O disco do Rush que fez Geddy Lee se perguntar “o que diabos estávamos fazendo?”
- Marcello Almeida
- há 20 horas
- 3 min de leitura
Entre ambição progressiva, faixas gigantescas e virtuosismo extremo, Hemispheres marcou um limite criativo para a banda canadense

É difícil imaginar e até acreditar hoje em dia, mas teve um tempo em que o Rush parecia praticamente impossível de existir dentro do mainstream. Três músicos canadenses fazendo canções sobre mitologia, ficção científica, filosofia e federações galácticas não soavam exatamente como algo destinado às paradas de sucesso.
E, ainda assim, funcionou, e muito bem, sendo honesto. Enquanto boa parte do rock e das bandas dos anos 70 apostava em excessos mais diretos e refrões imediatos, o Rush seguia construindo canções que pareciam exigir quase tanto do ouvinte quanto dos próprios músicos. Não bastava apenas escutar. Era preciso mergulhar de verdade naquilo. Entender, sabe? Acompanhar cada mudança de andamento, camadas, letras densas e profundas, ao lado de estruturas que pareciam desafiar qualquer lógica radiofônica. Isso é o Rush.
Mas houve um momento em que até o próprio Geddy Lee começou a sentir que talvez a banda tivesse ido longe demais. E esse momento é conhecido pelo nome de Hemispheres.
Lançado em 78, o disco representa provavelmente o auge absoluto da fase mais cerebral e progressiva do grupo. Se 2112 já levava o ouvinte para jornadas cósmicas e narrativas distantes da realidade cotidiana, Hemispheres parecia interessado em ir ainda mais fundo nesse universo. E posso dizer que não é exagero algum nesse sentido, o disco literalmente é uma viagem para fora da realidade. Daqueles álbuns para te virar do avesso, sacudir a mente e viajar através do imaginário de cada faixa.
A faixa-título, continuação direta da história iniciada em “Cygnus X-1”, ocupa praticamente metade do álbum com seus mais de 20 minutos. E o restante do repertório não faz absolutamente nenhuma concessão.
Existe uma certa ironia no fato de “The Trees” ser considerada a faixa mais “acessível” do disco. Porque, ao redor dela, estão composições como “La Villa Strangiato”, um verdadeiro labirinto instrumental que até hoje deve assustar músicos experientes.
E talvez seja justamente aí que mora a grandeza, e também o peso, de Hemispheres. O Rush parecia determinado a provar até onde um trio podia chegar tecnicamente. Só que esse processo começou a cobrar um preço.
Lee admitiu anos depois que sua relação com o álbum sempre foi complicada justamente por causa da experiência desgastante das gravações:
“Não sei se algum dia conseguirei ter a objetividade necessária para ver e ouvir o que as pessoas veem e ouvem em Hemispheres. Mas gosto de pensar que é a ambição e o esforço que dedicamos a ele. Há algo verdadeiramente progressivo nesse disco, e acho que os fãs desse gênero realmente apreciam isso.”
A fala de Lee carrega um peso, vulnerabilidade, tem camadas profundamente humanas, porque o disco que muitos fãs enxergam como obra-prima também representa um momento em que a própria banda começou a perceber os limites daquela escalada técnica e conceitual.
Até mesmo o saudoso Neil Peart parecia consciente disso ao batizar “La Villa Strangiato” com o subtítulo “An Exercise in Self-Indulgence”. Era quase uma piada interna, mas também uma bela de uma confissão.
E talvez o mais interessante seja perceber que, mesmo no meio de toda aquela complexidade, o Rush já começava a procurar novas saídas. As sementes do que viria depois aparecem justamente ali. Porque quando Permanent Waves chegou em 1980, músicas como “The Spirit of Radio” mostraram uma banda ainda sofisticada, mas muito mais consciente de espaço, dinâmica e comunicação direta.
Não vejo isso como eles abandonando a ambição. Essa parte do Rush, essa parte da história, é mais sobre transformação. Porque Hemispheres talvez tenha sido o momento em que eles alcançaram o topo da montanha progressiva e perceberam que continuar subindo poderia fazê-los desaparecer dentro dela.
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