Honey’s Dead: o momento em que o Jesus and Mary Chain trocou a inocência pelo vício
- Marcello Almeida

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Em 1992, a banda abandona qualquer resquício de romantismo e transforma ruído, desejo e controle em um dos discos mais físicos da sua trajetória

Se Psychocandy era a colisão entre beleza e ruído, e Darklands um respiro melancólico entre os escombros, Honey’s Dead surge como outra coisa. Não há mais inocência para enterrar. O Jesus and Mary Chain aqui já entendeu exatamente quem é, e decide ir até o fim disso. O disco não pede licença, não tenta seduzir com delicadeza. Ele entra como um corpo quente num ambiente frio, impondo presença. E talvez por isso seja tão difícil de ignorar.
Em 92, o mundo girava em outra frequência. O grunge ocupava tudo, a cultura rave crescia nas margens e a MTV ditava ritmo e estética. Mas os irmãos Jim Reid e William Reid nunca foram exatamente bons em seguir direções externas. Honey’s Dead nasce dessa recusa. Não é um disco que reage ao tempo, é um disco que se fecha em si mesmo e redefine seu próprio pulso.
Uma das mudanças mais perceptíveis está na base rítmica. A entrada de Monti traz um novo tipo de peso. Não é apenas mais forte, é mais preciso, mais físico. A bateria aqui não acompanha, ela conduz. Há groove, há repetição hipnótica, há um senso quase industrial de pulsação. Mesmo quando elementos eletrônicos aparecem, tudo parece ter ganhado corpo. Como se o som, antes etéreo, agora tivesse ossos.
Isso fica evidente já na abertura. “Reverence” não entra devagar, ela explode. O breakbeat é direto, quase agressivo, enquanto a guitarra corta o espaço com distorção controlada. E então vem a frase: “I wanna die just like Jesus Christ / I wanna die just like JFK.” Não é só provocação. É a maneira mais crua de estabelecer o tom do disco. Aqui, tudo é levado ao limite, até a própria ideia de significado.
A produção de Alan Moulder é fundamental nesse equilíbrio. Existe um controle muito claro sobre o caos. O ruído continua ali, mas não é mais descontrolado como antes. Ele é moldado, direcionado. Cada camada parece pensada para ocupar um espaço específico, criando uma sensação de densidade que não sufoca, mas envolve. O disco é sujo, sim, mas nunca desleixado.
As músicas seguem esse mesmo princípio. “Teenage Lust” soa como um sussurro carregado de tensão, enquanto “Far Gone and Out” aproxima o grupo de uma estrutura mais pop, ainda que completamente contaminada por distorção. “Sugar Ray”, com sua batida marcada e refrão imediato, mostra uma banda confortável em criar algo acessível sem perder identidade. Não é concessão. É domínio.
E mesmo nas faixas menos óbvias, há um tipo de energia que se sustenta. “Good for My Soul” carrega um peso quase blues, mas filtrado por uma estética urbana, fria. Já “Almost Gold”, conduzida por William, funciona como um ponto de respiro, mas um respiro torto, incompleto. Nada aqui se resolve completamente. E isso parece intencional.
Há também uma sensação de esgotamento criativo sendo transformado em matéria-prima. Como se a banda estivesse consciente de que está explorando os últimos limites daquela linguagem. O encerramento com “Frequency” reforça isso. Não soa como repetição preguiçosa, mas como um eco, uma reverberação do que já foi dito, agora em outro estado.
No centro de tudo, está a dinâmica entre Jim Reid e William Reid. As vozes se alternam, se sobrepõem, às vezes parecem discordar entre si. E talvez seja justamente essa fricção que mantém o disco vivo. Não há harmonia completa, há tensão constante.
Honey’s Dead não é um renascimento. É um disco que aceita o desgaste e decide trabalhar a partir dele. Um trabalho que abandona qualquer idealização e encara o som como algo físico, direto, quase tátil. Não é sobre beleza no sentido clássico. É sobre intensidade.
Quando a música deixa de tentar agradar, ela começa a dizer a verdade, mesmo que doa.

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