Sem pressa, sem fórmula: Infinito Latente transforma inquietação em paisagem sonora
- Marcello Almeida
- há 11 horas
- 2 min de leitura
Um disco de estreia que nasce do encontro, da escuta e da coragem de sentir sem atalhos

Há discos que não nascem de um plano fechado, mas de uma inquietação compartilhada. Sem Início Nem Fim, álbum de estreia da Infinito Latente, surge exatamente desse lugar. Um território onde pensamentos insistem, sentimentos não pedem licença e a música aparece como tentativa honesta de organizar o caos. Não no sentido de resolver, mas de acolher.
Desde os primeiros segundos, fica claro que o disco não tem pressa. Ele respira. “Amanhãs Azuis” abre o caminho como quem observa o dia nascer pela janela, sem saber ao certo o que vem depois, mas disposto a ir. É um começo que não se impõe, apenas convida. E essa lógica atravessa todo o trabalho.
Ouvindo o disco, é possível perceber o entrosamento entre instrumentos e vocais. A química funciona muito bem. Nada parece disputar espaço. Voz, violão, teclado, baixo, beats e texturas se movem juntos, como se cada faixa tivesse sido construída em diálogo, não em camadas empilhadas. Há silêncio quando precisa haver silêncio. Há excesso quando o sentimento pede.
Parte dessa organicidade vem do encontro entre Maira Bastos e João Dussam, que nunca soam como protagonistas individuais, mas como dois pontos de uma mesma conversa. As vozes se cruzam, se apoiam, se afastam e retornam. Em torno deles, Igor Sganzerla e Pedro Sardenha ajudam a dar corpo a um som que nasce íntimo, mas se expande sem perder a delicadeza.
A produção de Gabriel Olivieri entende bem esse espírito. O disco flerta com a MPB, passeia pelo indie pop, toca o lo-fi, mas não se prende a rótulos. Em “Fora do Ar”, a melodia parece suspensa no ar, como um pensamento que insiste em voltar. “Fica Bem” e “Cores” caminham por um existencialismo calmo, sem respostas fáceis, sustentadas por texturas que ampliam a sensação de introspecção.
Quando o disco decide falar de amor, não o faz de forma tímida. “Deixa Eu”, “Gota por Gota” e “De Canto” trazem um romantismo direto, quase físico, com sopros que acrescentam calor e um certo sabor latino. Já “Aqui Dentro”, uma das faixas mais íntimas do álbum, se destaca pela crueza emocional. É uma gravação que parece ter sido feita com a porta entreaberta, deixando o mundo entrar aos poucos.
“Quantas Vidas” funciona como um respiro no lado B, guiada pelo teclado, enquanto “Nosso Quadro” quebra a calmaria com mais ruído, mais intensidade e um refrão catártico que não tem medo de dizer “eu amo você” sem ironia, sem proteção. É bonito justamente por isso.
O encerramento com “Motivos Bonitos” reforça a sensação de percurso. Não há grandes clímax, apenas a impressão de ter atravessado paisagens internas. O disco termina como começou: em movimento.
A música brasileira, no cenário alternativo, vive um dos momentos mais prolíferos e gratificantes dos últimos anos. Tem muita coisa boa sendo produzida entre quatro paredes, longe dos holofotes fáceis. Sem Início Nem Fim, da Infinito Latente, é a prova mais viva desse conceito. Um disco feito de encontros, de escuta e de verdade.
Uma banda para abrir os olhos. Para ficar de olho. Guarde esse nome. Você ainda vai ouvir falar muito deles.












