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O Mazzy Star passou pela música como quem passa pela madrugada

Há bandas que pedem volume. Outras pedem silêncio. O Mazzy Star sempre escolheu a segunda opção

Mazzy Star
Imagem: Reprodução

Enquanto os anos 90 disputavam atenção, eles desaceleravam. Enquanto o mercado gritava, eles sussurravam. Não por estratégia. Por natureza. O Mazzy Star nunca pareceu interessado em vencer o jogo. Preferiu atravessar o tempo como quem caminha à noite, sem destino, confiando apenas na intuição.



A banda nasce no fim dos anos 80, em Los Angeles, das cinzas do Opal. David Roback já vinha do underground e buscava outra textura. Menos forma, mais atmosfera. Quando Hope Sandoval entra em cena, tudo se encaixa de um jeito quase físico e onírico. A guitarra cria o espaço. A voz ocupa o ar. Não há pressa. Não há clímax óbvio. Parece sempre que a música está acontecendo um segundo antes de acabar.


Desde o começo, o Mazzy Star soa como algo fora de época. She Hangs Brightly não apresenta canções. Apresenta estados. Repetição, transe, sensação. Nada ali tenta convencer. Quem fica, fica porque quer. E quem entra, dificilmente sai ileso.


Quando So Tonight That I Might See chega, em 1993, o improvável acontece. “Fade Into You” atravessa rádios, filmes, quartos adolescentes e noites adultas. Um hit que não age como hit. Uma canção que não implora atenção, mas recebe. Ainda assim, nada muda de verdade. A banda não se molda ao sucesso. Não sorri para a câmera. Não acelera o passo.



Hope nunca se comportou como frontwoman. Cantava de cabeça baixa. Evitava entrevistas. Tratava o palco como extensão do estúdio, não como vitrine. Para alguns, distância. Para outros, coerência absoluta. O Mazzy Star não era inacessível. Era íntimo demais para funcionar em escala industrial. Aproveitando a ocasião, vale mencionar colaboração de Hope com o Jesus and Mary Chain, na linda “Sometimes Always”. Ouça!


Among My Swan aprofunda o afastamento. Mais lento. Mais denso. Mais fiel ao próprio ritmo. Enquanto o mundo pede repetição, eles oferecem aprofundamento. E aos poucos, sem anúncio, sem drama, o grupo se dissolve no que sempre foi: silêncio prolongado.



O Mazzy não acabou em uma briga ou comunicado. Acabou por exaustão do mundo externo. Hope seguiu em outros projetos, mantendo a mesma delicadeza. Roback continuou orbitando a música até sua morte, em 2020. Ali, qualquer possibilidade de retorno deixou de existir.


O legado não está na quantidade de discos. Está na permanência emocional. No modo como essas músicas ainda soam atuais, como se tivessem sido gravadas ontem à noite. O Mazzy Star ensinou que é possível marcar profundamente sem ocupar espaço demais. Que às vezes, desaparecer é a forma mais honesta de existir.


Eles nunca pediram atenção. E talvez por isso ainda sejam ouvidos em silêncio.

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