistério e suspense, criando atmosferas que não deixam claro se são de fato eventos sobrenaturais ou algum dos três na cabana está por trás daquilo tudo.


O aspecto visual do filme agrada e impressiona. O cenário envolto da imensidão de neve e a cabana, criam uma sensação assombrosa que lembra Os Outros (2000), até mesmo situações de conflitos e acusações que fazem referências ao clássico, O Enigma de Outro Mundo (1982), e uma série de simbolismos escondidos na história que lembram muito o filme de Ari Aster, Hereditário, de 2018.



The Lodge cria uma ambientação sombria para brincar com a imaginação do público que muitas vezes, falando narrativamente, acerta e por outras têm suas ressalvas. A medida que cada vez mais os personagens vão se afundando no desespero imposto pelo cenário claustrofóbico, o filme se perde um pouco entre o drama e o horror e vai jogando reviravoltas em cima de reviravoltas para se abastecer de suspense e mistérios.


Algo interessante nos enquadramentos é o devido cuidado para não focar o rosto de Grace, sempre a colocando por trás de vidros e janelas ou em cenas de costas. Detalhe chupado do primeiro longa da dupla, que vai apresentando a figura da mãe em dose lentas. Algo que sustenta de forma estimulante a força motora da trama e conduz o clima de mistérios.


Um filme de terror psicológico de alto nível que possui seus erros e acertos. Quando o longa parecia estar preparando para entregar um terceiro ato sinistro e um tanto impactante como o de Hereditário, os diretores decidiram pisar o pé no freio, e optar por um desfecho mais comum, mais óbvio. E essa decisão de descartar um elemento poderoso, acaba desconstruindo toda uma narrativa ensaiada desde o primeiro ato. Decisão essa que pode ser explicada por ter sido realizado nos EUA/UK. Trazer diretores europeus para trabalhar em Hollywood raramente da certo, os cineastas acabam sendo podados pelo sistema dos grandes estúdios.


Mesmo com um desfecho comum, é um filme que entrega uma atmosfera claustrofóbica, perturbadora, com ótimos momentos de tensão e suspense. Não chega a ser tão marcante e efetivo quanto Boa Noite, Mamãe. Pode até deixar lacunas abertas sem explicações, tudo bem. Sua força cresce em criar reações apresentando elementos para uma boa experiência nesses tempos sinistros da nossa atualidade.

 

The Lodge (2019)

O Chalé


Ano de Lançamento: 2020

Direção: Severin Fiala, Veronika Franz

Roteiro: Sergio Casci, Veronika Franz e Severin Fiala

País: EUA/Reino Unido

Gênero: thriller, Drama e Mistério

Duração: 1h 48 min

Elenco: Riley Keough, Jaeden Martell, Lia McHugh, Alicia Silverstone, Richard Armitage e outros

 

NOTA DO CRÍTICO: 7,0

 

Confira o trailer abaixo:


 

Texto originalmente publicado no site Urge!






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