Stevie Nicks e a canção que se perdeu na trilha sonora de Twister
Gravada ao lado de Lindsey Buckingham para o filme de 1996, “Twisted” acabou deixando a cantora frustrada, a ponto de fazê-la recuperar a composição em outros momentos de sua carreira

Em 1996, Stevie Nicks voltou a trabalhar com Lindsey Buckingham em uma gravação que, curiosamente, não fazia parte de um novo projeto do Fleetwood Mac. Os dois se reuniram para registrar “Twisted”, uma composição escrita pela cantora especialmente para a trilha sonora de Twister, filme estrelado por Helen Hunt e Bill Paxton. A parceria também contou com a participação de Mick Fleetwood na bateria, reunindo três integrantes de uma das formações mais conhecidas da história do rock.
A música surgiu em um período particularmente delicado da trajetória de Nicks. Depois de enfrentar problemas relacionados ao uso de medicamentos prescritos e de passar por uma fase difícil com o álbum Street Angel, de 1994, a cantora começava a reorganizar sua vida pessoal e artística. A colaboração com Buckingham também chamava atenção pelo histórico da dupla, cuja relação amorosa e profissional havia atravessado alguns dos momentos mais importantes e turbulentos do Fleetwood Mac.
Mas a história de “Twisted” começou de maneira bastante curiosa. Quando recebeu o convite para contribuir com a trilha sonora, Stevie pediu que uma amiga, Rebecca, lesse o roteiro do filme e lhe explicasse a história. Ao ouvir o resumo, percebeu uma relação inesperada entre os personagens e sua própria experiência como artista.
Na interpretação da cantora, perseguir tornados e viver em uma banda de rock não eram atividades tão distantes assim. Ambas envolviam riscos, situações imprevisíveis e uma dedicação que, muitas vezes, ultrapassava os limites da própria segurança. Foi a partir dessa associação que ela desenvolveu a composição, utilizando a força das tempestades como parte de uma narrativa sobre paixão, perigo e obsessão.
O resultado foi uma canção que Nicks considerava especialmente importante. Entretanto, depois de sua inclusão na trilha sonora, a cantora passou a acreditar que o trabalho não havia recebido a atenção que merecia.
Em entrevista à revista Uncut, ela explicou sua frustração com a maneira como determinadas músicas acabam sendo utilizadas no cinema.
“Quando as músicas vão para filmes, é melhor jogá-las pela janela, porque elas nunca são ouvidas”, declarou.
A observação tinha um motivo. Segundo Nicks, em meio às sequências de ação e aos tornados que dominavam a produção, a presença de sua composição acabava praticamente despercebida. O filme poderia alcançar milhões de espectadores, mas isso não significava que o público estivesse realmente prestando atenção na música.
E ela não parecia disposta a simplesmente aceitar aquele destino. Em 1998, Stevie incluiu uma versão demonstrativa de “Twisted” na coletânea Enchanted: The Works of Stevie Nicks. Gravada originalmente em março de 1996, a demo permitia conhecer uma interpretação anterior à produção desenvolvida com Buckingham para o cinema.
Nas notas que acompanhavam a coletânea, a cantora voltou ao assunto. Explicou que havia preparado cuidadosamente a música para o filme, mas lamentava que sua mensagem tivesse passado despercebida. Ao recuperar a gravação original, esperava oferecer aos ouvintes uma nova oportunidade de compreendê-la.
A história ainda teria outro capítulo. Em 2014, Nicks decidiu revisitar a composição durante as gravações de 24 Karat Gold: Songs from the Vault, álbum dedicado a recuperar músicas e ideias de diferentes períodos de sua carreira. “Twisted” ganhou uma nova interpretação, incluída na edição especial do disco.
O curioso é que a canção havia passado por três momentos distintos. Primeiro, como parte de uma produção cinematográfica. Depois, como uma gravação resgatada dos arquivos pessoais da cantora. E, finalmente, como uma música revisitada quase duas décadas após sua criação.
Apesar da frustração com a trilha sonora, Stevie nunca abandonou completamente “Twisted”. Pelo contrário, voltou à composição em diferentes fases, preservando uma obra cuja primeira gravação, em sua avaliação, não havia alcançado o público da maneira desejada.
E talvez seja justamente esse o aspecto mais interessante da história. Mesmo depois de lançada, uma música pode continuar ocupando um lugar importante na vida de quem a escreveu. No caso de Stevie Nicks, foram necessárias novas gravações para que “Twisted” recebesse outras oportunidades de ser ouvida fora das imagens e dos tornados de Hollywood.
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