Ed OāBrien mergulha em cura, espiritualidade e contemplação em Blue Morpho
- Marcello Almeida
- hĆ” 16 horas
- 3 min de leitura
Guitarrista do Radiohead lança Ôlbum solo expansivo e emocional inspirado por transformação pessoal

Ed O'Brien sempre ocupou um espaço curioso dentro do Radiohead. Mesmo sendo responsÔvel por algumas das texturas mais atmosféricas e emocionais da banda inglesa, seu trabalho frequentemente parecia existir nas entrelinhas, ajudando a construir ambientes e sensações sem necessariamente disputar protagonismo.
Em Blue Morpho, porĆ©m, OāBrien finalmente transforma esse universo interior em centro absoluto da experiĆŖncia.
O disco, lanƧado pela Transgressive Records, marca seu segundo trabalho solo e o primeiro oficialmente apresentado sob seu próprio nome. Mais do que um simples projeto paralelo, Blue MorphoĀ soa como uma obra construĆda a partir de reconstrução emocional, vulnerabilidade e busca espiritual.
O ponto de partida conceitual do Ɣlbum nasceu de uma frase do poeta e fazendeiro americano Wendell Berry:
āPara conhecer a escuridĆ£o, adentre a escuridĆ£o.ā
A citação acabou funcionando como uma espĆ©cie de guia criativo para OāBrien durante um dos perĆodos mais turbulentos de sua vida. E isso atravessa praticamente todo o disco. Produzido por Paul EpworthĀ e Riley MacIntyre, o Ć”lbum abandona qualquer expectativa convencional de rock alternativo para mergulhar em atmosferas etĆ©reas, contemplativas e expansivas, onde Folk PsicodĆ©lico, Trip Hop, ambientaƧƵes eletrĆ“nicas e guitarras flutuantes convivem de maneira orgĆ¢nica.
Grande parte do material surgiu de longas sessƵes de improvisação, usadas pelo mĆŗsico quase como ferramenta de processamento emocional. Mais do que compor mĆŗsicas isoladas, OāBrien parece interessado em criar estados emocionais contĆnuos. Blue MorphoĀ Ć© um disco que atravessa silĆŖncio, introspecção, exaustĆ£o e tentativa de cura sem pressa de chegar a respostas definitivas.
Ao longo do processo criativo, diferentes encontros ajudaram a moldar a identidade sonora do projeto. O saxofonista e compositor Shabaka HutchingsĀ adicionou flautas após conversas com OāBrien sobre frequĆŖncia, ressonĆ¢ncia e espiritualidade durante o Glastonbury Festival. JĆ” Dave OkumuĀ contribuiu com texturas de guitarra, enquanto ESKAĀ ampliou a dimensĆ£o emocional do Ć”lbum com participaƧƵes vocais.
Os arranjos de cordas ficaram sob responsabilidade do compositor estoniano Tõnu Kõrvits, executados pela Tallinn Chamber Orchestra, acrescentando uma camada cinematogrÔfica e melancólica ao trabalho.
O disco foi finalizado entre o estĆŗdio pessoal de OāBrien no PaĆs de Gales e o lendĆ”rio The Church Studios, em Londres, contando ainda com assistĆŖncia de sequenciamento de FloodĀ e mixagem de Ben Baptie.
A faixa de abertura, Incantations, talvez seja a sĆntese mais clara da proposta do Ć”lbum. Em oito minutos, OāBrien constrói uma viagem lenta e hipnótica conduzida por guitarras atmosfĆ©ricas, bateria minimalista e vocais suaves que parecem pairar sobre a paisagem rural galesa que inspirou parte das composiƧƵes.
O lançamento também ganhou uma extensão visual com o curta-metragem Blue Morpho: The Three Act Play, dirigido por Kit Monteith. O filme estreou durante o SXSW, em Austin, antes de circular por cidades como Londres, Paris, Sydney, Cidade do México e Tóquio, aprofundando visualmente os temas de vulnerabilidade, transformação e reconstrução presentes no Ôlbum.
AlĆ©m das plataformas digitais, Blue MorphoĀ tambĆ©m recebeu ediƧƵes fĆsicas em LP, CD, cassete e versƵes especiais em vinil, incluindo a Metamorphosis Edition em vinil laranja e a Chrysalis Edition em vinil creme.
No fim das contas, o mais interessante em Blue MorphoĀ talvez seja justamente a sensação de liberdade silenciosa que percorre o Ć”lbum inteiro. Sem precisar carregar o peso das expectativas associadas ao Radiohead, Ed OāBrien parece finalmente confortĆ”vel em explorar espaƧos mais frĆ”geis, contemplativos e espirituais da própria mĆŗsica. E talvez seja exatamente aĆ que o disco encontre sua forƧa.
.png)