A maior mentira da história do rock não é “Paul is Dead”
- Marcello Almeida
- há 17 horas
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Sempre foi sobre a dificuldade de aceitar que certas coisas acabam

Essa é daquelas histórias da conspiração que a gente adora ouvir e, pra ser sincero, nunca achei que essa teoria de que Paul McCartney morreu em 1966 fosse uma mera bobagem divertida ou história de pescador. Existe algo incômodo nessa narrativa que a deixa menos engraçada. Isso está mais para um sintoma do que uma mera conspiração delirante. Algo que diz mais sobre quem acreditou nela do que sobre o próprio Paul.
A história é conhecida. Tão conhecida que virou folclore pop. Paul teria morrido num acidente de carro, os The Beatles teriam escondido o corpo, colocado um sósia no lugar e passado a espalhar pistas nas capas dos discos, nas letras, nos silêncios. A mais famosa está em Abbey Road: Paul descalço, fora do passo, um corpo em cortejo fúnebre disfarçado de travessia londrina.

É no mínimo curioso como essa teoria exige uma logística absurda, um pacto de silêncio impossível… e ainda assim continua seduzindo. Talvez porque ela ofereça algo que a realidade nunca ofereceu aos fãs: um motivo claro, quase mítico, para o fim da banda. E aqui vem a parte que incomoda: a teoria “Paul is Dead” não fala de morte física. Ela fala de luto mal resolvido.
Porque o que realmente morreu ali, no fim dos anos 60, foi a ideia de eternidade dos Beatles. E isso foi insuportável para muita gente.
Um minuto de silêncio.
Décadas depois, o próprio Paul olha para essa história sem riso fácil. Há ironia, claro. Mas há algo mais fundo quando ele admite que, naquele período, se sentia “morto por dentro”. Não como metáfora elegante. Como exaustão real. Em 1969, aos 27 anos, ele estava emocionalmente drenado, cercado por disputas legais, ressentimentos internos e o esfarelamento daquilo que definia sua identidade adulta. Isso muda tudo.
Quando Paul conversa com Linda e pergunta como pode estar morto se ainda está ali, respirando, tentando reorganizar a vida, ele desmonta a teoria sem querer. Porque o boato captou algo verdadeiro, só errou o corpo. A morte não era biológica. Era simbólica. Era o fim de uma versão de si mesmo.
A separação dos Beatles, oficializada em 1970, não foi apenas o fim de uma banda. Foi um rompimento afetivo. Uma amputação de rotina, de pertencimento, de linguagem compartilhada. Quem viveu aquilo de dentro precisou reaprender a existir. Paul precisou mais do que a maioria.
O retiro na Escócia, o isolamento, a tentativa quase artesanal de viver fora do espetáculo não soam como fuga. Soam como sobrevivência. Ali, longe do mito, ele se permitiu não ser um Beatle por um tempo. E isso é mais radical do que parece.
O livro Wings: The Story of a Band on the Run deixa isso claro sem precisar dramatizar. O nascimento do Wings não foi um gesto de ambição. Foi um gesto de reconstrução. Imperfeito, inseguro, muitas vezes subestimado. Como quase todo recomeço honesto.
Talvez por isso a teoria nunca tenha morrido de vez. Porque ela oferece uma narrativa mais confortável do que a verdade. É mais fácil acreditar que Paul morreu e foi substituído do que aceitar que até gênios quebram. Que até ídolos entram em colapso. Que finais não têm vilões claros.
A conspiração persiste não porque seja convincente, mas porque é reconfortante. E, no fundo, toda teoria da conspiração é uma tentativa desesperada de dar sentido a uma perda que ninguém soube elaborar.











