Quando Kate Bush levou “Rocket Man” para outro universo, e fez a música flutuar
- Marcello Almeida
- há 10 horas
- 3 min de leitura
A releitura da artista transformou um clássico de Elton John em algo ainda mais etéreo e inesperado

Existe uma sensação difícil de explicar quando você para para ouvir Kate Bush, principalmente quando ela estava no auge. Não é só música. É atmosfera. É como se o som não viesse de um estúdio, mas de algum lugar suspenso, fora da lógica comum das coisas.
Digamos que seja algo meio lunar, meio íntimo, aquela sensação um tanto impossível de localizar, mas que soa estranhamente familiar, não sei se você me entende. Mas é esse pensamento que me leva até “Rocket Man”, de Elton John, porque a canção sempre conseguiu orbitar muito bem dentro desse universo. Uma canção sobre isolamento, espaço e deslocamento emocional que, nas mãos de Kate, deixaria de ser apenas narrativa para virar uma tremenda sensação.
“Lembro-me de ter comprado esta música quando foi lançada como single pelo Elton John”, contou ela sobre a faixa de 1972. “Eu não conseguia parar de ouvi-la; eu a adorava. A maioria dos artistas em meados dos anos 70 tocava guitarra, mas Elton tocava piano, e eu sonhava em poder tocar como ele”.
Bush tinha apenas 13 anos quando ouviu a faixa pela primeira vez. Poucos anos depois, ela já estava construindo um caminho próprio, não como reflexo, mas como expansão. Canções como “Wuthering Heights” e “The Man With the Child in His Eyes” não apenas a colocaram no grande mapa, mas abriram uma nova forma de pensar e sentir a música pop: algo mais teatral, mais sensorial, menos presa ao chão, sabe?
Quando, em 1989, surgiu o convite para participar do projeto Two Rooms: Celebrating the Songs of Elton John & Bernie Taupin, a escolha parecia inevitável. Bush não quis apenas cantar “Rocket Man”. Quis transformá-la.
“Eles me deram total liberdade criativa e, embora tenha sido um pouco intimidante ter carta branca para trabalhar em uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos, foi realmente emocionante”, explicou. “Eu queria fazer algo diferente da original e achei que seria divertido transformá-la em uma versão reggae. Significou muito para mim que eles a tivessem escolhido como o primeiro single do álbum.”
O resultado é curioso, e, ao mesmo tempo, coerente com tudo que ela sempre fez. A base reggae suaviza o peso da música original, como se tirasse o personagem do chão e o deixasse realmente flutuar. A produção, guiada por texturas eletrônicas e pelo uso do Fairlight CMI, aproxima a faixa do universo sonoro que Bush já vinha explorando em trabalhos como Hounds of Love.
E talvez o detalhe mais simbólico esteja justamente no que não está ali. O piano, instrumento que a encantou em Elton John, praticamente desaparece. No lugar, surgem camadas, ambiência, respiração. Como se ela tivesse entendido que, para homenagear de verdade, não precisava repetir, precisava deslocar.
O single alcançou o 12º lugar nas paradas, mas o impacto vai além de números. É o tipo de releitura que não compete com o original. Existe ao lado dele, em outro plano.
Anos depois, os caminhos voltariam a se cruzar. Em 50 Words for Snow, Bush convidou o próprio Elton para dividir vocais em “Snowed in at Wheeler St”, fechando um ciclo que começou lá atrás, quando ela ainda era só uma adolescente ouvindo um single sem parar.
Porque algumas músicas falam sobre o espaço, e outras fazem você realmente chegar lá.
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