O dia em que a Apple Records dispensou David Bowie
- Marcello Almeida
- há 20 horas
- 3 min de leitura
Antes de se tornar uma das maiores estrelas da música, Bowie ouviu da Apple Records que não era “o que procuravam no momento”

É estranho imaginar hoje, mas houve um tempo em que David Bowie parecia apenas mais um jovem artista tentando desesperadamente encontrar espaço na indústria musical inglesa. Muito antes de Ziggy Stardust, de Heroes ou da figura quase mitológica que atravessou décadas reinventando a própria cultura pop, Bowie era um músico de 21 anos acumulando portas fechadas.
Em 1968, sua carreira estava longe de transmitir qualquer sensação de inevitabilidade. Apesar de já tentar emplacar sucessos desde a adolescência, Bowie ainda parecia artisticamente indefinido. Seu álbum de estreia, lançado pela Decca em 67, não causou impacto significativo, e a gravadora rapidamente decidiu encerrar o contrato.
Hoje a decisão parece absurda. Mas naquele momento, ninguém enxergava no jovem David Jones o artista que redefiniria os limites do rock nos anos seguintes. A rejeição da Decca, porém, não destruiu Bowie. Apenas aumentou sua obsessão em provar que o mundo estava errado sobre ele. O próximo passo parecia óbvio: tentar entrar para a Apple Records, a recém-criada gravadora dos Beatles.
Naquele fim dos anos 60, a Apple era praticamente o centro gravitacional da cultura pop britânica. Mais do que uma gravadora, carregava o símbolo máximo de prestígio artístico da época. Todo músico jovem em Londres sonhava em fazer parte daquele universo ligado aos Fab Four.
Bowie também queria.
Seu empresário na época, Kenneth Pitt, tentou aproximações com a Apple Records, mas rapidamente percebeu que a estrutura da empresa estava longe da organização que muitos imaginavam. Em suas memórias, Pitt descreveu a gravadora como uma “organização deplorável”, marcada por “amadorismo puro e grosseria flagrante”.
Durante três meses, ele insistiu em obter uma resposta definitiva da Apple enquanto a empresa passava por mudanças internas, incluindo a chegada de Peter Asher como chefe de A&R. Pitt nunca escondeu o desprezo pela condução do processo e chegou a ironizar o fato de Asher ter sido contratado por sua ligação familiar com Jane Asher, então namorada de Paul McCartney.
Quando finalmente conseguiu uma resposta oficial, ela veio da maneira mais fria possível.
“Como lhe dissemos por telefone, a Apple Records não está interessada em contratar David Bowie. O motivo é que não achamos que ele seja o que estamos procurando no momento.”
A frase soa quase surreal em retrospecto.
O homem que mais tarde criaria personagens como Ziggy Stardust, reinventaria o glam rock, anteciparia tendências eletrônicas e se transformaria em uma das figuras mais influentes da história da música foi considerado simplesmente inadequado para a gravadora dos Beatles.
Kenneth Pitt ficou furioso. Não apenas pela rejeição, mas pela falta de consideração no processo inteiro. Segundo ele, Peter Asher sequer teve o trabalho de assinar pessoalmente a carta enviada ao empresário.
O episódio também ajuda a desmontar um pouco da imagem romantizada da Apple Records. Apesar da aura lendária, a gravadora frequentemente operava de maneira caótica durante seus primeiros anos. Os Beatles estavam mergulhados em conflitos internos, negócios paralelos e no desgaste crescente que culminaria no fim da banda pouco tempo depois.
Ainda assim, existe certa ironia histórica no fato de que justamente a gravadora ligada ao grupo mais revolucionário dos anos 60 não conseguiu perceber o potencial revolucionário que Bowie carregava.
Mas talvez a história tenha funcionado melhor assim. Livre da necessidade de se encaixar em expectativas alheias, Bowie continuou perseguindo sua própria identidade artística até explodir mundialmente poucos anos depois. Em 69, “Space Oddity” já começava a mudar sua trajetória. Em 73, ele havia se tornado uma das maiores estrelas do planeta.
No fim, a rejeição da Apple Records acabou servindo apenas como mais uma prova de algo que a história da música mostraria repetidamente: artistas verdadeiramente visionários quase nunca parecem óbvios no começo.
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