Sister Rosetta Tharpe: a mulher que inventou o rock antes de o rock ter nome
- Marcello Almeida

- 8 de mar.
- 3 min de leitura
Antes de Elvis rebolar, antes de Chuck Berry correr pelo palco, uma mulher negra já fazia a guitarra elétrica incendiar igrejas e salões

No Dia das Mulheres, lembrar Rosetta é mais do que um gesto de justiça histórica. É reconhecer quem realmente acendeu a primeira faísca.
Poucas histórias na música são tão fascinantes quanto a de Sister Rosetta Tharpe, a mulher que transformou uma guitarra elétrica em ponte entre o sagrado e o profano e, sem saber, ajudou a inventar o que décadas depois seria chamado de rock’n’roll. Muito antes de Elvis Presley se tornar o rosto do gênero, ou de Chuck Berry definir a linguagem da guitarra elétrica, Rosetta já estava no palco.
Com um sorriso aberto, um swing irresistível e uma guitarra que parecia falar em línguas, ela criava um som novo. Um som que misturava a fé do gospel com a pulsação do blues.
Era eletrizante.
Rosetta nasceu Rosetta Nubin, em 20 de março de 1915, na pequena Cotton Plant, no Arkansas. Filha de Katie Bell Nubin, pregadora da Igreja de Deus em Cristo, cresceu num ambiente onde música e religião caminhavam juntas. Aquela igreja pentecostal tinha algo raro para a época: permitia que mulheres pregassem, cantassem e tocassem.
Foi ali que Rosetta começou.
Ainda criança, já subia ao púlpito com uma guitarra nas mãos, cantando para fiéis que muitas vezes ficavam boquiabertos com a força daquela menina. O talento era tão evidente que, aos seis anos, ela já viajaria pelo país acompanhando a mãe em cultos e encontros religiosos.
Mas o mundo lá fora estava mudando. Nos anos 1930, Rosetta se mudou para Chicago. A cidade era um caldeirão sonoro onde o blues urbano ganhava corpo e o jazz florescia em clubes cheios de fumaça e suor. Ali, a jovem guitarrista começou a fazer algo que parecia impensável para muitos religiosos: misturar o fervor do gospel com a energia da música das ruas.
Para alguns líderes religiosos, aquilo era escândalo. Para a história da música, era uma revolução silenciosa. Em 1938, Rosetta assinou com a Decca Records e gravou suas primeiras faixas de impacto, como “Rock Me” e “This Train”. As letras eram espirituais, mas o som era puro fogo. A guitarra cortava o ar com riffs agressivos, ritmos sincopados e uma intensidade que antecipava o rock em pelo menos uma década.
Ela tocava com força. Com groove. Com atitude. Durante a Segunda Guerra Mundial, sua música atravessou oceanos. Rosetta se apresentou para soldados americanos e plateias europeias, levando consigo aquela mistura única de espiritualidade e energia elétrica.
Em 1944, veio um momento histórico.
A gravação de “Strange Things Happening Every Day” entrou nas paradas de R&B da revista Billboard. Muitos historiadores apontam a faixa como um dos primeiros registros do rock’n’roll. Mas talvez o mais impressionante não estivesse apenas nas gravações. Estava no palco.
Com uma guitarra branca nas mãos, muitas vezes uma Gibson, Rosetta parecia dominar completamente o instrumento. Cantava com intensidade espiritual e, no instante seguinte, deixava a guitarra gritar com distorções, bends e ataques rítmicos que décadas depois se tornariam linguagem padrão do rock.
Não por acaso, nomes como Little Richard, Johnny Cash e o próprio Chuck Berry sempre apontaram Rosetta como uma influência direta. Ela estava lá antes de todos. E mesmo assim, foi deixada de lado.
O racismo e o machismo da indústria musical ajudaram a empurrar sua história para as margens. Quando o rock explodiu nos anos 1950 como símbolo da juventude branca americana, a mulher negra que havia ajudado a construir aquele som foi muitas vezes lembrada apenas como “cantora gospel”.

Décadas precisaram passar para que a história começasse a se reorganizar. Em 2018, Sister Rosetta foi finalmente incluída no Rock and Roll Hall of Fame, na categoria de Influência Precoce. Um reconhecimento tardio, mas impossível de negar. Hoje, sua figura voltou a ocupar o lugar que sempre mereceu. Rosetta não foi apenas uma grande cantora.
Não foi apenas uma grande guitarrista. Ela foi a centelha.
Ouvir Rosetta hoje é perceber algo quase mágico: o rock nasceu em uma igreja, nas mãos de uma mulher negra que não tinha medo de atravessar fronteiras entre o divino e o terreno.
No fundo, talvez seja essa a grande lição que ela deixou. A música, quando é verdadeira, não pede permissão. Ela simplesmente acontece.
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