Ramones: a rivalidade entre Joey e Johnny que nunca cicatrizou
- Marcello Almeida
- há 19 horas
- 2 min de leitura
Diferenças políticas, traição e ressentimento transformaram a relação da dupla em algo estritamente profissional

À primeira vista, os Ramones pareciam uma unidade inquebrável. Quatro caras, três acordes, a mesma camisa de couro e uma missão clara: fazer barulho e mudar o rumo do rock. Mas essa imagem de irmandade sempre foi mais estética do que realidade.
Fora do palco, a convivência entre Joey Ramone e Johnny Ramone era marcada por atritos constantes. Eles eram opostos em praticamente tudo. Joey carregava uma visão mais sensível e progressista do mundo, enquanto Johnny era rígido, conservador e direto ao ponto. A música era o único território onde ainda conseguiam coexistir.
Essas diferenças não ficavam só no campo das ideias. Elas atravessavam a banda, o repertório e até decisões criativas. Um dos momentos mais emblemáticos veio com “Bonzo Goes to Bitburg”, escrita por Joey como reação à visita de Ronald Reagan a um cemitério nazista na Alemanha. Johnny se opôs frontalmente à música, a ponto de forçar a mudança do título para “My Brain Is Hanging Upside Down”.
Mas nada foi tão definitivo quanto o que aconteceu fora do estúdio. Quando Joey descobriu que sua namorada, Linda, havia se envolvido com Johnny, o que já era frágil desmoronou de vez. Não era só uma questão amorosa, era pessoal, direto, impossível de ignorar. A partir dali, qualquer resquício de amizade desapareceu.
Joey transformou essa dor em música. “The KKK Took My Baby Away” virou um dos registros mais explícitos dessa ferida. Um punk rápido, direto, quase infantil na forma, mas carregado de ressentimento.
Linda, por sua vez, seguiu com Johnny. Os dois se casaram e permaneceram juntos até a morte do guitarrista, em 2004. Já Joey nunca superou completamente o episódio. A relação entre os dois dentro da banda passou a ser puramente funcional: entravam juntos, tocavam, saíam, e voltavam a mundos completamente separados.
Nem mesmo a morte de Joey, em 2001, mudou isso. Johnny não compareceu ao funeral. Anos depois, foi direto ao explicar sua decisão: não havia mais relação, nem desejo de reconstrução.

Curiosamente, Linda ofereceu uma perspectiva mais pragmática da história. Para ela, tudo sempre girou em torno da banda. Relações vinham depois. Sentimentos vinham depois. E, de certa forma, todos sabiam disso, mesmo que o preço tenha sido alto demais. No fim, talvez essa seja a contradição central dos Ramones.
Uma banda que ajudou a definir o espírito do punk, cru, direto, sem filtros, mas que, por trás da simplicidade, escondia relações complexas, ressentimentos profundos e silêncios que nunca foram resolvidos.
No palco, eram eternos. Fora dele, eram irreconciliáveis.
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