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Geddy Lee, o Pink Floyd e a construção silenciosa do som do Rush

Muito antes de definir o prog canadense, baixista encontrou no Floyd não só inspiração, mas um jeito de pensar música

Geddy Lee
Foto: Mat Hayward / Getty Images)

No universo do Rush, a imagem de Geddy Lee é quase um símbolo: óculos escuros, voz aguda, linhas de baixo que parecem pensar por conta própria. Mas antes de tudo isso virar identidade, havia um músico em formação, curioso, inquieto, absorvendo tudo o que pudesse.



Lee não começou no baixo. Passou por guitarra, bateria, piano, clarinete. Era, desde cedo, um multi-instrumentista interessado na estrutura da música, não apenas na execução. Talvez por isso tenha se aproximado naturalmente de bandas como The Who e Cream, fascinado pelas linhas de baixo de John Entwistle e Jack Bruce.


Mas havia outra influência se formando, mais silenciosa, e talvez mais profunda.

O Pink Floyd.


Ainda adolescente, Lee viu a banda ao vivo no Canadá, em um momento em que eles estavam expandindo sua linguagem musical. Em entrevista à SiriusXM, ele relembrou esse impacto com clareza: assistir ao Floyd era mais do que ouvir músicas, era entender como som, atmosfera e narrativa podiam coexistir. E isso ficou.


Quando o Rush começou, no fim dos anos 60, ainda era um power trio moldado por riffs pesados e energia direta, muito na linha do que o Led Zeppelin fazia na época. O primeiro álbum, em 74, ainda carrega esse DNA. Mas a entrada de Neil Peart mudaria tudo. A partir daí, o Rush deixa de ser apenas uma banda de rock pesado e passa a pensar música de forma mais ampla. Conceito, narrativa, estrutura. elementos que o Pink Floyd já explorava com naturalidade.


Lee reconhece isso. Em entrevista ao The Guardian, ele falou sobre sua relação com Peart como letrista, destacando o quanto essa divisão de funções moldou o som da banda. “Ser intérprete do Neil tem sido um prazer singular e, ao mesmo tempo, um trabalho realmente difícil”, admitiu. Havia confiança, mas também tensão criativa, algo que, no fim, fortalecia o resultado.


Essa dinâmica obrigava Lee a ir além do papel tradicional de baixista. Ele precisava construir a música a partir da base, pensar em arranjos, incorporar teclados, organizar ideias. E, nesse processo, olhava para referências claras: Paul McCartney e Roger Waters.


Não pela técnica pura.



Mas pela função dentro da música. Isso explica muito da admiração que ele tem por The Dark Side of the Moon. Para Lee, o disco não é impressionante pela complexidade técnica, mas pela forma como tudo se encaixa. Em entrevistas, ele destacou faixas como “Speak to Me”/“Breathe” e “Money”, justamente pela construção das linhas de baixo, simples na aparência, mas fundamentais na estrutura.


É uma visão que diz muito sobre ele. Enquanto muitos músicos buscam velocidade, precisão ou virtuosismo, Lee estava interessado em outra coisa: função. Como cada nota serve à música. Como o espaço entre elas também comunica.


E isso se aprofunda quando ele fala de The Wall. Em conversa com a Guitar World, ele destacou a capacidade do Pink Floyd de contar histórias sem pressa, de construir atmosferas densas sem perder o interesse. Para alguém que ajudaria a moldar o Rush como uma banda conceitual, essa influência é impossível de ignorar. Mas existe um momento que sintetiza tudo.


“Comfortably Numb”. Para Lee, é mais do que uma grande música. É uma experiência emocional. Ele já disse que o solo de David Gilmour é algo que o faz chorar, não pela técnica, mas pela sensibilidade. Pela forma como cada nota parece inevitável. E talvez seja aí que tudo se conecta.


Porque, no fim, o que Geddy Lee absorveu do Pink Floyd não foi um estilo específico, nem uma fórmula. Foi uma ideia: a de que música pode ser complexa sem ser fria, técnica sem ser vazia, expansiva sem perder humanidade. O Rush seguiu seu próprio caminho, claro. Mas essa base, essa forma de pensar, já estava lá desde o começo. Silenciosa. Estruturando tudo.


Antes de dominar o som, ele aprendeu a dar sentido a cada nota.






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