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quedalivre transforma o caos da vida moderna em um dos discos mais interessantes do rock brasileiro recente

Peso, vulnerabilidade e identidade em estado bruto

A banda Quedalivre
Imagem: Reprodução


Depois dos primeiros minutos com seres urbanos, disco de estreia dos cariocas da quedalivre, tive aquela agridoce sensação de estar diante de uma obra que foi produzida não apenas com a intenção de ocupar espaço em playlists, mas sim de ocupar um lugar de reflexão. Temos aqui um conjunto de nove canções que querem ser mais do que ouvidas. Elas querem ser sentidas à flor da pele.





A banda formada por Lore (voz e guitarra), Victor Basto (voz, guitarra e produção) e João Mendonça (bateria e produção) parece compreender como ninguém os ruídos e as imperfeições do nosso tempo.


As canções falam daquela paisagem colorida pela ansiedade constante, daquela sensação de deslocamento e daquela busca incansável por tentar caber em um lugar, uma tribo ou uma pessoa. Mas não deixam de fora os excessos de estímulos e a solidão que insiste em existir, mesmo quando estamos conectados o tempo todo.


O meu contato com o disco aconteceu de maneira bem aleatória, mais uma indicação do "santo Spotify". Comecei a ouvir esperando encontrar uma boa banda independente brasileira. O que encontrei foi algo bem maior. E logo lembrei daquelas baboseiras que são ditas em algumas esquinas, de que não existe nada legal sendo produzido na música brasileira hoje em dia. Esse é mais um disco que prova o contrário.


O título não poderia ser mais apropriado para o momento. seres urbanos cria uma espécie de retrato afetivo da vida contemporânea. E não estou falando daqueles retratos perfeitos que aparecem nas redes sociais, mas das fissuras que existem por trás deles. Das inseguranças, dos medos e dos desejos que carregamos silenciosamente enquanto atravessamos nossos dias.


Sonoramente, a quedalivre se mostra pontual e assertivo. O disco demonstra uma maturidade um tanto impressionante. Sabe como passear audaciosamente por elementos do shoegaze, emo, metal alternativo, noise rock e música eletrônica sem soar refém de nenhuma dessas referências. Aqui, tudo parece orgânico. Tudo parece fazer sentido dentro da narrativa proposta pela banda.





As guitarras ocupam um papel central na construção dessa atmosfera. Em alguns momentos elas soam como um abraço melancólico. Em outros, como uma tempestade prestes a explodir. Há camadas e mais camadas de sons que se revelam a cada nova audição, tornando a experiência cada vez mais rica. É daqueles discos que recompensam quem decide voltar para uma segunda, terceira ou quarta escuta.


Faixas como "acaso", "lado animal" e "narciso" revelam um talento raro para transformar fragilidade em beleza. Já os momentos mais experimentais mostram uma banda que não tem medo de correr riscos. A quedalivre entende que identidade artística não nasce da repetição, mas da coragem de explorar novos caminhos sem abandonar a própria essência.



Já a sentimental "pq vc n olha mais pra mim???" parece uma doce mistura entre Deftones e My Bloody Valentine, mas também me fez lembrar de outra banda brasileira muito boa: terraplana. Entre uma canção e outra, o que mais me impressiona em seres urbanos, no entanto, é sua gota de humanidade. Existe uma sinceridade bonita que atravessa todo o disco.


Nada soa calculado. Nada parece ter sido criado para atender tendências ou agradar algoritmos. A sensação é a de estar ouvindo músicos tentando traduzir sentimentos reais em música, e isso faz toda a diferença.


O que faz conexão direta com a época que estamos vivendo, onde boa parte do consumo cultural acontece de forma rápida e instantânea, quase automática. Pulamos faixas, ignoramos discos inteiros e seguimos para o próximo lançamento antes mesmo de absorver o anterior.


seres urbanos vai na contramão dessa lógica. É um trabalho que pede atenção. Que exige presença. Que convida o ouvinte a desacelerar por alguns instantes e mergulhar em seu universo.


Ao final da audição, fica a impressão de que a quedalivre realizou algo cada vez mais raro: criou um álbum que dialoga com seu tempo sem se tornar prisioneiro dele. Um disco que fala sobre a vida moderna, mas que também fala sobre algo muito mais profundo e permanente: a experiência humana.



Em meio ao barulho das cidades, das telas e das notificações, seres urbanos encontra espaço para lembrar que ainda somos feitos de emoções, dúvidas, sonhos e contradições. E talvez seja justamente por isso que ele ressoe tão forte. Mais do que um excelente álbum, seres urbanos é um espelho. E nem sempre estamos preparados para enxergar o que ele reflete.

Capa do disco, Seres Urbanos, da banda Quedalivre
Imagem: Reprodução

 


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