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O segredo do Led Zeppelin não estava nos holofotes, estava entre John Paul Jones e Bonham

Nem tudo que define uma banda está na frente. Às vezes, está no que segura tudo em silêncio

John Paul Jones
Foto: Ben Houdijk / Depositphotos

Existe algo curioso quando se fala do Led Zeppelin. Quase sempre a conversa escapa para o magnetismo de Jimmy Page, para o peso quase mítico de John Bonham ou para a presença de Robert Plant. No meio disso tudo, John Paul Jones parecia existir em outro plano, como se não estivesse interessado em disputar esse espaço.


E não era desinteresse pelo que a banda se tornava. Era outra coisa. Uma espécie de consciência de que o essencial nem sempre precisa aparecer.


Jones sempre soou como alguém que estava mais preocupado com o funcionamento do todo do que com o impacto imediato. Enquanto o rock crescia em volume, excesso e espetáculo, ele permanecia ali, no centro, organizando o caos sem precisar chamar atenção para isso. Qualquer um no lugar dele teria transformado aquele palco em vitrine pessoal. Mas Jones parecia confortável em ser a engrenagem. E talvez por isso mesmo tenha se tornado insubstituível.


Definir a seção rítmica do Zeppelin nunca foi simples porque ela não se comportava como uma seção rítmica tradicional. Jones segurava a estrutura, mas ao redor dele tudo parecia levemente deslocado. Page frequentemente adiantava o tempo, Bonham puxava para trás. No papel, isso deveria soar errado.


Só que não soava. Pelo contrário. Criava uma sensação de movimento, de respiração, como se a música estivesse sempre prestes a escapar, mas nunca escapasse. Em Black Dog, isso fica evidente. A música parece se desmontar a cada entrada, mas em questão de segundos tudo se reencontra, como se existisse um entendimento invisível mantendo aquilo de pé.


E esse entendimento passava, inevitavelmente, por Bonham. Muito além da força, que era absurda, existia uma inteligência rítmica difícil de explicar. Cada batida carregava peso, mas também intenção. Não era só impacto, era construção. Jones percebeu isso na hora. Quando tocaram juntos pela primeira vez, não houve ajuste, nem tentativa. Houve reconhecimento.


Ele chegou a descrever esse momento como um tipo de conexão imediata, quase inevitável, como se os dois já soubessem exatamente o que estavam fazendo antes mesmo de começar. Esse tipo de sintonia não se ensaia.


O curioso é que, mesmo sendo esse pilar ao lado de Jones, Bonham também dialogava o tempo inteiro com Page. Em músicas como Good Times Bad Times ou Immigrant Song, o bumbo não está apenas marcando o ritmo. Ele está reagindo à guitarra, reforçando ataques, ampliando tensão. Existe quase uma perseguição ali, como se a bateria estivesse sempre um passo atrás, pronta para transformar qualquer nuance em impacto físico. É isso que faz essas músicas não apenas serem ouvidas, mas sentidas.



Mesmo com toda essa força, Bonham não era um baterista limitado ao instinto. Havia escuta, havia referência. Nomes como Bernard Purdie ajudaram a moldar essa forma de tocar mais solta, mais dinâmica, algo que fica ainda mais perceptível nos trabalhos posteriores da banda. Enquanto isso, Jones continuava fazendo o que sempre fez: sustentando tudo sem alarde, garantindo que aquela liberdade não virasse descontrole.


No fim, talvez o mais impressionante seja justamente isso. Jones nunca precisou parecer grandioso porque estava ao lado de alguém que tornava tudo sólido por natureza. E Bonham, por sua vez, nunca soava excessivo porque tinha alguém ali garantindo equilíbrio. Era uma relação rara, quase invisível para quem olha de fora, mas absolutamente essencial para tudo o que o Led Zeppelin construiu.


Porque algumas bandas são lembradas pelo que mostram. Outras, pelo que fazem soar.



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