'Ignorance' um disco contemplativo, onde Tamara Lindeman flerta com seu lado emocional e racional.

Atualizado: 14 de dez. de 2021



The Weather Station, banda canadense liderada por Tamara Lindeman, que ganhou vida em 2006, quando ela começou a gravar músicas diretamente em seu computador. Algo que iniciou como um projeto pessoal e gradualmente foi ganhando definições de uma banda e o grupo gravou o primeiro álbum ‘The Line’ em 2009, seguido por ‘All of It Was Mine’ (2011), Loyalty (2015) e The Weather Station (2017). A banda ainda conta com um time de músicos entre saxofonista, flautistas e o peso de dois bateristas e muito mais. Uma mistura sonora que acabou dando muito certo.


O som do grupo trafega por um Pop Folk e Indie Pop, uma música folclórica que ganha novas incorporações e elementos no novo disco de estúdio intitulado de ‘Ignorance’ (2021), onde a sonoridade ganha elementos que aproximam muito do synth Pop dos anos oitenta e de bandas como: Fleetwood Mac. Tamara adotou uma roupagem orgânica e vulnerável, onde as músicas conversam tanto com o social quanto com o pessoal, lançando um olhar atencioso sobre sua visão de mundo, de como é pertencer a um cenário destrutivo, ao mesmo tempo que olha para si mesma e suas relações pessoais. Como se no novo trabalho ela se libertasse de suas limitações atingindo um novo pico. Entre discussões climáticas e pesquisas sobre os efeitos das mudanças climáticas, Tamara sintetizou isso tudo em canções docemente envolventes.


Ignorance’ sem sombra de dúvidas eleva o The Weather Station ao ápice artístico como uma banda. Um disco conciso, belo e grandioso. Soa ousado e provocativo, enquanto levanta questionamentos reflexivos sobre tudo que está acontecendo ao redor do mundo hoje. E como nós nos comportamos perante a isso tudo, dá para ignorar tudo isso? É o que ironiza e provoca o título do disco. Essa capacidade de como as canções conseguem conversar e abranger tanto o universo intimo como o social, é o que torna o álbum conceitual. Te envolve logo de cara, com melodias e arranjos sensacionais, letras poéticas, que se tornam o ponto forte da banda. Tamara despeja as dramatizações de sua realidade em canções Pop da mais alta qualidade, sua voz alterna entre momentos calmos e eufóricos, exprime a suavidade de sentimentos tranquilos e a angústia de dias mais pesados.


Muito dessa atmosfera inovadora na sonoridade da banda se deve ao resultado da experiência e processo de composição de Lindeman. Foi a primeira vez que a cantora escreveu no teclado, ao invés da guitarra, e sua primeira vez escrevendo arranjos antes de trazê-los para banda. As faixas do disco possuem bases rítmicas verdadeiras. Os instrumentos estão todos adequados e em total harmonia. “Robber” abre de forma introspectiva e enigmática, os primeiros instantes são levados por um instrumental vibrante, batidas de tambor hesitante, que abrem cordialmente para entrada da voz coloquial e gentil de Tamara. Uma canção que se constrói a partir de elementos experimentalistas: saxofones e várias camadas de percussão. Uma música que, a meu ver, satiriza o sistema capitalista e mostra muito bem essa nova paisagem pela qual a banda se aventura nesse novo trabalho.

Atlantic” é doce, suave e sensual. Uma canção Pop arrebatadora, que mergulha no melhor do Pop dos anos oitenta com uma roupagem moderna e atual. Um som mais viajado e espacial de notas densas e urgentes. Lindeman simplesmente refez o som do The Weather Station.

Como se a banda estivesse em um transe de total sintonia. Um trabalho profundo e sucinto. “Tried to Tell You” é como se fosse uma capsula do tempo transbordando o melhor do Synth Pop dos anos oitenta. A voz suave e doce de Tamara evoca inúmeros sentimentos. A banda conseguiu se aproximar ao máximo do puro pop, aquela canção com todos os elementos que nós adoramos ouvir. Imagine uma noite chuvosa, uma boa garrafa de vinho, e a voz de Lindeman ecoando pelo silêncio da casa. Ela abandonou de vez sua zona de conforto e desabafa suas dramatizações e verdades incômodas em versos poéticos, criando uma sonoridade absolutamente luxuosa. A combinação perfeita entre a Roxy Music e o Fleetwood Mac dos anos 70- início dos 80, com camadas que exploram elementos do Jazz.


Em "Separated" Tamara usa e abusa das estruturas estelares do Pop, criando aquela ambientação nutrida de um sentimento de desconexão, aqueles momentos os quais precisamos se desconectar de todas as mazelas do mundo e tentar ao menos por um dia viver sem pensar nas notícias que você viu na TV, entretanto, em "Loss" ela avança o sinal e se joga em um abismo solitário. A magia desse disco se estabelece nesses momentos de transições onde ela consegue ser compassiva ao enfatizar os sinais de riscos em uma relação pessoal ou com o planeta. Na linda e comovente "Heart" ela canta "Eu sou suave/Mas também estou com raiva". São tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo, que às vezes não conseguimos distinguir nossos sentimentos e vivemos essa dualidade constantemente.


Ao todo são dez faixas que compõem o disco e um pouco mais de quarenta minutos. Um álbum que começa introspectivo e misterioso e vai se abrindo a cada faixa. Existe uma harmonia entre uma música e outra, uma conexão que se estende por toda obra. Sintonia essa que faz de ‘Ignorance’ um disco maravilhoso, honesto e comovente. O álbum foi produzido por Marcus Paquin (The National e Arcade Fire). Uma obra perfeitamente trabalhada, produzida para alma e coração. É o que acontece quando se compõe sobre coisas que existem e estão sempre presentes no dia a dia. A percepção que fica é de que Lindeman cresce artisticamente a cada novo álbum, ficando até arriscado defini-lo como o seu melhor trabalho e prefiro dizer ser uma conquista notável e evolutiva do The Weather Station.

 

Ficha Técnica:

'Ignorance'

Data de Lançamento: 5 de fevereiro de 2021

Gênero: Rock Pop, Indie Rock, Folk Rock

Data de Gravação: 2019

Ouça: "Atlantic", "Robber" e "Tried To Tell You"

Para quem gosta de: Fleetwood Mac e Joni Mitchell




 

Ouça o disco no Spotify:


 

Veja o clipe de faixa "Robber" abaixo:


 

Sobre Marcello


É editor e criador do Teoria Cultural.

Pai da Gabriela, Técnico em Radiologia, flamenguista, amante de filmes de terror. Adora bandas como: Radiohead, Teenage Fanclub e Jesus And Mary Chain. Nas horas vagas, gosta de divagar histórias sobre: música, cinema e literatura. marce.almeidasilvaa@gmail.com

 

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