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O mergulho nas ondas da mente com Where Is My Mind?, do Pixies

"Lá na água, bem longe..."

Pixies
Imagem: Reprodução

Todo mundo tem uma música que fala sobre aquele momento em que você percebe que perdeu o eixo de tudo. Alguns podem fingir que não. Mas uma coisa é certa: se você ainda não viveu isso, não se preocupe, ele ainda vem. Dito isso, Where Is My Mind?, do Pixies, nasce desse contexto. Não virou clássica tentando ser aquela canção complexa, digamos, profunda. Gosto de pensar nela com outros olhos; ela virou um hit porque não tenta ser justamente nada disso.



E tem coisas, meus amigos, que incomodam mais do que qualquer tese bem articulada sobre a alienação do nosso tempo moderno.


A faixa lançada no conceituado Surfer Rosa, lá em 88 (e que disco é esse?), é literalmente aquela que te tira do chão e te deixa ali, com os pés plantados no ar, com uma multidão de pensamentos pairando sobre você. Onde está minha mente? É aquele tipo de música que acontece, impacta e não pede que o ouvinte seja um experto em interpretação. Os versos, os acordes e riffs pedem muito mais que isso: pedem vertigem, pedem caos. Aí vem o ponto. E talvez seja por isso que tanta gente ache que “entende” essa faixa quando, na real, só se reconhece nela.


A narrativa é estridente e muito convidativa. Black Francis traça um mito de um tal mergulho nas Bahamas, e isso abre a porta para uma viagem de pouco mais de três minutos. Se você se deixar ou se permitir sentir, vai longe, muito longe. Eu vejo muita gente tratando isso como aquela curiosidade que surge meio assim, simpática.


Venhamos e convenhamos: um peixinho nadando e seguindo o personagem da história no fundo do mar soa quase como um detalhe fofo e meigo. Mas eu leio diferente. Aquilo não é inspiração. É invasão. Algo pequeno demais para assustar, insistente demais para ignorar. A música nasce daí. Do incômodo que não vai embora.


E isso é importante dizer: Where Is My Mind? não é uma canção sobre confusão mental naquele sentido clínico, e muito menos sobre crises existenciais com C maiúsculo. Ela é mais mesquinha, sabe? Mais cotidiana. É sobre aquilo que eu disse no começo desse texto. Sobe aquele segundo em que você percebe que perdeu o eixo, mas não sabe quando aconteceu e como aconteceu. Já foi.



O corpo ainda está ali. Sua cabeça já não mais.


Mas isso é fácil de entender. A contextualização e a estrutura da faixa ajudam a enganar. Aquele famoso jogo de alto e baixo, versos que chegam contidos e, de repente, explodem sem aviso prévio, tudo isso virou parte de uma fórmula depois. Mas aqui parece que ainda soa como um acidente, um acaso; nada parece totalmente sob controle. Nem a melodia. Nem o humor. Nem a emoção que ela causa. Essa última entra torta e sai maior do que devia.


Aí tem os vocais de Kim Deal, eles não estão ali para embelezar. Eles surgem, surpreendem e funcionam como aquele instante no qual você está submerso, sem entender se o que sente é as ondas da tranquilidade ou se está mesmo sem ar. Soa bonito, mas é aquela beleza instável, que pode afundar a qualquer momento. O curioso é que a música ficou gigante justamente depois, quando o cinema resolveu usá-la como carimbo de colapso emocional. Funcionou. Claro que funcionou. Mas ali já havia uma leitura pronta, uma legenda emocional. O risco original se perde um pouco quando todo mundo sabe o que deve sentir.


Ainda assim, algo resiste. Porque a pergunta do título nunca se fecha. Não busca resposta. Não promete redenção. Não organiza o caos. Ela só fica rodando e ponto. E talvez essa seja a parte mais honesta. Nem toda desorientação vira aprendizado. Algumas só ficam.



“Where Is My Mind?” não quer ser compreendida. Quer ser sentida no momento errado. Quando você achava que estava bem. Quando não precisava de uma música dessas. É aí que ela entra. Não como trilha. Mas como falha. E não resolve. Ainda bem.



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