Luto, conflitos internos e canções pop açucaradas: o coração movediço de Jenny On Holiday em Quicksand Heart
- Marcello Almeida
- há 10 horas
- 3 min de leitura
Se você gosta do CHVRCHES, vai amar esse disco

Esse é daqueles discos que você descobre, assim, por acaso, em uma sugestão aleatória do Spotify. Pois é, pode acreditar, a plataforma de streaming às vezes acerta em cheio na recomendação. Em sua estreia solo como Jenny On Heart, Jenny Hollingworth entrega um álbum caloroso, contagiante e, o melhor de tudo nessa belezura de início de ano, ela não tenta reinventar a roda que construiu ao lado do Let’s Eat Grandma.
Dito isso, é importante deixar claro que ela não abandona aquelas nuances do pop pegajoso, nem aquelas letras que soam mais como um diário confessional, que sempre foram sua marca registrada. O que muda em Quicksand Heart é a temperatura. Tudo nessas dez faixas soa mais próximo da pele. Melhor dizendo, a coisa aqui é menos teatral e mais direta.
Existe vulnerabilidade e aquela fragilidade dócil, e isso não quer dizer que eu tenha achado Quicksand Heart um disco "menor". Acho que ele é um disco exposto até demais. E isso assusta mais do que qualquer experimento sonoro. Basta se deixar levar pela melodia agridoce e linda de "Dolphins", a faixa já deixa isso muito claro. Existe uma sensação de liberdade nessa música que dialoga com aquela metáfora de ausência, de luto, mas não qualquer luto e sim aquele no qual não encontramos descanso.
Mas o que pega nessa faixa é a forma como a cantora aborda a morte do namorado, os conflitos internos, as fissuras familiares. Nada é mencionado como espetáculo. É despejado como quem escreve porque não aguenta mais carregar sozinho. Sabe aquele diário que acaba se tornando um disco pop? A sensação é essa com Quicksand Heart.
Vai ter gente dizendo que ele não acrescenta nada de novo musicalmente, talvez isso seja até verdade. Os sintetizadores, as batidas, certas camadas melódicas conversam muito com outros trabalhos de Jenny. Se você já ouviu I’m All Ears e Two Ribbons, sabe do que estou falando, mas a repetição aqui não me soa como algo preguiçoso. Soa como insistência. Como se ela estivesse tentando exaurir uma linguagem até ela finalmente dizer tudo o que precisa. Ou quase tudo.
Mas tente sair ileso de “Every Ounce of Me” e seu brilho pop que gruda fácil e, por vezes, acaba escondendo a própria ansiedade nas entrelinhas, algo difícil de ignorar, não é aquela música que convida para dançar sem questionar ou pensar. Muito pelo contrário, ela te faz pensar até demais. “Good Intentions” abre o disco com essa mesma vibe. São duas canções que conversam entre si.
Nem tudo é pop açucarado. O disco oscila. Isso é fato. Depois do impacto inicial, o ritmo parece perder o fôlego. As faixas se aproximam demais em textura, em andamento, em clima. Aquele terreno seguro. E, com isso, falta ruptura, falta correr risco, mas aí vem “Do You Still Believe In Me?” com suas guitarras ensolaradas, quase deslocadas do restante do repertório, e algo se abre, algo explode e aponta para uma Jenny nem tão segura e confortável, mas com aquela fagulha acesa no peito de tensionar a própria fórmula. Por sinal, o disco poderia ter mais desse desconforto, desse conflito. Baita acerto, e o ritmo se equilibra novamente.
A dobradinha com "Appetite", última faixa do álbum, mantém o pulso. A frustração vira aquela fome insaciável de existir. E aqui está a frase que talvez gere discordância: esse não é um disco sobre superação. É um disco sobre continuar, mesmo sem entender direito como.
Lançado pela Transgressive Records, o disco carrega em sua alma essa dualidade entre a tradição pop e a intimidade que tende a ser desconfortável nas batidas certas. Existem imperfeições. A distribuição de forças é desigual. Algumas ideias poderiam ter sido levadas muito mais longe. Mas quer saber, talvez seja justamente isso que o torna tão humano. Essas canções não soam como um produto calculado para "evoluir artisticamente". Soa como alguém tentando sobreviver com as ferramentas que já conhece.
E às vezes repetir a própria linguagem é a única maneira de não afundar. Quicksand Heart não amplia o universo sonoro de Jenny Hollingworth de forma radical. Mas aprofunda o que já estava ali, latejando. É um disco que não pede aplauso imediato. Pede escuta honesta. E talvez isso seja mais difícil do que inovar.












