top of page

David Bowie e Heroes: a gente ainda precisa de heróis, nem que seja por um dia

Porque, no meio do caos que a gente aprendeu a chamar de normal, continuar sentindo já virou um ato de coragem

David Bowie
Imagem: Reprodução

Em algum momento da vida, a gente percebe que o mundo não vai se ajeitar como imaginávamos que fosse. Que as coisas não caminham para um lugar mais justo, mais leve, mais humano por inércia. Sempre fica aquele ruído constante, uma espécie de tensão que nunca vai embora. E é nesse tipo de silêncio desconfortável que “Heroes”, do David Bowie, começa a fazer ainda mais sentido.



Lançada em 77, naquilo que ficou conhecido como o coração da chamada trilogia de Berlim, a canção nasce em um dos momentos mais simbólicos da história recente. Bowie estava em Berlim Ocidental, vivendo e criando à sombra do Berlin Wall. Um muro que não dividia só a cidade, mas o mundo inteiro em dois lados. Era concreto, arame, vigilância. Era silêncio, mas daqueles tensos, sabe? Era limite. E é nesse cenário que surge uma das músicas mais humanas já escritas, na minha modesta e humilde opinião.


Existe aquela história, quase mítica, de um casal se beijando perto do muro. Um gesto simples, íntimo, mas carregado de risco. Um beijo sob vigilância. Um instante de afeto em meio à divisão. E talvez seja exatamente isso que transforma "Heroes" em algo ainda maior do que o contexto no qual ela foi criada. Porque, no fundo, a faixa não fala de política. Ela fala de resistência, de emoções, sentimentos, fala de humanidade, de gente como a gente tentando sobreviver mais um dia.


Quando David canta “we can be heroes, just for one day”, não é um simples verso tentando prometer grandeza e nem vitória, muito menos o alcance da tal glória; eu não vejo a narrativa de “Heroes” como aquela que oferece uma mudança estrutural. Quando me pego dentro dessa canção, sinto que ele está oferecendo algo muito mais honesto: um recorte de coragem. Um momento em que, apesar de tudo, alguém decide não ceder completamente.



E é aí que a música se desloca do passado e encosta na gente. Porque, se o século XXI derrubou muros físicos, ele ergueu outros, talvez ainda mais difíceis de enxergar. A gente vive cercado por divisões que não aparecem no mapa: polarização, desgaste emocional, excesso de informação, relações frágeis, uma sensação constante de que tudo está sempre à beira de desmoronar. O mundo mudou de forma, mas não mudou de tensão. Ela continua aí.


E, nesse cenário, “Heroes” volta a respirar. Ela não chega como aquela resposta pronta. Não traz nenhum tipo de solução. Não resolve o caos. Ela faz outra coisa, mais silenciosa e mais profunda: ela valida a tentativa. Ela reconhece o esforço de continuar, mesmo quando não há garantia de nada. E isso, hoje, tem um peso enorme, você há de concordar comigo.


Porque ser “herói” nunca foi sobre salvar o mundo. Sempre foi sobre não desistir dele completamente. Talvez seja por isso que essa música ainda toca tanto. Porque ela não exige nenhuma grandeza. Ela não pede transformação extraordinária. Ela fala de coisas pequenas e, justamente por isso, essenciais. Amar quando é mais fácil se fechar. Sentir quando tudo empurra para o entorpecimento. Permanecer quando a saída mais óbvia seria ir embora de si mesmo.


Heroes não é sobre mudar a história. É sobre sustentar um instante dentro dela. E talvez seja isso que mais assusta e, ao mesmo tempo, mais consola. A ideia de que, às vezes, tudo o que a gente tem é um único dia. Um único gesto. Um único momento em que a gente escolhe não endurecer, não fugir, não se apagar. E, ainda assim, isso já pode ser suficiente. Porque no meio de um mundo fragmentado, acelerado e emocionalmente exausto, continuar sentindo já é um ato de resistência.


E, de vez em quando, resistir já é ser herói.



O Teoria Cultural nasceu da paixão pela cultura pop, pela música, pelo cinema e pela arte como forma de expressão e entendimento do mundo. O projeto começou como uma página no Instagram, inicialmente chamada Caro Vinil, voltada à celebração dos discos, do rock e das narrativas culturais que atravessam gerações. Saiba mais

  • Whatsapp
  • Instagram
  • Facebook
  • X
  • Tópicos

Categorias + Comentadas

Institucional

Teoria Cultural

INSCREVA SEU EMAIL PARA RECEBER

ATUALIZAÇÕES, POSTS E NOVIDADES

© 2026 Todos os direitos reservados a Teoria Cultural |  PRODUZIDO CRIADO E DESENVOLVIDO, com EXPRESSÃO SITES

Expressão Sites
bottom of page