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Interpol no Lollapalooza 2026: o frio elegante que ainda pulsa vivo

A cidade respira antes do impacto. E quando o Interpol entra, não é só um show, é um estado de espírito

Interpol no Lollapalooza 2026
Foto por Ebru Yildiz

Tem algo curioso em ver o Interpol voltando ao circuito de festivais em 2026. Não é nostalgia. Não é revival. É permanência. Num line-up que gira rápido, que consome tendências como se fossem descartáveis, eles aparecem como um corpo estranho, sóbrios, econômicos, quase imóveis, e, ainda assim, absolutamente magnéticos.



O Lollapalooza começa hoje, sexta-feira (20), mas a sensação é de que, às 18h, quando eles sobem no palco, o tempo desacelera. O Interpol nunca foi sobre explosão. Sempre foi sobre tensão contida. Sobre aquilo que não se resolve. E talvez seja por isso que eles continuam funcionando. Claro que há os discos mais queridos da discografia e aqueles menos, mas a química da banda ao vivo é magnética.


A turnê atual passou por Chile, Argentina e Paraguai antes de desembarcar no Brasil. Não é só uma sequência de datas, é um percurso que reafirma o lugar da banda num continente que sempre entendeu essa melancolia urbana melhor do que muitos imaginam.


Mas há uma ausência que pesa. Sam Fogarino, peça fundamental na engrenagem rítmica do Interpol, está fora, se recuperando de uma cirurgia na coluna. No lugar dele, Urian Hackney assume as baquetas. E aqui tem um detalhe importante: o Interpol é uma banda onde cada silêncio importa. Cada pausa. Cada espaço.


Substituir o baterista não é só manter o tempo. É preservar a arquitetura da música. E, pelo que se viu nos primeiros shows, isso foi respeitado.



O provável setlist que circula não traz surpresas, e isso, curiosamente, é a melhor notícia possível.


Não é hora de reinvenção. É hora de reafirmação.

“All the Rage Back Home” abre como um chamado, quase como se dissesse: ainda estamos aqui.

“No I in Threesome” e “C’mere” mergulham naquele território emocional onde desejo e desconforto coexistem.

“Slow Hands” entra como pulso, direto, seco, impossível de ignorar.


E aí vêm os pilares.


“Obstacle 1”, “Evil”, “PDA”, “Roland”, “Not Even Jail”.



Não são só músicas. São fragmentos de uma estética que ajudou a redefinir o rock dos anos 2000. Quando Turn on the Bright Lights surgiu, não parecia uma estreia, parecia um documento. Um registro de algo que já existia, esperando ser capturado.


E, de certa forma, ainda estamos dentro dele.


O mais interessante é que o Interpol nunca precisou correr atrás do tempo. Eles deixaram o tempo correr ao redor deles. Enquanto outras bandas mudaram, se adaptaram, se perderam ou se diluíram, eles fizeram o oposto: refinaram. Cortaram excessos. Ficaram ainda mais frios, ainda mais precisos.


E isso cria uma experiência rara ao vivo.


Não é sobre interação. Não é sobre carisma expansivo. É sobre atmosfera. Sobre construir um ambiente onde cada nota parece ecoar mais do que deveria. Um show do Interpol não te abraça. Ele te envolve. No fim, esse possível setlist não é só uma previsão. É quase um roteiro emocional.


Começa com movimento, atravessa desejo, passa por tensão e termina em algo que nunca chega a ser resolução, porque o Interpol nunca ofereceu respostas fáceis. E talvez seja exatamente por isso que, tantos anos depois, ainda faça sentido parar tudo às seis da tarde… e entrar nesse mundo por uma hora. Porque algumas bandas passam.


Outras permanecem como um clima.



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