Salvador Jazz transforma o Rio Vermelho em um grande manifesto da música negra brasileira
- Marcello Almeida
- há 16 horas
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Festival reúne nomes históricos e novos expoentes para celebrar a força do jazz brasileiro entre tambores, improvisos e identidade afro-brasileira

Existe algo profundamente vivo quando o jazz encontra Salvador. Talvez porque a cidade carregue nos tambores uma memória ancestral impossível de ser domesticada. Talvez porque o improviso, essência do jazz, dialogue naturalmente com a pulsação caótica, espiritual e vibrante da capital baiana.
Entre os dias 27 e 31 de maio, essa conexão ganha novamente as ruas durante a sétima edição do Festival Salvador Jazz, realizado no Largo da Mariquita, no coração do Rio Vermelho.
Mais do que um evento musical, o festival se consolidou como um espaço de afirmação cultural, encontro artístico e valorização da música negra brasileira. Com entrada gratuita e classificação livre, a edição de 2026 pretende reunir mais de 15 mil pessoas em cinco dias de apresentações, trocas culturais e experiências voltadas tanto ao público apaixonado por música instrumental quanto a músicos, estudantes e artistas independentes.
O diferencial do Salvador Jazz sempre esteve na maneira como ele se recusa a tratar o jazz como uma linguagem engessada. Aqui, o gênero se mistura ao soul, ao afrobeat, à MPB, aos ritmos africanos e às sonoridades nordestinas sem qualquer necessidade de pedir licença. A curadoria assinada pela produtora cultural Fernanda Bezerra e pelo músico e historiador Fabrício Mota amplia ainda mais essa proposta ao colocar a identidade afro-brasileira como eixo central da experiência artística do festival.
A programação reflete exatamente essa pluralidade. No sábado (30), o público poderá acompanhar a musicalidade refinada da contrabaixista Camila Rocha, além da energia da Skanibais, banda que une ska jamaicano com ritmos brasileiros e nordestinos em uma fusão explosiva.
O histórico grupo A Cor do Som também sobe ao palco trazendo sua clássica mistura entre rock progressivo, jazz e música brasileira, enquanto Amaro Freitas, um dos pianistas mais inventivos da atualidade, apresenta sua impressionante capacidade de transformar os ritmos de Pernambuco em jazz contemporâneo pulsante e profundamente orgânico.
No domingo (31), o festival mergulha ainda mais fundo em suas raízes percussivas e afrodiaspóricas. O Grupo Garagem leva ao palco sua abordagem baseada na improvisação instrumental, enquanto o coletivo Aguidavi do Jêje, formado por 13 percussionistas baianos ligados ao Terreiro do Bogum, reforça a presença espiritual e ancestral que atravessa toda a proposta do evento.
Encerrando a programação, Sandra Sá aparece como símbolo vivo da soul music brasileira, carregando mais de quatro décadas de história, resistência e potência artística.
E foi justamente Sandra quem resumiu, talvez da maneira mais honesta possível, a importância de festivais como esse. Em declaração divulgada pelo evento, a cantora criticou a constante valorização de artistas internacionais em detrimento dos grandes nomes brasileiros. Para ela, existe uma riqueza sonora no Brasil que muitas vezes não recebe o reconhecimento merecido nem do próprio mercado nacional.
“O nosso som é a realidade, é a verdade, é o sangue. É a alma”, afirmou a artista ao defender uma maior consciência coletiva em torno da música brasileira e de suas matrizes negras.
A fala ecoa perfeitamente dentro da proposta do Salvador Jazz. Porque o festival não se limita a oferecer entretenimento. Ele atua como espaço de preservação cultural, circulação de conhecimento e fortalecimento artístico em um momento onde a música feita no Brasil ainda enfrenta disputas constantes por visibilidade dentro do próprio país.
Além dos shows, a programação inclui masterclasses realizadas entre os dias 27 e 29 de maio. Entre os temas estão “Blues: do Mississippi ao Rio Vermelho”, com Eric Assmar; “Sambando pra chegar”, com Tedy Santana; e “Como nasce um fonograma: Processos fonográficos para artistas independentes”, ampliando ainda mais o caráter formativo do encontro.
No fim das contas, o Salvador Jazz parece compreender algo que parte da indústria cultural esqueceu há muito tempo: música não é apenas consumo rápido ou algoritmo. Música também é território, memória, resistência e identidade. E quando os tambores da Bahia encontram o improviso do jazz, o resultado deixa de ser apenas espetáculo. Vira manifestação cultural viva.
Saiba mais aqui.
SERVIÇO:
Sábado, 30 de maio
18h — Camila Rocha
19h10 — Amaro Freitas
20h30 — Skanibais
21h50 — A Cor do Som
Domingo, 31 de maio
17h — Aguidavi do Jêje
18h30 — Grupo Garagem
19h50 — Sandra Sá
Largo da Mariquita, Rio Vermelho
Entrada gratuita
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