Por que ainda ouvimos: “Song 2”, do Blur, não era pra ser um hit, talvez por isso funcione até hoje
- Marcello Almeida
- há 2 dias
- 3 min de leitura
Ela entra, faz barulho e sai de cena antes que você possa decidir se gostou ou não

Poucas músicas nasceram tão pouco preocupadas com o próprio destino quanto Song 2, do Blur. Essa é aquela faixa magnética que não clama pela a sua atenção e muito pouco está preocupada em criar um clímax, não possui uma narrativa clara e definida. Ela simplesmente aparece, explode e some. São dois minutos de cartase, um grito e aquele famoso soco seco.
E, por incrível que pareça, ela virou uma das canções mais reconhecíveis dos anos 90. Coincidência? Creio eu que não, isso tá mais para um acidente bem-sucedido na história e discografia da banda liderada por Damon Albarn. Eu gosto de pensar em Song 2 como uma música que funciona porque não tenta ser importante. Talvez isso irrite alguns. Mas, se pararmos para analisar, isso, num mercado obcecado por relevância, acaba sendo profundamente subversivo.
Nos anos 90, o Blur já tinha "vencido" o tal jogo do britpop. Singles, capas de revista, rivalidade transformada em narrativa épica. Só que o sucesso começou a pesar. A ideia de “representar a Inglaterra” virou jaula estética. Enquanto isso, o rock alternativo americano dominava o imaginário global com guitarras saturadas, dinâmicas explosivas e uma pose de sofrimento autêntico. O grunge, especialmente o que veio depois de Nirvana, virou fórmula.
Song 2 brota desse cansaço. Não como homenagem, mas como comentário atravessado por ironia. É uma caricatura do rock americano pesado, comprimida até o osso. Distorção exagerada. Bateria inflada. Letra fragmentada, quase descartável. Tudo soa propositalmente óbvio. Quase grosseiro. E aí vem o erro de cálculo. Era para soar como paródia. Soou como hit, como hino.
Há algo de deliciosamente errado nisso. O Blur tenta rir do excesso e cria uma das faixas mais usadas em estádios, filmes, comerciais e videogames. A música que deveria expor o clichê vira o próprio clichê, vê se pode algo assim. Mas não se deixe enganar, nada funciona aqui de forma vazia. Existe energia real ali. Um tipo de verdade física. O corpo responde antes da cabeça. Sem defesa possível.
A produção ajuda a entender isso. A decisão de manter o vocal de Damon Albarn cru, quase improvisado, e a guinada agressiva de Graham Coxon na guitarra tiram qualquer verniz de sofisticação. Song 2 não quer soar inteligente. Quer soar imediata. E consegue.
O título improvisado que virou um conceito definitivo diz muito. “Song 2” é anti-conceito. Não quer vender uma ideia, não promete nada. É quase um rascunho que escapou do papel. A letra não se preocupa em ser decifrada. Não há narrativa, não há arco emocional clássico. O que existe são imagens soltas, aquela tensão acumulada e, de repente, o grito. O famoso “woo-hoo”, que virou uma espécie de idioma universal da descarga de adrenalina.
Aqui entra a parte que costuma gerar discordância: Song 2 envelheceu melhor do que muita música “profunda” da época. Justamente porque não depende de contexto, manifesto ou geração específica. Ela não pede interpretação. Ela simplesmente acontece. Simples assim. É uma canção que continua vibrando justamente por ser simples.
E não estou dizendo de maneira alguma que ela seja vazia; pelo contrário. Existe ali uma crítica ácida sobre indústria, tendências e identidade. Mesmo quando parece “americana”, a faixa carrega humor britânico, autocrítica e uma leve sensação de deboche. O Blur não está tentando competir com o grunge. Está apertando seus botões até eles quebrarem, sacou?
E talvez seja por isso que Song 2 continue funcionando. Ela não se explica. Não pede desculpa. Não tenta se justificar historicamente. Ela entra, faz barulho e sai de cena antes que você possa decidir se gostou ou não. E isso, hoje, soa quase radical.











