Morre Benito Di Paula, aos 84 anos, cantor de “Retalhos de Cetim” e “Charlie Brown”
Cantor, compositor e pianista morreu neste domingo (18), em São Paulo, após complicações de um câncer. Artista marcou gerações com sua maneira particular de interpretar o samba

O cantor, compositor e pianista Benito Di Paula morreu neste domingo, 18 de outubro, aos 84 anos, no Hospital 9 de Julho, em São Paulo. O músico enfrentava um câncer havia aproximadamente um ano e faleceu em decorrência de complicações da doença. A informação foi confirmada pela equipe do artista. Até o momento, não foram divulgados detalhes sobre o velório e o sepultamento.
Dono de uma trajetória que atravessou mais de cinco décadas, Benito construiu uma identidade musical que aproximou o samba do piano, incorporando elementos românticos e uma maneira particular de conduzir o ritmo.
Entre suas composições mais conhecidas estão “Retalhos de Cetim”, “Charlie Brown”, “Mulher Brasileira”, “Do Jeito Que a Vida Quer” e “Tudo Está no Seu Lugar”.
O pianista que encontrou outra maneira de fazer samba
Nascido Uday Velloso, em 28 de novembro de 1941, na cidade de Nova Friburgo, no Rio de Janeiro, Benito cresceu na capital fluminense e começou sua trajetória musical tocando em boates.
Foi nesses ambientes que desenvolveu uma das características fundamentais de sua obra: o piano utilizado não apenas como instrumento harmônico, mas também como elemento rítmico.
Diferentemente de outros nomes do samba que alcançaram reconhecimento na década de 1970, Benito não costumava se apresentar como um sambista tradicional. Preferia as definições de “sambeiro” e “pianeiro”, expressões que traduziam sua relação particular com a música.
Sua sonoridade combinava a cadência do samba com a força percussiva das teclas e arranjos que dialogavam com diferentes vertentes da música popular brasileira. A identidade artística também aparecia em sua presença de palco. Cabelos longos, roupas de gala, anéis, colares e gravatas-borboleta compunham um visual imediatamente reconhecível pelo público dos programas de auditório.
“Retalhos de Cetim” mudou sua trajetória
Benito Di Paula estreou no mercado fonográfico em 1967 e lançou seu primeiro álbum, autointitulado, em 1971. No ano seguinte, apresentou Ela, trabalho que trouxe “Violão Não Se Empresta a Ninguém”, um de seus primeiros sucessos. Mas foi em 1973, com “Retalhos de Cetim”, que o cantor alcançou uma nova dimensão de popularidade.
A composição abriu caminho para uma sequência de músicas que marcaram a década.
Vieram “Charlie Brown” e “Beleza Que É Você Mulher”, em 1974; “Bandeira do Samba”, “Como Dizia o Mestre” e “Vai Ficar na Saudade”, em 1975; e “Tudo Está no Seu Lugar” e “Do Jeito Que a Vida Quer”, em 1976.
Em 1977, Benito apresentou outras duas composições conhecidas de seu repertório: “Assobiar e Chupar Cana” e “Proteção às Borboletas”. Durante aquele período, suas gravações alcançaram grande circulação nas rádios e na televisão brasileira. Embora tenha desenvolvido uma linguagem diferente daquela associada aos nomes mais tradicionais do samba, Benito reconhecia em Ataulfo Alves uma de suas principais influências musicais.
Uma carreira que continuou além dos anos 1970
O sucesso comercial de Benito Di Paula se estendeu pela década seguinte. Em 1981, o cantor ganhou espaço nas rádios com “Ah! Como Eu Amei”, composição dos irmãos Jota Vellozo e Nei Vellozo. Três anos depois, lançou “Amigo do Sol, Amigo da Lua”, parceria com Márcio Brandão Carneiro. A música também integrou a trilha sonora da novela A Gata Comeu, exibida pela TV Globo em 1985.
Mesmo depois de perder espaço no mercado fonográfico, Benito continuou gravando e apresentando novos trabalhos. Em 1996, lançou Baileiro. Posteriormente, retornou aos discos de inéditas com A Felicidade É Nossa, em 2017, e O Infalível Zen, em 2021, trabalho associado às comemorações de seus 80 anos. Ao longo dos últimos anos, suas composições também passaram por novas interpretações e homenagens, recuperando a importância de sua contribuição para a música brasileira.
O legado de Benito Di Paula
A obra de Benito Di Paula ocupa um espaço particular na história do samba. O artista não abandonou as referências do gênero, mas encontrou uma maneira própria de trabalhá-las, fazendo do piano um instrumento capaz de assumir a força rítmica da percussão.
Sua música alcançou um público amplo, transitando entre as apresentações populares na televisão, os discos de grande circulação e o repertório afetivo de diferentes gerações.
Ao longo da carreira, Benito também demonstrou que o samba poderia incorporar outras estruturas musicais sem perder sua identidade brasileira.
Benito Di Paula morreu pouco mais de um mês antes de completar 85 anos. Deixa uma discografia marcada por sucessos que continuam presentes na música popular e por uma assinatura artística que fez do piano uma extensão da batucada.
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