'Little Nightmares': Pequenas ideias que se transformam em resultados gigantes


Créditos: Bandai Namco

A ficção sempre nos enganou. Às vezes questionamos se o que aconteceu foi real ou se estávamos apenas num pesadelo cruel. Justamente dessa forma começa o jogo “Little Nightmares", com a garota Six acordando de um pesadelo, no porão de um navio escuro que esconde muitos segredos e abominações. Ela ainda não tem ciência disso. O que a espreita, os perigos que a rondam. Muito menos sabemos se esse navio é uma extensão de seu pesadelo. Entretanto, o jogador estará diante de uma jornada guiando a frágil Six. Tendo como objetivo escapar desse ambiente, a menina terá um caminho que, apesar de curto, é repleto de armadilhas e desafios.


Nada de vísceras ou sangue, carnificina não existe, aqui as armas de nossa personagem ficam por conta de agir na surdina e usar os objetos do cenário em favor de suas escapadas. Os monstros não fazem parte de alguma mitologia ou não são velhos conhecidos do gênero Terror como vampiros, lobisomens e zumbis. Como tem sido o Cinema de Terror dos últimos anos, a função atual do gênero tem sido trazer a tona nossos medos através de metáforas e simbologias e instigar/explorar nosso consciente, usando traumas, medos e receios psicológicos. Momentos como atravessar um mar de sapatos flutuantes que escondem um monstro à espreita causam um calafrio insuportável.


A 'Bocarra’, como é chamado o barco onde Six se encontra aprisionada, é chefiada por Lady, que de início o jogo revela quais as suas intenções. Com o andamento dos capítulos, vamos conhecendo a tripulação bem como os hóspedes desse navio: pessoas disformes e enormes que estão ali, famintas, compulsivas para comer avidamente, numa espécie de gula incontida e, claro, Six nesse ambiente pode servir como mais um apetitoso banquete. Uma das partes mais tensas do jogo, inclusive, é quando a garotinha corre numa mesa toda bagunçada e precisa se esquivar entre as mãos gordas que tentam segurá-la a todo jeito.


O jogo respeita bastante a física. Nem pense cair de um lugar alto, você morre. Uma única vez que o inimigo te agarra, é morte certa. Uma simples cadeira pode servir de esconderijo de uma perseguição ou mesmo de impulso para chegar a lugares mais altos. Corra no tempo certo, se esconda no lugar apropriado.

“Little Nightmares” segue a linha de outros grandes nomes como “Inside” e “Limbo”, onde cada parte do cenário deve ser estudada para evitar o erro e não sofrer as consequências. Apesar do toque de stealth, por vezes a técnica falha um pouco, pois mesmo em alguns trechos, por mais que você ande quieto, o inimigo acaba percebendo sua presença.


A inteligência artificial é inconstante, em momentos o inimigo demora a agir, em outras ocasiões você pode ser descoberto facilmente sem chances de fugir. Um dos inimigos mais espertos é o Janitor, uma espécie de vigia com braços longos que, embora seja cego, percebe os movimentos facilmente e pode ser rápido e mortal. Apesar de a câmera ser bastante criticada por alguns jogadores, não foram encontrados problemas quanto ao sistema dela, normal para jogos desse gênero, contudo esse é um jogo para não abusar e sair correndo desesperadamente em lugares altos e estreitos. Por sorte os checkpoints são generosos, refazer alguns percursos não é tarefa árdua. Apesar de alguns problemas, não existe frustração em continuar a jornada de Six, sobretudo se o jogador é fã de jogos de Plataforma e de Survival Horror.


A ideia aqui é fugir do lugar comum, onde jogos são apenas formas de entretenimento, a exemplo de outros que espantaram esse estigma, explorando temáticas modernas e polêmicas como os regimes opressores (“Black The Fall”) e a questão das doenças psicológicas (“Hellblade: Shennua’s Sacrifice”). “Little Nightmares” é uma fábula de Terror moderna, expressa em forma de jogo. Pega carona no Terror atual que retira o sangue explícito em prol de revolver nossa mente e nossos medos. No jogo da Namco não poderia ser diferente.


E você, está pronto para enfrentar a 'Bocarra'?

 

Nota do jogador: 8,5

 

Trailer do jogo:


 

Texto publicado originalmente no site Urge!

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