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Leffs transforma desejo, memória e identidade em matéria-prima de seu disco de estreia

Em "Atravessada", a cantora, compositora e produtora paranaense constrói um álbum que faz da vulnerabilidade um gesto político, sem abrir mão da delicadeza da canção

Leffs
Imagem: Isa Angioletto e Augusto Perego



Há discos que procuram responder perguntas. Outros preferem permanecer nelas. Atravessada, estreia da cantora, compositora e produtora travesti Leffs, pertence ao segundo grupo. Em vez de oferecer certezas, o álbum encontra força justamente naquilo que permanece em movimento: o desejo, a identidade, os afetos e as transformações que acompanham a experiência de existir.





Natural de Maringá, no Paraná, Leffs chega ao primeiro álbum depois de construir seu caminho na cena independente investigando as tensões entre gênero, poder e intimidade. Em Atravessada, essa pesquisa ganha uma dimensão ainda mais ampla. O disco deixa de olhar apenas para a experiência individual e passa a enxergá-la como parte de uma conversa maior sobre corpos, pertencimento e liberdade.


Ao longo de dez faixas, a artista percorre diferentes paisagens sonoras sem perder a unidade de sua assinatura. A canção brasileira contemporânea serve como ponto de partida, enquanto elementos do pop, da eletrônica e de uma atmosfera cinematográfica aparecem como extensões naturais da narrativa. Os arranjos orgânicos convivem com texturas eletrônicas discretas, preservando espaço para aquilo que parece mover o álbum desde o início: a voz e a escrita de Leffs.


Mas talvez o aspecto mais interessante de Atravessada seja sua recusa em separar o íntimo do político. Existe uma tradição na música brasileira em transformar vivências pessoais em manifestações coletivas. Leffs se insere nessa linhagem sem recorrer ao discurso panfletário. O gesto político nasce da sinceridade com que canta suas experiências e da naturalidade com que ocupa esse espaço.





Essa pluralidade aparece nas diferentes atmosferas do disco. "Bom Demais" e "Me Queimo" exploram o desejo com leveza e balanço. "Dias de Mar", que já integra duas playlists editoriais do Spotify Brasil, aposta em uma luminosidade quase contemplativa, enquanto "Sagitário" incorpora referências ao bolero, à salsa e à lambada para ampliar ainda mais o universo sonoro do álbum.


Quando a intensidade pede outro tipo de linguagem, Leffs muda de direção sem romper o fio narrativo. "Peligrosa", parceria com Trava da Fronteira, assume uma postura afirmativa e energética. Já "Pé de Guerra", com participação de Rúbia Divino, aproxima ecos da Tropicália de uma composição delicada, mostrando como tradição e identidade contemporânea podem dialogar sem parecer exercício de nostalgia.


Há também espaço para o recolhimento. "Pequena", embalada por guitarras e sintetizadores que remetem ao indie rock brasileiro, revela uma faceta contemplativa da compositora. Em "Antúrio", dedicada à avó da artista, a memória deixa de ser apenas lembrança para se transformar em linguagem afetiva, reafirmando uma característica presente durante todo o disco: transformar experiências profundamente pessoais em emoções compartilháveis.


Produzido por Chá di Lirian, Nicholas Emmanuel Machado de Oliveira, Samuel Amaro e Mateus Rossato, Atravessada não tenta ocupar espaço pelo volume, mas pela permanência. É um álbum que entende que delicadeza também pode ser contundente e que, muitas vezes, as mudanças mais profundas começam em narrativas aparentemente pequenas.





Ao estrear em formato de álbum, Leffs não apenas consolida uma trajetória construída na cena independente. Ela apresenta uma obra que compreende a canção como território de encontro, onde identidade, desejo e memória deixam de disputar espaço para coexistirem na mesma paisagem sonora.


Atravessada é um projeto aprovado pela Secretaria de Estado da Cultura do Governo do Paraná, contemplado pelo edital de fomento Multiartes 2024.




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