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Under Pressure, de David Bowie e Queen, e o Brasil que ainda precisa aprender a amar

23h
4 min de leitura

Talvez a parte mais difícil de uma eleição seja lembrar que continuaremos vivendo juntos depois dela.

Freddie Mercury, do Queen e David Bowie
Foto: Dave Hogan / Hulton Archive / Getty Images e Armando Gallo / Getty Images


Tenho ouvido Under Pressure, de David Bowie e Queen, de uma maneira diferente desde as eleições. Talvez porque algumas músicas acabem se misturando aos acontecimentos da nossa vida, adquirindo significados que antes não percebíamos.





Durante a campanha presidencial, a canção apareceu em vídeos de apoio a Lula. E confesso que achei aquela escolha particularmente bonita. Afinal, estamos falando de uma composição que, desde 1981, procura compreender o que acontece com as pessoas quando a vida se torna pesada demais.


E não é difícil reconhecer o Brasil nessa descrição. Nos últimos anos, vimos famílias se desentenderem por política, amizades terminarem e pessoas que antes dividiam a mesma mesa passarem a se tratar como inimigas. A radicalização alcançou nossas relações mais íntimas e, em muitos casos, tornou impossível até mesmo o exercício de escutar.


Há algo bastante doloroso nisso tudo. Porque Under Pressure não fala apenas de angústias individuais. Quando menciona famílias divididas, pessoas nas ruas e o medo diante do mundo, a música nos coloca diante de uma pergunta que parece ter acompanhado toda essa experiência brasileira: o que estamos fazendo uns com os outros?


E talvez seja justamente por isso que ela tenha me emocionado tanto nesse período. Encontrei uma beleza particular na maneira como Bowie e Freddie Mercury constroem essa inquietação. A linha de baixo insistente, as vozes que se encontram e se afastam, a intensidade quase desesperada de Freddie e a interpretação mais contida e sombria de Bowie. Em determinados momentos, tenho a impressão de que estamos ouvindo duas pessoas tentando encontrar uma saída para um problema que nenhuma delas consegue resolver sozinha.


E gosto dessa sensação. Porque seria muito mais fácil escrever uma canção sobre o amor como se ele fosse uma resposta simples para todas as contradições humanas. Bowie e Mercury, no entanto, parecem desconfiar dessa facilidade. Antes de chegar ao amor, atravessam o medo, a angústia e a sensação de que estamos perdendo alguma coisa essencial.


Quando finalmente pedem que o amor receba mais uma oportunidade, a palavra já não parece tão ingênua. Ela chega cansada. Quase desesperada. E penso que existe uma ligação muito forte entre esse sentimento e o Brasil que saiu das urnas em outubro.


A vitória de Lula trouxe alívio para milhões de brasileiros que enxergavam naquela eleição uma decisão importante sobre os rumos da democracia. Mas o resultado não apagou nossas diferenças, tampouco os ressentimentos acumulados durante tantos anos. O país continua dividido. E talvez uma das coisas mais difíceis de reconhecer seja justamente esta: ganhar uma eleição não significa necessariamente ter conseguido convencer o outro da importância daquilo que defendemos.


Também penso na trajetória de Lula. Há uma dimensão emocionante nas imagens daquele homem de 81 anos, que começou sua vida política no movimento sindical, atravessou tantas transformações no país e chegou a mais uma eleição presidencial cercado por gerações que sequer eram nascidas quando ele iniciou sua caminhada.





Não precisamos transformar um político em personagem infalível para reconhecer o significado histórico dessa trajetória. E talvez tenha sido essa a força daqueles vídeos acompanhados por Under Pressure. Não apenas a possibilidade de uma vitória, mas a reunião de tantas vidas diferentes em torno de uma expectativa comum.


Há uma passagem da música que fala de uma última dança. É impossível escutá-la, diante dessas imagens, sem pensar na passagem do tempo, nas pessoas que envelhecem e nas oportunidades que não voltam.


O que me interessa é essa consciência de que nossa permanência aqui é pequena. Passamos tanto tempo defendendo nossas certezas que, às vezes, esquecemos o quanto a vida é breve. Brigamos, acumulamos ressentimentos, deixamos de conversar com pessoas que amamos. E seguimos imaginando que haverá uma ocasião melhor para resolver tudo isso.





Nem sempre haverá. Talvez seja por isso que o encontro entre as vozes de Bowie e Mercury me comova tanto. Dois artistas extraordinários, com personalidades e maneiras distintas de compreender a música, cantando sobre a dificuldade que temos de viver uns com os outros.


Freddie morreu em 91. Bowie, em 2016. E, no entanto, aquela conversa gravada em 1981 continua acontecendo toda vez que alguém coloca a música para tocar. E há algo que considero especialmente importante nessa composição. Amar, no sentido que encontro em Under Pressure, não é simplesmente desejar coisas boas às pessoas. É permitir que o sofrimento delas interfira na maneira como compreendemos o mundo.


É olhar para alguém que passa fome e entender que aquela fome também diz respeito a nós. É reconhecer a humanidade de quem vive nas ruas, de quem trabalha até a exaustão, de quem sofre preconceito simplesmente por existir. Isso, para mim, tem um significado profundamente político.


E não significa relativizar a violência, aceitar a intolerância ou esquecer o que aconteceu. Existem diferenças que precisam ser enfrentadas, sobretudo quando colocam em risco a dignidade e os direitos de outras pessoas. Mas, depois de tudo o que vivemos, gostaria de acreditar que ainda somos capazes de aprender alguma coisa com essa experiência. Não tenho tanta certeza.


Talvez por isso continue voltando àquela gravação, especialmente ao momento em que Bowie e Freddie pedem mais uma oportunidade para o amor. Quarenta e cinco anos se passaram. Os dois já não estão aqui. O Brasil atravessou outra eleição, e nós continuamos tentando encontrar respostas para questões que deveriam ser tão simples.


Às vezes, penso que seria terrível chegar ao fim de tudo isso sem ter aprendido a cuidar um pouco melhor uns dos outros. E talvez seja esse o sentimento que permanece quando Under Pressure termina. A música acaba. A pressão, não.





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