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Funeral, do Arcade Fire, e o som de uma geração em trânsito

A gente não sabia, mas estava atravessando um fim, e um começo também

Arcade Fire
Imagem: Reprodução

Pensando em como começar esse texto, me veio a memória afetiva das tardes nos cyber ouvindo música lá no começo dos anos 2000. A gente ainda não sabia o que viria aí pela frente, mas, entre tudo isso e o suspiro do analógico e aquele primeiro contato e clique com o mundo digital, eu descobri um dos discos mais legais daquele período, que sabia traduzir perfeitamente aquele momento.


A vida parecia mais simples. Pelo menos essa é a sensação que tenho quando coloco para rolar Funeral, do Arcade Fire, o primeiro deles.



Algumas pessoas gostam de classificar os discos como aqueles que trazem novidade e aqueles que chegam como uma espécie de diagnóstico do mundo. Pra mim, Funeral, daquele longínquo ano de 2004, pertence ao segundo tipo. Esse disco não parecia apenas mais um álbum de indie rock surgindo no radar alternativo da época. Aquilo ali soava mais como um pressentimento, e hoje tenho mais certeza disso.


Naquele momento, a gente ainda estava com um pé preso no mundo físico. Ir ao cybercafé não era nostalgia, era parte da minha rotina. Abrir o MSN Messenger era quase um ritual. Nos chats do Terra (eu descobri o primeiro amor) ou ouvindo a rádio do UOL, a música ainda tinha um caminho, um percurso até chegar.


Não era instantânea. Existia espera. Existia descoberta. As pessoas ainda tinham o hábito de comprar CDs, o hábito de ouvir um disco inteiro. Mas a forma de ouvir música já ia se transformando. Eu penso em como é curioso pensar que Funeral nasceu exatamente nesse intervalo.


O disco carrega no próprio título uma coleção de perdas reais, familiares de integrantes da banda que morreram durante o processo de gravação, mas o que ele entrega vai além do luto literal. Existe ali um sentimento mais amplo, difuso, quase geracional. Uma sensação de que algo estava acabando, mesmo que a gente não soubesse nomear o quê.


“Neighborhood # 1 (Tunnels)” abre o álbum como quem atravessa a neve para fugir de casa, mas também de si mesmo. Já “Wake Up” não pede licença: ela cresce, se impõe, vira coro, vira multidão. É música feita para ser cantada junto, mas também para ser sentida sozinho. Um paradoxo que define bem aquele período.


Porque enquanto o mundo começava a acelerar, Funeral parecia ir na contramão. Ele é expansivo, mas nunca apressado. Grandioso, mas íntimo. Como se dissesse: “calma, sente isso aqui primeiro”.



E talvez por isso ele tenha marcado tanto.


A gente estava entrando numa era onde tudo começaria a ficar mais rápido, mais acessível, mais descartável. Mas aquele disco exigia permanência. Ele pedia repetição, pedia silêncio, pedia entrega. Não era trilha de fundo. Era um ritual de experiência.


E aí entra uma camada ainda mais bonita: a forma como cada um encontrou esse álbum. Não foi por algoritmo. Não foi por recomendação automática. Foi por acaso, por insistência, por um link mal carregado, por uma rádio online que travava, por um amigo que indicava no chat. Existia um certo esforço em sentir.


Você ouviu na rádio do Terra. Alguém ouviu num fórum perdido. Outro baixou com conexão discada e esperou minutos que hoje pareceriam eternidade. E talvez isso tenha moldado a forma como o disco ficou na gente. Porque ele não chegou pronto. Ele foi conquistado, pelo menos pra mim. Esse é um dos motivos pelos quais eu guardo um enorme carinho por ele.


Toda vez que me pego ouvindo, ele me lembra de como era a vida antes de tudo “enlouquecer” de vez, se me permitem o uso da palavra. Eu volto a dizer: a vida era mais simples. O amor era outra coisa, que tinha o nick com o nome de MEL. A música era outra coisa.


Funeral virou um clássico não só pelo que ele é, mas pelo momento em que ele apareceu. Ele ajudou a definir o indie rock dos anos 2000, abriu caminho para uma estética mais emocional, mais coletiva, menos irônica. Num cenário ainda muito moldado pelo pós-grunge e pelo cinismo dos anos 90, o Arcade Fire trouxe vulnerabilidade sem pedir desculpa. E isso, naquela época, era quase revolucionário se pararmos para pensar.



Impossível não lembrar daquele LollaBR de 2014. Que show lindo e memorável eles fizeram, aquele final poético com “Wake Up”. Não esqueço daquilo. São memórias, a música nunca foi apenas música. Música ainda é algo inexplicável em palavras, você precisa deixar ela entrar. Se fizer isso, ela nunca irá embora de você. E nisso nascem as memórias. Isso explica um pouco o que é Funeral pra mim. Como não se arrepiar com “Rebellion (Lies)”.



Hoje, ouvindo de novo, tudo parece mais claro. Mas, em 2004 — ou, mais precisamente, em 2007, que foi quando eu conheci esse disco — não era. Era só sensação. Era só aquele incômodo bonito, aquela vontade de cantar alto sem saber exatamente por quê. Talvez porque, no fundo, a gente já sentia: alguma coisa estava acabando. E outra, que a gente ainda não entendia direito, estava começando.


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