Lou Reed e o dia em que o algoritmo entendeu o incômodo
- Marcello Almeida
- há 15 horas
- 3 min de leitura
Entre redes sociais e redescobertas tardias, a música do Velvet Underground prova que nunca foi sobre moda, mas sobre sobreviver ao desconforto

Enquanto estava eu aqui navegando por paisagens oníricas e viajando nos instantes iniciais de Sunday Morning, canção que abre o maravilhoso álbum de estreia do Velvet Underground, fiquei pensando nessa ideia confortável, e errada ao mesmo tempo, de que Lou Reed voltou a ser moda porque o algoritmo das redes decidiu isso. Não. Lou nunca saiu de circulação. Prefiro pensar que o que acontece agora é algo totalmente diferente; é outra coisa, muito longe de ser algoritmo.
O mundo finalmente voltou a soar e a se parecer cada vez mais com as nuances de Lou Reed. E, sendo sincero, meus amigos, afirmar que Lou Reed “ressurgiu” nas plataformas digitais é uma daquelas expressões que soam ofensivas e um tanto perigosas, se tratando de contexto histórico e de escuta atenta do legado e da música.
Vivemos em tempos de consumo rápido e sem muito embasamento. Voltando ao “ressurgiu”, isso coloca a música de Lou e do Velvet como se elas tivessem passado décadas apagadas ou dormindo, esperando um “milagroso” empurrão do TikTok para acordar.
Engano de quem define assim. A verdade é menos simpática: o desconforto deixou de ser uma mera exceção.
Eu leio esse retorno não como nostalgia, mas como sintoma.
Lou Reed pisou nesse mundo muito antes das redes e algoritmos existirem. Muito antes de suas canções virarem trilha melancólica de reels e montagens estéticas, Lou Reed escreveu sobre o que ninguém queria transformar em refrão. Heroína, desejo, solidão, sexo sem glamour, amor sem promessa.
Quando surgiram os discos do The Velvet Underground, aquilo não era vanguarda no sentido cool da palavra. Era quase um erro de sistema. Um som que parecia desafinar o próprio conceito de rock, ainda intoxicado de virtuosismo e catarse hippie.
E isso não envelhece. Isso por si só acaba incomodando para sempre.
Há quem prefira lembrar de “Perfect Day” como uma canção delicada, quase romântica. Eu nunca consegui ouvir assim. Sempre me soou como uma música com algo errado por baixo da superfície, como um sorriso sustentado por esforço. Lou Reed tinha essa habilidade rara de escrever beleza sem oferecer conforto. E talvez seja por isso que tanta gente jovem se reconheça ali agora, mesmo sem saber exatamente por quê.
Pausa.
Nada no Velvet Underground foi feito para agradar. Nem mesmo para durar. Sob a sombra criativa de Andy Warhol, a banda criou um repertório que parecia mais interessado em registrar estados mentais do que em construir hits. A bateria seca de Maureen Tucker, o violino agressivo de John Cale, a guitarra que mais sugere do que resolve. Tudo ali soa como uma cidade às três da manhã: vazia, suja, honesta.
Reed escrevia como quem observa sem pedir desculpa. Ele não explicava seus personagens, não julgava suas trajetórias. Apenas deixava que existissem. Isso, hoje, é quase um gesto político. Num tempo obcecado por opinião, Reed oferecia descrição. Num mundo que exige posicionamento imediato, ele preferia ambiguidade.
Talvez por isso sua música circule tão bem agora entre vídeos, cenas recortadas, fragmentos. Ela sempre foi fragmentária. Nunca pediu atenção total. Pedia convivência. E sim, há algo irônico em ver canções tão ásperas embalando conteúdos suaves, esteticamente filtrados. Mas não acho isso um problema. Pelo contrário. Lou Reed sempre soube que suas músicas escapariam do controle. Ele jamais tentou protegê-las de leituras erradas. Quem tenta controlar interpretação não escreve clássico. Escreve manual.
No fundo, o que volta à tona não é Lou Reed. É a nossa capacidade de tolerar o incômodo que ele propõe. E isso diz menos sobre passado e mais sobre o tipo de presente que estamos vivendo.
Nem todo mundo vai gostar. Nunca foi para gostar mesmo.











