Kanye West publica carta aberta pedindo desculpas por declarações pró-nazismo
- Marcello Almeida
- há 21 horas
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Atualizado: há 19 minutos
Quando o silêncio vira texto e o passado cobra resposta

Kanye West decidiu encarar publicamente parte do rastro mais controverso de sua trajetória. Nesta segunda-feira (26), o artista, que hoje atende pelo nome Ye, publicou uma carta aberta no The Wall Street Journal pedindo desculpas pelas falas e atitudes dos últimos anos, incluindo declarações e ações associadas à apologia ao nazismo. Segundo a Vanity Fair, o espaço foi pago pela própria marca do músico, a Yeezy.
No texto, Kanye volta no tempo e relembra um acidente de carro sofrido em 2002, episódio que, segundo ele, teve consequências muito mais profundas do que se imaginava à época:
“Há 25 anos, sofri um acidente de carro que quebrou minha mandíbula e causou lesão no lobo frontal direito do meu cérebro. Na época, o foco estava no dano visível — a fratura, o inchaço e o trauma físico imediato. A lesão mais profunda, aquela dentro do meu crânio, passou despercebida.”
West afirma que apenas em 2023 recebeu o diagnóstico de que o acidente teria afetado diretamente seu lobo frontal direito, o que, de acordo com ele, agravou sua saúde mental e contribuiu para o diagnóstico de transtorno bipolar tipo 1. Diagnosticado oficialmente com bipolaridade em 2016, Ye descreve como percebe esse estado:
“O transtorno bipolar vem com seu próprio sistema de defesa. A negação. Quando você está em mania, não acha que está doente. Acha que todo mundo está exagerando. Você sente que está vendo o mundo com mais clareza do que nunca, quando, na realidade, está perdendo completamente o controle.”
Na parte mais direta da carta, o rapper aborda sem rodeios os episódios que mais chocaram o público. Ele reconhece o peso simbólico de suas ações e diz carregar vergonha pelo que fez:
“Nesse estado fragmentado, me aproximei do símbolo mais destrutivo que consegui encontrar, a suástica, e cheguei até a vender camisetas com ela. Um dos aspectos difíceis de ter transtorno bipolar tipo 1 são os momentos desconectados — muitos dos quais ainda não consigo recordar — que levaram a julgamentos ruins e comportamentos imprudentes, que muitas vezes parecem uma experiência fora do corpo.
Lamento e estou profundamente envergonhado pelas minhas ações nesse estado, e estou comprometido com a responsabilização, o tratamento e mudanças significativas. Isso, porém, não justifica o que fiz. Eu não sou nazista nem antissemita. Eu amo o povo judeu.
À comunidade negra — que me sustentou em todos os altos e baixos e nos momentos mais sombrios. A comunidade negra é, sem dúvida, a base de quem eu sou. Sinto muito por ter decepcionado vocês. Eu amo nós.”
“Episódio maníaco de quatro meses” em 2025
Ye também revelou que, no início de 2025, enfrentou um episódio maníaco prolongado, descrito por ele como um período marcado por comportamentos psicóticos, paranoicos e impulsivos, que teria abalado profundamente sua vida. Segundo o músico, houve momentos em que a situação se tornou insustentável.
No encerramento da carta, Kanye afirma estar em um processo de reorganização pessoal, detalhando os passos que vem tomando para retomar algum equilíbrio:
“À medida que encontro minha nova base e meu novo centro por meio de um regime eficaz de medicação, terapia, exercícios e vida saudável, ganhei uma clareza nova e muito necessária. Estou canalizando minha energia para uma arte positiva e significativa: música, roupas, design e outras ideias novas para ajudar o mundo.
Não estou pedindo simpatia nem um passe livre, embora aspire conquistar o perdão de vocês. Escrevo hoje simplesmente para pedir paciência e compreensão enquanto encontro o caminho de volta para casa.”
A carta chega justamente na semana em que Ye se prepara para lançar Bully, seu novo álbum, previsto para esta sexta-feira (30). Resta saber como o público vai receber esse gesto — e se ele marca, de fato, um ponto de virada ou apenas mais um capítulo turbulento de uma carreira que nunca soube andar em linha reta.











