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O Último Vagão e a arte de ensinar e aprender com dedicação, amor e aceitando as condições alheias

O diretor consegue misturar Comédia e Drama de forma equilibrada onde outros assuntos como amizade, despertar da sexualidade, exploração do trabalhador...

Foto: Netflix


O Cinema sempre se aproveitou de temas ligados ao sistema educacional para criar memoráveis clássicos. Basta pegar como exemplo agora alguns filmes antológicos como Ao Mestre Com Carinho (1966) e Sociedade dos Poetas Mortos (1989). Frequentemente, os filmes ligados a essa temática pretendem abordar as relações entre educadores e educandos de uma forma bem tensa, onde muitas vezes o professor age contra as regras impostas pelas escolas, sobretudo quando não é compreendido por seus alunos ou pelos próprios companheiros de profissão.


O professor precisa ficar erguido e se reinventar em meio a um conservadorismo escolar e muitas vezes dentro de um território hostil (que não deveria ser, de forma alguma). Pode, inclusive, pagar um preço por isso, onde até sua vida costuma estar em jogo. Em muitas películas, o educador levou seu afinco de ensinar até pra fora da escola, compactuando da vida e dos problemas do aluno mais rebelde.




O Último Vagão (2023), incluído no catálogo da Netflix, traz em parte esse universo. Dessa vez, temos como cenário um vilarejo rural mexicano. Na trama, a professora Georgina (Adriana Barraza) dá aulas para crianças e jovens num vagão de trem abandonado. Repleta de humanidade, dedicação e compaixão, a mestra tenta dar esperança aos seus alunos (e alguns deles acreditam que a única vocação é a derrota).


O diretor Ernesto Contreras opta por um cenário rural mexicano simples, expondo mazelas e pobrezas de moradores que praticamente não tiveram a oportunidade de estudar. Um ambiente onde os empregos são temporários e insalubres. Por conta disso, muitos habitantes precisam levar uma vida nômade. Mudam constantemente de suas casas atrás de condições melhores. É o que acontece com os pais do cativante menino Ikal (Kaarlo Isaac).


Para se ter uma ideia, até para conseguir comprar ingressos para um circo que está instalado na vila, as crianças precisam arrumar um 'jeitinho'. É um instante de felicidade que a trama captura muito bem, embora as consequências não sejam tão boas para certos personagens.


Entretanto, de longe Contreras entrega um filme amargo e doloroso ao extremo. Consegue misturar Comédia e Drama de forma equilibrada onde outros assuntos como amizade, despertar da sexualidade, exploração do trabalhador e as formas de educar entram em pauta. Tudo em conjunto e nenhuma dessas temáticas pesa mais que as outra, como também não estão ali servindo de meras alavancas da narrativa.


Além disso, no mesmo cenário, somos apresentados a um fiscal da Secretaria de Educação que, mesmo contra a ordem que precisa executar, é o responsável de fazer a divulgação do fechamento de algumas escolas pelas regiões.



Georgina e seu jeito todo especial de ensinar garantem cenas marcantes na película. Exemplo é a cena onde ela apresenta uma revista de um super-herói para Ikal, mas diz que ele só terá direito a outros exemplares, caso se empenhe em seu aprendizado de leitura. E é muito bonito ver o garoto descobrindo depois a leitura das páginas da revista, revelando seu prazer pelo hábito de ler.


Em outro momento, a professora pede como tarefa de casa para que cada alunos leve um animal para a sala. A cada apresentação, Georgina traça comparativos entre os animais e seus alunos. Com certeza, uma das cenas mais memoráveis do filme, sobretudo desde a concepção divertida da passagem onde Ikal demora em pegar um animal para determinada tarefa (e a sua escolha acaba sendo uma surpresa para o espectador).

Georgina também é desenvolvida gradualmente. Ganhando mais espaço e confiança entre os alunos, sua história de vida passa a ser mais explorada na trama. Numa espécie de confidente, sobretudo de Ikal, vai contando seu passado e sobre a doença que pode comprometer sua determinação de ensinar.



O final contundente faz o espectador ligar a trama entre passado e presente. Apesar de que é quase certo adivinhar o fechamento que nos reserva por conta de um objeto que um dos personagens carrega consigo. Mas o que importa é o filme de Contreras passar seu recado em torno de uma filmagem sem orçamento caro, que ainda exalta o Cinema que não depende de efeitos e que, na soma final, faz todo mundo se interligar com os personagens e com o que é vivido ali.

 

O Último Vagão


Ano: 2023

Gênero: Drama

Direção: Ernesto Contreras

Roteiro: Ángeles Doñate, Javier Peñalosa

Elenco: Adriana Barraza, Kaarlo Issacs, Memo Villegas e outros

Classificação: 12 anos

Onde ver: Netflix


 

NOTA DO CRÍTICO: 7,0

 

Trailer do filme:








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