Leonard Cohen encontrou na espiritualidade a chave para transformar tristeza em eternidade
- Marcello Almeida
- há 23 horas
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Conselho de mestre zen ajudou o cantor a aceitar sua melancolia e redefiniu completamente sua voz e sua arte

Poucos artistas passaram a vida inteira buscando respostas como o saudoso Leonard Cohen. Mais do que um compositor, poeta ou cantor, Cohen parecia alguém permanentemente inquieto e atravessado por perguntas espirituais. Sua trajetória nunca foi apenas sobre música. Era uma busca constante por sentido, silêncio, transcendência e alguma necessidade de descobrir o seu eu interior.
E isso aparecia em tudo. Nas letras, na voz, nos longos períodos de isolamento e até na maneira errante como conduziu a própria vida. Cohen se movia pelo mundo como alguém tentando decifrar algo invisível. Às vezes, impossível mesmo. Em diferentes momentos, mergulhou no judaísmo herdado da família, no budismo zen, em experiências espirituais radicais e até em fases curiosas envolvendo a Church of Scientology.
Para ele nada parecia superficial. O artista desaparecia durante anos em retiros espirituais, se isolava em montanhas na Califórnia e passava períodos inteiros afastado da indústria musical. Havia nele uma inquietação permanente, como se a arte fosse apenas uma extensão dessa busca interior.
E talvez por isso suas músicas soem tão humanas até hoje. As canções de Cohen nunca pareciam interessadas em buscar por respostas. Elas simplesmente dançavam entre amor, desejo, fracasso, espiritualidade, culpa, envelhecimento e solidão com uma honestidade bastante desconfortável. Ele escrevia como alguém tentando sobreviver enquanto observava o próprio mundo desmoronar em câmera lenta.
Mas foi nos anos 80 que algo mudou profundamente em sua arte. Na época de Various Positions, Cohen atravessava um período difícil da carreira. Sua relação com a indústria musical estava um tanto desgastada, os discos vendiam pouco e sua gravadora parecia cada vez menos interessada em seu trabalho.

O caso mais simbólico disso foi Hallelujah. Hoje considerada uma das canções mais importantes da história da música popular, a faixa foi praticamente ignorada pela Columbia Records no momento do lançamento. O disco sequer saiu oficialmente nos Estados Unidos inicialmente.
“Minha carreira estava praticamente desaparecendo naquela época”, contou Cohen anos depois à Rolling Stone. “A Columbia nem lançou o disco nos EUA. E esqueceram até de me avisar.”
Aquele realmente era um período de desencanto absoluto. E foi justamente nesse momento que uma figura importante atravessou seu caminho criativo: seu mestre zen, conhecido como Roshi.
Durante as gravações de Various Positions, Cohen convidou o guru para acompanhar uma das sessões em estúdio. Os dois estavam cada vez mais próximos naquele período, pouco antes de o músico mergulhar profundamente na prática do budismo zen e passar anos vivendo em um retiro espiritual.
Depois de ouvir as músicas, Roshi deu um conselho simples. Mas devastador.
“Leonard, você deveria cantar músicas mais tristes.”
A frase ficou marcada para sempre na memória do cantor. Porque, no fundo, Roshi não estava falando apenas sobre composição. Ele estava falando sobre aceitação. Sobre parar de lutar contra aquilo que ele realmente era artisticamente.
“Ele queria que eu me entregasse às emoções”, lembrou Cohen. “Que eu aceitasse aquilo.”
E algo mudou ali.
A partir daquele momento, Cohen abandonou qualquer tentativa de soar como antes. Sua voz passou a mergulhar em registros mais graves, lentos e sombrios, quase como um sussurro cansado vindo do fundo da existência. Em vez de esconder o peso do tempo, ele passou a incorporá-lo completamente à própria arte.
Foi como se finalmente tivesse entendido que envelhecer, sofrer e carregar cicatrizes não diminuíam sua música. Na verdade, eram justamente aquilo que a tornavam única. E talvez seja por isso que Leonard continue soando tão poderoso décadas depois.
Porque suas canções nunca tentaram parecer jovens, perfeitas ou otimistas. Elas apenas aceitavam a condição humana como ela é: frágil, contraditória, espiritual e inevitavelmente melancólica.
No fim, Cohen não encontrou respostas definitivas para os mistérios que passou a vida perseguindo. Mas transformou essa busca em algumas das músicas mais profundas já escritas.
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