'Promises' um disco antológico que marca o encontro da Música Eletrônica com o Jazz.

Atualizado: 21 de dez. de 2021



Promises’ é muito mais do que um simples disco que você coloca para ouvir em um dia normal da vida. Chega a ser difícil definir uma obra tão abrangente e complexa em linhas tortas de palavras que não atinge o esplendor e a elegância de um disco soberbo e primoroso. O trabalho nasceu do encontro revolucionário entre Sam Shepherd (conhecido como Floating Points) produtor de música eletrônica com o semideus do Jazz Pharoah Sanders. A obra se completa com os violinos, violoncelos e contrabaixos da exuberante Orquestra Sinfônica de Londres. Um encontro entre gerações que vai fazer você experimentar algo realmente lindo e etéreo ao ponto de agradar sua frágil alma nesse torto e desconexo 2021. São pontos flutuantes e suaves, apreciados pela tranquilidade de cada ato e extensão entre o saxofone de Sanders e os elementos experimentais de Points, e o resultado é excepcional.


Promises’ é um álbum colaborativo que puxa uma atmosfera de som ambiente com uma habilidade onírica extremamente relaxante, são melodias para você chegar em casa depois de um dia exaustivo de trabalho, deitar a cabeça no travesseiro, descansar e desligar-se do mundo. O disco se constrói a partir de uma única composição “Movement” que se divide em nove fragmentos, criando um som psicodélico, climático e espacial, onde sintetizadores, pianos, saxofones e arranjos de cordas se encontram em uma química excitante e sedutora, provocada pelos arranjos eletrônicos de Floating que ao encontrar o sax de Sanders criam uma sonoridade cósmica, abrindo portas para um universo paralelo entre a fantasia e o nosso mundano real.

Nos quatro primeiros atos, existe um frescor arborizado como se a luz do sol cintilasse por entre as frestas das árvores trazendo aquele vento aconchegante te convidando para adentrar nesse universo feito de suavidade e explosões que surgem e desaparecem como flashs de luzes que acendem e despertam sentimentos um tanto difíceis de serem colocados em palavras.

Promises’ não é um disco para ser explicado e sim sentindo, você precisa sentir na alma as notas singelas do sax, do piano, das camadas eletrônicas e das melodias harmônicas da Orquestra Sinfônica de Londres. O segredo com o disco é bem simples, você só precisa dar o play e se entregar a viagem. Está tudo na mente, você sabe. Quem possui uma certa afinidade com a musicalidade de Pharoah Sanders sabe que o som do seu saxofone são notas afirmadoras da vida e isso já vem de longa data na carreira do músico, a presença da Orquestra Sinfônica de Londres torna-se mais nítida a medida que o disco avança, evoluindo o trabalho para níveis cinematográficos de total grandeza.


Movement 6 e "Movement 7” são faixas que soam verdadeiramente celestes. Genial e criativo. Senti-me pasmo (durante a transição imperceptível de um ato para o outro) imerso em um clímax sonhador, repleto de pura doçura, totalmente agradável do início ao fim. Nada é apressado e nem demorado também. Por mais que seja lindo os arranjos de Shepherd, eu sempre me volto para magistralidade do saxofone de Sanders, ele é poderoso e magistral, ganha força e potência, explode e desaparece em silêncio, como se ele estivesse em seus primeiros anos ao lado de John Coltrane. E esse flerte fica bem evidente em “Movement 5” onde Sander toca com mais intensidade (aprecie o solo de sax) e paixão, e quando seu sax se silencia, a Orquestra toma frente e faz bonito com melodias celestiais.


Em certos momentos da obra ela remete ao álbum de Sanders ‘Black Unity' de 1971, talvez seja pelo fato de ser apenas uma composição dividida em atos. Um disco audacioso e gigantesco, de dimensões imensuráveis que entrega uma sonoridade deliciosa e contagiante, pode muito bem-fazer você esquecer por momentos (preciosos) dessa realidade trivial que parece não querer passar. Difícil não sorrir ao chegar no final de 'Promises'.

 

Ficha Técnica:

'Promises'

UM ENCONTRO DE: Floating Points, Pharoah Sanders & The London Symphony Orchestra

LANÇAMENTO: 26 de março de 2021

GÊNERO: Eletrônico e Jazz

Ouça: "Movement 5, 6 e 7"

PARA QUEM CURTE: Jazz e Orquestra

 

Faça a viagem sonora no Spotify:


 

Agora faça uma viagem relaxante pelo vídeo de "Movement 1" abaixo:


 

Sobre Marcello Almeida

É editor e criador do Teoria Cultural.

Pai da Gabriela, Técnico em Radiologia, flamenguista, amante de filmes de terror. Adora bandas como: Radiohead, Teenage Fanclub e Jesus And Mary Chain. Nas horas vagas, gosta de divagar histórias sobre: música, cinema e literatura. marce.almeidasilvaa@gmail.com

 






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