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Korn transforma o Allianz Parque em uma catarse coletiva e prova a força eterna do nu metal

A apresentação histórica da banda em São Paulo teve peso, emoção, nostalgia e reafirmou a potência do metal em grandes estádios brasileiros

Jonathan Davis, vocalista do Korn, em 2025
Jonathan Davis, vocalista do Korn, em 2025 (Foto: Didier Messens / Getty Images)


O último sábado, 16 de maio, não foi apenas mais um show do Korn no Brasil. Foi uma espécie de reencontro emocional entre banda e público. Depois de praticamente nove anos longe da América Latina, o grupo retornou a São Paulo para um Allianz Parque completamente lotado, tomado por mais de 50 mil pessoas que pareciam esperar aquela noite há muito mais tempo do que o próprio calendário indicava.


E talvez fosse exatamente isso.





Por muito tempo, anos melhor dizendo, o nu metal foi tratado como uma febre passageira dos anos 2000. Um gênero frequentemente associado ao exagero, à estética da MTV e ao caos e rebeldia de adolescentes. Mas o tempo costuma separar o que é artificial daquilo que realmente deixa marcas, não é mesmo?


O Korn permaneceu talvez porque suas músicas nunca falaram apenas sobre peso. Falavam sobre trauma, isolamento, inadequação, dor e confusão de uma forma brutalmente humana.


No Allianz, isso ficou evidente do começo ao fim. Antes mesmo da banda subir ao palco, a noite já carregava um senso de importância raro. A abertura ficou por conta de Black Pantera, Seven Hours After Violet e Spiritbox, numa escalação que parecia conectar diferentes gerações do metal pesado.


Mas é preciso elencar e deixar registrado o fator especialmente simbólico e de suma importância que foi a presença do Black Pantera ali. Que coisa absurda e linda. A banda brasileira não entrou no palco como mera coadjuvante. Entrou como urgência. Como explosão. Como representação de um metal contemporâneo que entende o peso não apenas como estética, mas também como identidade, discurso e resistência.


Black Pantera
Black Pantera. Foto: Thiago Henrique

A energia do grupo incendiou o estádio logo cedo, e "mosh das minas" ou "roda das mulheres" na pista ajudaram a transformar aquele início em algo ainda mais significativo. Existe renovação nisso. Existe transformação nisso. O crescimento do Black Pantera já não parece promessa. Parece inevitável.


Quando as luzes finalmente caíram para o Korn, o Allianz já parecia outro lugar. As tonalidades vermelhas e amareladas que dominavam o palco criavam uma atmosfera sufocante, quase hipnótica. Tudo parecia pesado. Denso. Vivo. Como se o estádio inteiro respirasse no mesmo ritmo das frequências graves que tomavam conta do ambiente.

Então veio “Blind”. Loucura total.





E naquele instante, o Allianz Parque deixou de ser apenas um estádio. A abertura climática da música, seguida pela explosão coletiva do público, criou uma cena difícil de traduzir racionalmente. Havia gente gritando, se abraçando, abrindo rodas e cantando cada verso como se aquelas músicas fossem parte da sua própria biografia. E talvez fossem. Porque nunca é apenas um show de rock.


Korn toca Here to Stay em São Paulo.
Korn toca Here to Stay em São Paulo. Imagem: Reprodução/YouTube

O mais interessante nisso tudo é que o Korn não construiu um show baseado apenas em nostalgia. O grupo montou um repertório equilibrado, pesado e até desconfortável em alguns momentos, respeitando justamente aquilo que transformou a banda numa referência tão importante para o gênero. “Twist”, com suas vocalizações caóticas, foi cantada em coro. “Here to Stay” trouxe os primeiros grandes estouros da pista. “Got the Life” incendiou o estádio. “Shoots and Ladders”, acompanhada pela clássica gaita de foles de Jonathan Davis, ajudou a criar uma das imagens mais marcantes da noite.


“Falling Away From Me” parecia atravessar o Allianz como um trauma coletivo transformado em música. E quando “Freak on a Leash” encerrou o show, o estádio inteiro parecia emocionalmente exausto. Talvez porque fosse impossível sair ileso daquela apresentação.


Jonathan Davis, do Korn.
Jonathan Davis, do Korn. Imagem: Getty Images.

E é preciso dizer como o Korn segue absurdo ao vivo. O peso das guitarras continua monstruoso. O grave soa físico. As músicas parecem ainda maiores dentro de um estádio. Jonathan Davis já não possui o mesmo fôlego de décadas atrás, algo completamente natural aos 55 anos, mas isso pouco importa quando existe tanta verdade no palco. Seus olhares para a multidão durante os raros silêncios da apresentação diziam mais do que qualquer discurso.


E talvez o mais bonito tenha sido justamente isso: perceber o espanto da própria banda diante da dimensão daquela recepção.



Porque o que aconteceu no Allianz Parque vai além de um show bem-sucedido. Existe algo simbólico e bonito em ver o Korn alcançar hoje o status de atração de estádio no Brasil. Da mesma forma que aconteceu recentemente com o Oasis em outro contexto sonoro e geracional, o que se viu ali foi uma multidão reafirmando a importância emocional de uma banda que atravessou décadas sem perder relevância afetiva.





O metal continua vivo. Continua mobilizando multidões. Continua criando comunidade. E na noi te de sábado, em São Paulo, o Korn lembrou ao Brasil inteiro que algumas cicatrizes nunca desaparecem. Elas apenas aprendem a cantar juntas.



Setlist do show do Korn no Brasil


1. Blind

2. Twist

3. Here to Stay

4. Got the Life

5. Clown

6. Did My Time

7. Shoots and Ladders

8. Coming Undone

9. Reward the Scars

10. Cold

11. Twisted Transistor

12. Dirty

13. Somebody Someone

14. Ball Tongue

15. Y’All Want a Single


Bis:

16. 4 U

17. Falling Away From Me

18. A.D.I.D.A.S.

19. Freak on a Leash

O Teoria Cultural nasceu da paixão pela cultura pop, pela música, pelo cinema e pela arte como forma de expressão e entendimento do mundo. O projeto começou como uma página no Instagram, inicialmente chamada Caro Vinil, voltada à celebração dos discos, do rock e das narrativas culturais que atravessam gerações. Saiba mais

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