Quando o tempo parou para o Deftones: a ferida aberta deixada por Chi Cheng
- Marcello Almeida
- há 16 horas
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O acidente que mudou o rumo da banda e transformou silêncio, espera e luto em parte definitiva da sua história

O Deftones sempre soube fazer da emoção uma matéria-prima tão importante quanto a distorção. Mesmo nos momentos mais pesados, havia algo frágil ali, quase confessional, como se cada música fosse empurrada para fora com esforço, com a garganta apertada.
Mas existe um capítulo na história da banda que extrapola qualquer discussão sobre discos, fases ou estilos. Um episódio que não cabe em tracklists. O acidente de Chi Cheng, em 2008, não apenas interrompeu um momento criativo. Ele suspendeu o tempo do Deftones.
Naquele período, a banda vinha de anos intensos. O impacto de White Pony ainda reverberava, a estrada tinha cobrado seu preço, e havia um desejo claro de avançar sem se repetir. O Deftones buscava um próximo passo que preservasse identidade, mas abrisse novos espaços. Era um momento de transição natural, desses que toda banda grande enfrenta. Só que, de repente, nada mais era natural.
Em novembro de 2008, Chi sofreu um grave acidente de carro e entrou em coma. A notícia se espalhou rápido, deixando fãs e o próprio meio musical em choque. Chi nunca foi apenas “o baixista”. Seu jeito de tocar dava corpo e peso orgânico ao som da banda, mas sua importância ia além da música. Ele era equilíbrio, presença, humanidade. Sem ele, o Deftones não perdia apenas um instrumento. Perdida era uma parte do seu eixo emocional.
O impacto foi profundo porque não havia respostas. Não se sabia se Chi acordaria, se voltaria a tocar, se voltaria a viver como antes. Durante anos, a banda existiu num estado estranho, entre a esperança e o medo. Continuar não era uma decisão simples, nem automática. Seguir em frente significava aceitar uma ausência diária, um vazio que não se resolve com ensaios ou turnês.
Quando a banda decidiu continuar, fez isso sem maquiagem emocional. Não houve tentativa de fingir normalidade. O resultado artístico desse período foi Diamond Eyes, lançado em 2010. Um disco potente, direto, com refrões abertos e aquela atmosfera etérea que a banda domina como poucas. Mas, por baixo da força sonora, existe uma urgência quase física. Não é um álbum sobre Chi, mas é impossível ouvi-lo sem sentir o peso daquele momento. É som de sobrevivência.

Para assumir o baixo, entrou Sergio Vega, que rapidamente se mostrou mais do que um substituto temporário. Ele ajudou a manter a banda em movimento, com respeito e consciência do espaço que ocupava. Ainda assim, Chi nunca deixou de estar presente. Sua ausência era constante, silenciosa, e talvez por isso mesmo tão pesada.
Em 2013, após anos em coma e complicações de saúde, Chi Cheng faleceu. A notícia trouxe uma dor diferente, mais definitiva. Não houve despedida formal, último show ou fechamento simbólico. O luto já vinha sendo vivido há anos. A morte apenas confirmou aquilo que ninguém queria admitir por completo: aquela formação, daquele jeito, já não existia mais.
O Deftones seguiu. Lançou discos fortes, manteve relevância, atravessou gerações e continuou lotando shows. Mas a história de Chi ficou cravada como uma das partes mais sensíveis da trajetória da banda. Porque ela lembra que, por trás da estética, da mitologia e do peso, existe vida real. Existe fragilidade. Existe perda.
No fim, o acidente de Chi Cheng não é apenas um episódio trágico na biografia do Deftones. É um divisor de águas emocional e artístico. Um período de incerteza prolongada que mudou o ritmo interno da banda e deixou marcas que ainda ecoam. O Deftones aprendeu a seguir em frente sem esquecer. E talvez seja justamente isso que torne sua música tão humana até hoje.











