Pitty faz discurso sobre eleições durante show e defende SUS, educação pública e direitos das mulheres
Durante estreia de sua nova turnê em São Paulo, cantora falou sobre abstenção eleitoral, desigualdade social e a importância de considerar as necessidades coletivas

Pitty aproveitou a estreia de sua nova turnê, realizada no sábado (17), no Espaço Unimed, em São Paulo, para se manifestar sobre o momento político brasileiro. A apresentação, que celebrou o lançamento de seu sexto álbum de estúdio, também abriu espaço para uma reflexão sobre o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro.
Diante do público, a cantora destacou a importância da participação eleitoral e defendeu que as escolhas políticas sejam discutidas considerando principalmente a realidade de quem depende de serviços e políticas públicas.
Antes de desenvolver seu argumento, Pitty explicou que a celebração de um novo trabalho musical não a impedia de acompanhar os acontecimentos do país.
“Eu tô aqui festejando hoje com vocês, a gente tá aqui celebrando o nascimento desse novo trabalho. Mas isso não impede que a gente saiba o que está acontecendo também no nosso país nesse momento. Vamos rir, vamos festejar, mas a gente sabe o que está acontecendo no nosso país nesse momento também.”
Pitty alerta para consequências da abstenção eleitoral
Um dos principais pontos do discurso foi a preocupação com os eleitores que deixaram de votar no primeiro turno. A cantora defendeu que essas pessoas sejam procuradas para conversar sobre a importância de participar da decisão eleitoral, independentemente de suas preferências pelos candidatos.
“Eu penso que a gente pode e deve conversar com as pessoas que não foram votar. O maior nível de abstenção em muito tempo. E agora não é se você gosta desse ou daquele candidato. Agora, algum deles vai ganhar e vai mandar na sua vida. Então se abster agora é dizer: ‘não quero saber, não tô nem aí’. Só que a conta vai chegar. A conta vai chegar.”
A manifestação também trouxe uma reflexão sobre as diferentes condições sociais dos brasileiros. Pitty reconheceu que sua posição econômica e profissional pode reduzir os efeitos de determinadas decisões políticas sobre sua própria vida. Para ela, entretanto, esse reconhecimento torna ainda mais importante considerar a situação de outras pessoas.
“Eu tô falando do ponto de vista de uma mulher que tem consciência dos seus privilégios, certo? Eu tenho consciência dos meus privilégios. A decisão da maioria nesse caso, provavelmente, vai impactar muito pouco na minha vida. Isso não é sobre mim. Isso não é sobre um indivíduo, isso é sobre o coletivo.”
“Isso não é favor não, é direito”
Ao aprofundar sua fala, Pitty citou situações enfrentadas por brasileiros que dependem de serviços públicos, especialmente mulheres responsáveis pelo sustento de suas famílias.
A cantora mencionou as dificuldades de mães solo que precisam trabalhar e encontrar um lugar seguro para deixar seus filhos, além de defender o acesso à saúde e à educação pública.
“Isso é sobre quem precisa de SUS. Isso é sobre quem precisa de creche. Mãe solteira no Brasil, alimentando a casa sozinha, saindo pra trabalhar, tendo que deixar filho com quem? A maioria dos pais foram pra onde? Cadê o pai dessa criança? É sobre essas mulheres que precisam de uma creche pra deixar seu filho, é sobre querer entrar numa universidade boa, pública. O que a gente tem direito – isso não é favor não, é direito.”
O discurso também abordou o papel das mulheres e a preocupação da artista com as próximas gerações.
Ao mencionar a própria filha e as colegas dela, Pitty afirmou que os avanços sociais conquistados não eliminam a necessidade de continuar discutindo direitos.
“Eu penso nas mães solo, eu penso nas pessoas que vão precisar do SUS, que vão precisar das universidades. Eu penso nas mulheres, todas, de todo e qualquer recorte. Eu penso na minha filha, nas colegas da minha filha que vão querer andar por aí. Já avançamos, mas ainda tem muita coisa pra gente fazer. E tão querendo o quê? Cortar nossos direitos? Ah, não. Não, obrigada.”
Cantora também rebate críticas ao posicionamento político de artistas
Outro momento da apresentação foi dedicado às acusações de que artistas se manifestam politicamente apenas por interesses financeiros relacionados a mecanismos de incentivo cultural.
Pitty mencionou especificamente a Lei Rouanet e chamou atenção para os trabalhadores que dependem economicamente das atividades culturais.
“Toda vez que um artista fala sobre isso: ‘ah, é porque é lei Rouanet, é porque a lei Rouanet’. Irmão… Olha o tanto que a cultura movimenta. Todo mundo que tá ali fora trabalhando, cada carrinho daquele que tá ali fora vendendo é a família de um trabalhador.”
Ao utilizar como exemplo os vendedores que trabalhavam nas proximidades do show, a cantora procurou demonstrar que a atividade cultural envolve profissionais que nem sempre estão diretamente ligados à produção artística.
“A conta vai chegar para quem mais precisa”
Na parte final do discurso, Pitty reconheceu que nem todas as pessoas presentes necessariamente concordavam com suas opiniões. Ainda assim, pediu respeito e voltou a defender o diálogo com aqueles que consideram não participar do segundo turno.
“Você pode até não concordar comigo, tá tudo bem, mas precisa respeitar o que eu tô falando aqui agora. Eu peço… peço com humildade, peço com carinho, e peço também com garra no coração. Conversem com as pessoas ao seu redor, as pessoas que: ‘ah, não quero nem um nem outro, não vou’. A conta vai chegar. A conta vai chegar, e vai chegar pra quem mais precisa. É sobre isso.”
A manifestação aconteceu durante o primeiro show da turnê de divulgação de Pitty, álbum homônimo recém-lançado pela cantora, que reúne 13 faixas e combina sua ligação com o rock a novas experimentações musicais.
A apresentação em São Paulo marcou, portanto, dois momentos distintos: a chegada de um novo trabalho à carreira da artista e sua manifestação pública sobre questões que considera importantes para o país.
Ao encerrar a fala, Pitty retomou o argumento que atravessou todo o discurso: uma decisão eleitoral não afeta todos os brasileiros da mesma maneira. Para a cantora, é preciso olhar especialmente para quem mais depende das políticas públicas e dos direitos sociais.
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