David Gilmour precisava provar que o Pink Floyd ainda podia existir sem Roger Waters
- Marcello Almeida
- há 17 horas
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“Learning to Fly” marcou o início de uma nova era para o Pink Floyd e revelou a tentativa de David Gilmour de reconstruir a banda após o caos interno

Durante boa parte da história do Pink Floyd, parecia impossível imaginar a banda sobrevivendo sem Roger Waters. Mesmo dividindo espaço com músicos fundamentais como David Gilmour, Waters havia se tornado a principal força criativa do grupo nos anos finais da década de 70 e início dos anos 80, especialmente em discos como The Wall e The Final Cut.
Então, quando o baixista decidiu deixar a banda e praticamente decretar o fim do Pink Floyd em meados dos anos 80, a pergunta parecia inevitável: como diabos aquilo continuaria existindo?
Para Gilmour, abandonar a banda simplesmente não parecia uma opção. Ele havia dedicado grande parte da vida à construção daquele universo sonoro e, mesmo sem Waters, acreditava que ainda existia algo vivo ali. O problema era descobrir exatamente o que restava da identidade do Pink Floyd sem a figura que dominava criativamente o grupo havia tantos anos.
E isso ficou evidente em A Momentary Lapse of Reason. Lançado em 87, o disco acabou funcionando quase como um ponto de reconstrução. Em muitos momentos, ele soa mais como um álbum solo de Gilmour do que propriamente como um trabalho coletivo do Pink Floyd. Ainda assim, existe ali uma tentativa genuína de reencontrar algum tipo de direção após o colapso interno que marcou os últimos anos da formação clássica da banda.
O álbum talvez nunca tenha alcançado a profundidade dos grandes clássicos do Floyd, mas também está longe de ser um desastre completo. Há momentos em que Gilmour parece tentar recuperar a atmosfera expansiva e contemplativa dos primeiros anos da banda, enquanto em outros o disco mergulha de cabeça em uma estética extremamente ligada aos excessos da produção dos anos 80.
No meio disso tudo encontramos Learning to Fly. Mais do que um simples single, a música acabou se tornando uma espécie de declaração simbólica sobre aquele novo momento da banda. Era literalmente o Pink Floyd tentando voltar a voar depois da turbulência provocada pela saída de Waters.
“‘Learning to Fly’, espiritualmente, fala sobre o Pink Floyd levantando voo novamente, sobre eu também reaprendendo a voar e todo esse tipo de coisa”, explicou Gilmour anos depois. “Claro que também existe o sentido físico da coisa. Então a música funciona em vários níveis.”
E honestamente, isso transparece na faixa. Existe nela um senso de esperança que quase não aparecia em The Final Cut. Enquanto aquele disco parecia sufocado por ressentimento, tensão e desgaste evidente, “Learning to Fly” carregava uma energia mais leve, como se Gilmour estivesse tentando convencer a si mesmo, e ao público, de que ainda havia futuro para a banda.

O problema é que A Momentary Lapse of Reason também acabou preso em muitas escolhas de produção que envelheceram mal, pelo menos pra mim.
O produtor Bob Ezrin, que já havia trabalhado em The Wall, ajudou a construir um som extremamente polido e alinhado às tendências comerciais que dominavam o período. Em alguns momentos, parece quase que o Pink Floyd estava tentando se adaptar demais ao universo do rock de arena dos anos 80, perdendo parte da estranheza e da identidade atmosférica que sempre definiram a banda. Aquilo que sempre nos pega na banda.
Isso talvez explique por que muitas músicas desse período ganharam vida real apenas ao vivo.
No álbum ao vivo Delicate Sound of Thunder, por exemplo, faixas como “Learning to Fly” e On the Turning Away finalmente parecem respirar de verdade. Longe da produção excessivamente datada do estúdio, elas encontram espaço para soar maiores, mais humanas e mais conectadas ao público.
E talvez isso diga muito sobre o próprio momento que o Pink estava atravessando. A banda ainda estava tentando descobrir quem era sem Waters. Enquanto o mesmo criticava publicamente o disco e questionava a legitimidade daquela nova fase, Gilmour parecia decidido a seguir em frente sem olhar para trás. Não porque tudo estivesse resolvido, mas porque permanecer parado provavelmente significaria aceitar o fim definitivo do grupo.
A Momentary Lapse of Reason talvez nunca tenha sido perfeito. Mas existe algo honestamente fascinante nele: o som de uma banda tentando sobreviver ao próprio fantasma.
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