The Last of Us II é uma jornada de constante reflexão sobre perda, vingança, dor, trauma e redenção.


Foto: Naughty Dog

Em 2013, o mundo aguardava o lançamento de um jogo que se transformaria num dos maiores e melhores destes tempos. Partindo como base a qualidade técnica, a história e o impacto que ele causou, sobretudo pelo final épico e pela construção dos personagens, a espera não foi à toa. Mais detalhes você pode conferir em nossa resenha de The Last Of Us, clicando aqui.


A produtora Naughty Dog tinha então a missão de perpetuar a saga de The Last Of Us. Depois de uma versão remasterizada do primeiro jogo em 2014 para o console PS4, tornava-se necessária a sequência. E foi exatamente neste ano que o diretor e roteirista Neil Druckman divulgou ter 100% de certeza numa continuação.


A apreensão de jogadores e críticos passou a rondar comentários pelos sites e redes sociais. Quando vídeos de uma hipotética gameplay do jogo começaram a surgir, apesar de haver segredos bem guardados em torno do enredo da história, novamente jogadores ao redor do mundo ansiavam outra grande obra-prima.


Em 2020, The Last Of Us II chegou. Uma recepção calorosa, contudo, gerando discussões e separando a turma dos haters e dos que ficaram encantados com tudo que estava no jogo. Do início ao final, um jogo cheio de surpresas, reviravoltas e tensões, e claro, não faltaram as polêmicas. Uma jornada complexa, aberta a variadas interpretações, muito mais que o primeiro jogo de sete anos atrás.


Permeada pela vingança, culpa, dor, trauma, remorso e redenção, a narrativa requer um jogador que aprendeu muito mais do que jogar, também acumulou em sua vida de jogatina o sentido da reflexão, da humanidade e de que jogos vão muito além da única finalidade de apenas entreter.

Uma parcela dos haters foi gerada por conta da preferência sexual de alguns personagens que Druckmann conseguiu pincelar com seriedade, maturidade e sem ofensas. Outro fator que desagradou muitos jogadores foi o destino trágico de um importante personagem, isso logo nos capítulos iniciais.


Por não aceitar um debate com relações homoafetivas e por não compreender a vulnerabilidade de um personagem que agora sofre as consequências de suas ações do passado, muitos jogadores largaram o jogo, sequer chegando ao final e resolveram, por conta própria, denegrir a nota do jogo. Muitos decidiram se juntar ao coro do ‘é legal ser do contra e nem preciso fazer um julgamento bem argumentado diante do que vi e joguei’.


Numa espécie de convite ao amadurecimento do jogador diante da sequência, o próprio Druckmann surpreende ao nos fazer jogar com um dos vilões do jogo. Vilão? Nem tanto. Aqui não há mocinhos e vilões, existem pessoas traumatizadas, sobretudo por fatos acontecidos no primeiro jogo. Fragilizados por memórias do passado que agora acabam ativadas, os personagens não caem em padrões pré-estabelecidos e buscam se integrar num mundo caótico, separado e destruído que se corrompeu devido a uma epidemia sem controle onde sobreviver passa a ser prioridade máxima.


Jogar com dois personagens distintos, ter uma visão bilateral dos fatos, faz o jogador questionar a situação gerada pela vontade de sobreviver, de ter um lugar diante de um mundo devastado e de saber levar adiante a perda de parentes e amigos. Não é fácil. Nunca será. O cinema que sempre nos obrigou a refletir sobre isso, ganha formas e forças aqui.



Trabalhando com distintas visões do espaço-tempo, que depois se entrelaçam perfeitamente, o roteiro vai definindo a situação de vários personagens (que agora são muito mais abrangentes que no primeiro jogo). O jogador sabe que os personagens estão até próximos entre si, mas está longe de conhecer a hora que o embate entre ambos pode acontecer e espera disso uma cena memorável e antológica. Só assim para entendermos a dor de cada um. Em cada capítulo, a tensão agrava. Temos outra definição de cada personagem e até nosso julgamento acerca deles pode mudar em determinadas passagens da história.


Muito mais complexo do que o primeiro jogo, a trama tem outras perspectivas, coloca o pensamento de diversos personagens em xeque, se transforma numa produção de mais amplitude e deixa o jogador cúmplice dos acontecimentos, sempre aguardando uma reviravolta. Ou boquiaberto do que acabou de presenciar.

Uma narrativa que merece ser revisitada em outras ocasiões, isso para amarrar muitos dos fatos e das situações que estamos vivenciando ali, na tela. Tipo de jogo com muitas notas, textos, arquivos, cartas e mensagens deixadas em cada canto, mas que para o jogador só acrescentam mais entendimento e cumplicidade do caos que se instalou entre os sobreviventes. Jogar sem se atentar para essa riqueza de informações será um desastre caso a pessoa não avalie muito mais o poder narrativo e a direção artística imersiva dentro de um jogo do que a capacidade que ele tem de entreter.


Vamos abordar as qualidades técnicas então. A jogabilidade fluida e que se divide entre a furtividade ou o combate com um arsenal de armas continua em destaque. Herança do jogo de 2013, o jogador antigo nem precisará de muitos tutoriais. Aqui existem armas novas, outros artefatos para construir e dessa forma articular uma estratégia eficaz em ambientes com muitos inimigos, além dos tradicionais curativos tão fáceis de fazer/manipular. Claro que para tudo isso, o jogador deve continuar com seu amplo sentido da exploração para encontrar itens pelos cenários que ajudam na confecção de armas, bombas, equipamentos e curativos.


Embora tenha incluído muito das ideias de 7 anos atrás, a Naughty Dog implementou novidades até nas opções do jogo. O jogador pode colocar modo de escuta mais amplo, tornar os combates mais facilitados, optar por inimigos menos inteligentes, melhorar a precisão do disparo da arma. Pode até realçar os objetos com outras cores pelos cenários para a melhor identificação do jogador. Tudo para que cada jogador com suas devidas limitações físicas possam igualmente curtir o jogo e compreender fielmente a narrativa (ela importa bastante).


Enfatizando a complexidade de um mundo aberto, The Last Of Us II permite ao jogador explorar bastante alguns ambientes extensos ou mesmo encontrar outras rotas alternativas. Num dos capítulos, é preciso encontrar um galão de combustível nas ruínas de Seattle. Dentro dessa imensidão, o jogador pode entrar em inúmeros prédios e encontrar cofres (são vários pelo jogo), chaves, novas armas e mais munição. Isso garante não apenas a ação e a exploração, bem como o suspense a cada sala visitada.


Claro que para uma segunda jogatina e com o jogador tendo em mente um trajeto mais rápido, talvez o interesse não seja o mesmo, embora continue gratificante ser surpreendido por minúcias do passado do lugar e ver os caprichos da produtora em detalhes refinados que envolvem arquitetura, vegetação, carros abandonados, rios, paisagens, neve, chuva ou mesmo escombros.

Outro aspecto técnico primoroso do jogo é a trilha sonora. Do início ao fim, sempre equilibrada, é visível como a música é também essencial ao jogo. Os momentos de conforto de Ellie onde o dedilhado de um violão lhe traz a paz interior até as cenas de impacto com uma crescente orquestração querendo chocar da mesma forma que o visual, a música confere mais corpo e alma à narrativa tensa. O argentino Gustavo Santaolalla, compositor do jogo, também ganha homenagem do diretor ao surgir como um dos personagens (não jogáveis) da trama.


O jogo se intercala estrategicamente entre cenas violentas/tensas e outras que oferecem calma e contemplação por parte do jogador. Alguns capítulos, preocupados em mostrar flashbacks da protagonista Ellie, são lindos e fazem com que a gente até capture a imagem no modo foto (como a memorável passagem pelo Museu). Em outros capítulos, o jogador vai perder o fôlego e entrar numa ação frenética, tantos são os perigos que o cercam (como a inesquecível cena do sniper). Estamos diante de um jogo longo. Mesmo numa segunda gameplay, cortando as animações não interativas e estando ciente dos caminhos a serem seguidos, o jogo ainda apresenta uma duração entre 7 a 8 horas.


Para oferecer mais longevidade, ainda existe a opção de escolher outras dificuldades ou mesmo de seguir pelo New Game + onde o jogador pode continuar melhorando suas armas e garantir todas as habilidades disponíveis, pois ele não consegue com apenas um jogo. Pode também pegar os arquivos que deixou de coletar na jogada anterior.


A lista de coletáveis realmente não é pequena, mas garante boa exploração por parte do jogador e não é desgastante. Ainda temos bancadas que podem ser encontradas e servem para melhorar as armas. E sim, muitos easter eggs espalhados, o que já desencadeou dezenas de vídeos pelo YouTube falando somente dessa particularidade.


Um final em aberto para múltiplos entendimentos, um gancho perfeito para o terceiro jogo e dezenas de teorias que são constantemente debatidas mesmo dois anos depois do lançamento. The Last Of Us 2 é um jogo que inaugura a década e dita de vez a máxima de que videogame passou de ser apenas desejo de criança para cada vez mais dialogar com o Cinema e cair nas mãos do público adulto. Uma ferramenta cada vez maior de também conscientizar e ser um retrato de nossa humanidade, de colocar os sentimentos humanos tão perto de um jogador.

 


The Last Of Us

Parte II


Lançamento: 19 de junho de 2020

Desenvolvedor: Naughty Dog

Prémios: The Game Awards para jogo do ano e mais

Plataforma: PS4


 

NOTA DO CRÍTICO: 10

 

A página do jogo na Naughty Dog:


The Last Of Us parte II

 

Confira o trailer do jogo:


 




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