Bono critica Elon Musk e governo Trump por cortes na ajuda humanitária: “É inconcebível”
Vocalista do U2 alerta para o impacto da redução de recursos internacionais sobre milhões de crianças e afirma que a democracia americana enfrenta uma grave ameaça

Bono, vocalista do U2, fez duras críticas a Elon Musk e ao governo de Donald Trump pelos cortes nos programas de assistência internacional dos Estados Unidos. Em entrevista ao The New York Times, o músico irlandês questionou as consequências humanitárias das medidas adotadas pelo Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), anteriormente comandado pelo empresário.
As declarações abordam especialmente o enfraquecimento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), responsável por financiar programas de saúde, combate à pobreza e assistência humanitária em diferentes regiões do mundo.
Bono, que há décadas participa de iniciativas relacionadas ao desenvolvimento internacional, afirmou que as decisões tomadas pelo governo americano podem comprometer a sobrevivência de milhões de pessoas. O cantor também apresentou uma avaliação contundente sobre o atual cenário político dos Estados Unidos.
“Porque acho que este é o momento mais extraordinário. Quero dizer, este é o maior roubo da história do mundo: roubar a América. E não é um filme de assalto. É real e está acontecendo.”
Bono alerta para possível impacto sobre milhões de crianças
Durante a entrevista, o vocalista foi questionado sobre sua avaliação moral das decisões tomadas pelo DOGE e pelo governo Trump. Ao responder, Bono direcionou sua atenção às populações que dependem de programas internacionais de assistência, particularmente crianças em situação de vulnerabilidade.
“Para pistas gerais sobre a maldade, basta observar o abuso de crianças. Isso sempre é uma pista. Não sei quantas mortes serão eventualmente atribuídas aos cortes do DOGE.”
O músico mencionou estudos sobre os possíveis efeitos da redução dos investimentos americanos em saúde e assistência internacional.
“Existem muitas estimativas diferentes. Se você consultar, por exemplo, a revista The Lancet, eles sugerem, creio eu, que até 2030, talvez cinco milhões de crianças menores de 5 anos.”
A preocupação apresentada por Bono encontra respaldo em uma pesquisa publicada na revista científica The Lancet, em 2025. O estudo estimou que a manutenção de cortes profundos no financiamento da USAID poderia resultar em aproximadamente 14 milhões de mortes adicionais até 2030, incluindo cerca de 4,5 milhões de crianças menores de cinco anos.
Os pesquisadores analisaram dados de programas internacionais de assistência e desenvolveram modelos para projetar as consequências de sua interrupção. Os números representam estimativas condicionadas à continuidade dos cortes, não um registro de mortes já ocorridas.
“Que pessoa de consciência permitiria isso?”
Ao comentar as possíveis consequências da redução dos recursos humanitários, Bono também questionou como pessoas que defendem princípios religiosos e valores morais poderiam aceitar os riscos apontados pelos estudos.
“Que família cristã, que família católica, que família judaica, qualquer pessoa de fé, aliás, qualquer pessoa de consciência, permitiria a hemorragia de vidas humanas que ocorrerá como resultado desses cortes no orçamento do DOGE? É inconcebível.”
A declaração acompanha uma trajetória de envolvimento do músico com iniciativas de combate à pobreza e de ampliação do acesso à saúde. Em 2004, Bono participou da criação da ONE, organização sem fins lucrativos dedicada à defesa de políticas de desenvolvimento e melhores condições de vida, especialmente no continente africano.
Por meio desse trabalho, o vocalista passou a acompanhar diretamente questões relacionadas ao financiamento de programas internacionais de saúde. Agora, ao criticar as medidas promovidas durante a passagem de Musk pelo DOGE, Bono relaciona decisões orçamentárias aos riscos enfrentados por populações dependentes desses serviços.
Bono também critica os rumos da democracia americana
As declarações do cantor não ficaram restritas à política de assistência internacional.
Durante a entrevista, Bono afirmou que os acontecimentos políticos nos Estados Unidos representam uma questão maior do que a figura de Donald Trump. Ao se referir ao presidente como “o homem cujo nome não deve ser mencionado”, o vocalista argumentou que as transformações em curso atingem princípios fundamentais do país.
“O maior roubo da história do mundo? São as joias da coroa. É a liberdade. É a democracia.”
Bono também criticou a situação interna do Partido Republicano. Na avaliação do músico, a legenda passou por uma “tomada de poder agressiva”, que teria afastado parte dos valores defendidos por seus eleitores tradicionais.
Apesar das críticas, o cantor procurou diferenciar sua oposição ao governo Trump de uma rejeição generalizada aos americanos de orientação conservadora.
“Quero convidá-los de volta. Quero que eles retornem. As pessoas votam nos conservadores por vários motivos, e isso é perfeitamente aceitável.”
Ao defender essa distinção, Bono ressaltou sua intenção de manter o diálogo com pessoas que possuem diferentes posicionamentos políticos.
U2 prepara novo álbum e retorno ao Brasil em 2027
A entrevista acontece em um momento de intensa atividade do U2. A banda anunciou recentemente Carnaval de Luz, seu 16º álbum de estúdio, com lançamento previsto para 13 de novembro. O grupo também confirmou as primeiras apresentações de sua próxima turnê mundial, que começará pela América Latina em 2027. A série terá início em fevereiro, com dois shows no Estádio GNP Seguros, na Cidade do México.
Em março, Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. retornarão ao Brasil para apresentações no MorumBIS, em São Paulo, nos dias 10 e 12. A agenda latino-americana também inclui duas noites no Estádio River Plate, em Buenos Aires, nos dias 23 e 25 de março.
Beck será responsável pela abertura de todas as apresentações anunciadas. Enquanto prepara o retorno aos palcos, Bono mantém sua participação no debate sobre questões políticas e humanitárias.
Na entrevista ao The New York Times, o vocalista deixou claro que sua preocupação com os cortes promovidos pelo DOGE ultrapassa as divergências partidárias. Para Bono, a discussão sobre a redução dos gastos americanos precisa considerar algo que não aparece diretamente nas planilhas do governo: as vidas que podem ser afetadas pela interrupção da assistência humanitária.
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