Fiona Apple: Fetch The Bolt Cutters, um disco catártico, Íntimo e ambicioso.



Fiona Apple Mcafee Maggart nasceu em Manhattan no dia 13 de setembro de 1977. Vinda de uma família de artistas, filha da cantora Diane Mcafee e do ator Brandon Maggart, Fiona desde cedo trilhou os caminhos da música. Ainda criança, com seus quatro a cinco anos, já fazia aulas de piano e cantava. A cantora já chegou a relatar que canta desde que se entende por gente. Uma prematura nos caminhos da música. Com um conjunto de canções melódicas bem trabalhadas e com letras fortes, vocal potente e uma autenticidade em sua música, Fiona criou um estilo único que vem agraciando milhares de fãs e críticos pelo mundo afora. Seu primeiro álbum Tidal (1996), foi um sucesso de vendas nos EUA, e com apenas 19 anos a cantora, compositora e pianista norte-americana ganhou seu primeiro Grammy.


Fiona Apple chegou para canhonear esses anos pandêmicos com representatividade, sabedoria, sagacidade e com melodias que remam na contramão de rótulos prontos das canções pop. Composições metafóricas, letras temáticas e psicológicas denunciando o machismo e exaltando o empoderamento feminino. E é com a força entonada em seus vocais compostos de emoções, sentimentos, fúria e ironismo que somos apresentados ao seu mais novo álbum de estúdio Fetch The Bolt Cutters. A obra representa muito mais que um rosto bonito por trás melodias pop que assumem sua rebeldia com tamanha magia. A música de Fiona é a personificação da força e resistência feminina. Em um mundo que acelera demais e expõe suas depravações como machismo, assédios sexuais e violência contra mulheres, a artista não se cala. Solta sua voz com crueza, mas sem se perder no escatológico. Em meio a uma atmosfera obscura e eletrizante, revela de forma contundente seu imaginário e traumas do passado.


Fetch the Bolt Cutters é quinto álbum da cantora em sua facultosa discografia. O álbum apresenta treze canções que exploram uma obra sinfônica impiedosa, um retrato sincero do cotidiano e de como a vida nem sempre caminha conforme queremos. Estamos envoltos de um universo de assassinatos, tráficos, sexo, prostituição, política, pandemia e corrupção.

O disco soa vanguardista, emergente com uma ferocidade sem rótulos, direto, meio cru e certeiro em um ponto da alma. É raro ouvir o disco pop e não ter ideia do que vem a seguir, e Fiona faz isso muito com esse disco, ele apresenta inúmeras surpresas que encantam, emocionam e machucam em uma velocidade frenética e feroz. Mas o álbum não se define apenas pela raiva, muito pelo contrário, Fiona é sagaz, revela sua raiva ao lado de um humor que dosa o temperamento da obra, e essas singelas mudanças enaltecem o desfecho dramático através de uma brincadeira desarmante.


I Want You Love Me” inicia com uma percussão que logo se perde para dar lugar a um piano melódico. A canção soa como se tivesse saído de um longa-metragem de comédia romântica. Ouvir essa canção é como se ver diluído em uma cena de 500 Dias Com Ela (2009). Uma canção sobre erros e acertos. E como ter maturidade em tempos tão gélidos e áridos. Fiona atinge níveis altíssimos de autoconfiança e entrega uma musicalidade incomparável, algo ainda não visto. Quando sua voz da vida a canção entonando de forma meio falada os versos: “Eu esperei muitos anos, cada impressão que deixei na pista, me levou até aqui”. Você se vê inerte em uma viagem cósmica hipnotizante.

É difícil rotular Fiona Apple com outra artista, seu som sempre foi autêntico e único, mas aqui é possível sentir uma certa influência de Joni Mitchell, com canções que geralmente refletem ideias sociais e ambientais, bem como seus sentimentos sobre romance, confusão, desilusão e alegria.

É possível sentir um remoto distanciamento de seus trabalhos anteriores, mas o álbum ainda pode ser reconhecido como algo que só Fiona poderia criar. De forma lírica, ela transborda por seu passado para encarar traumas e enfrentar valentões da escola. “Eu não tinha medo dos valentões, e isso só fazia piorar os valentões”, são os versos da canção “Shameika”, que inicia com pianos embasados em um Jazz frenético para decorrer sobre temas sobre bullying e abusos sexuais. Ela sofreu um estrupo quando tinha apenas doze anos, algo que a marcou profundamente, levando a desenvolver transtornos obsessivos compulsivos e alimentares. A canção é um regresso ao passado e as feridas da alma.


O disco segue sua narrativa introspectiva, bucólica e um tanto convidativo. Gritos surreais, barulhos estranhos, vozes, tudo emanado em arranjos ásperos que impacta, causa estranheza e aguça a curiosidade pelo desfecho dessa obra poética emergente. Em meio a todo esse emaranhado tirado da mente de Fiona, encontramos “Fetch the Bolt Cutters”, canção que dá nome ao disco. Aqui a cantora discorre de forma selvagem e viva, olhando para um futuro fictício em busca de um amante imaginário. A canção esconde sinais nas entrelinhas, como se fosse um aviso para mulheres que sofreram e sofrem abusos sexuais: “Pegue os Alicates”. O título passa a ideia de libertação. Algo como: “Saia da prisão a qual você se permitiu viver, seja o que você estiver passando, não se pode viver nesse submundo para sempre”. No final da canção, pode-se ouvir latidos de cachorros, vozes e suspiros. Algo que transporta o cotidiano para o disco. Sons que ouvimos diariamente em casa ou na rua.


Under the Table” satiriza o machismo existente nas relações amorosas e violência contra a mulher: “Me chute por debaixo da mesa o quanto quiser, não vou calar a boca, não vou calar a boca”. Fiona usa de metáforas para descrever a violência letal contra as mulheres, a humilhação e espancamento gratuito. Um grito para todas as mulheres sufocadas por relações abusivas. O disco é definido por percussão e piano. A cantora “sabota” a estrutura tradicional de versos e refrões. Músicas imprevisíveis com certas mudanças de andamento. É veemente, incessável. “Relay” é como se fosse uma encenação de uma peça de teatro notável e sensível, desde sua introdução carregada por linhas nervosas e seu final perturbador e revolucionário.


A criatividade construtiva de Fiona é bela e peculiar. “Rack of His” é enternecedora e, ao mesmo tempo, cômica, um brinde à solidão, à mágoa e à todas as coisas que não foram ditas antes. O clima nebuloso de confinamento ganha vida na narrativa pessoal do texto e música que Fiona, de forma despretensiosa e de dentro da sua casa, na companhia de seus cachorros dá um chute no estômago da alma onde mora o desassossego. É preciso estar ativo para preencher as lacunas impostas pelas canções de Fetch the Bolt Cutters.


Sua versatilidade expressiva ganha notoriedade já logo de cara pela icônica capa do disco. Com uma foto egocêntrica, com foco em seu olho esquerdo e um sorriso insano que parece ter sido inspirado no filme Hereditário (2018). Fiona não julga ninguém, apenas narra suas experiências amorosas traumáticas e aflora sua intelectualidade musical. Fetch the Bolt Cutters é um disco sagaz, impactante, único e maravilhoso com muito a dizer sobre esses tempos de pandemia. Pode ser considerado a obra-prima da artista e um dos melhores discos de 2020, sem sombra de dúvidas. E, pensando bem, Fiona é todos nós de alma e coração.

 

Ficha Técnica:

FETCH THE BOLT CUTTERS

Artista: Fiona Apple

Data de Lançamento: 17 de abril de 2020

Gênero: Art Pop, Rock Alternativo e Pop Barroco

Ouça: "I Want You Love Me", "Shameika" e "Ladies"

Para quem Gosta de: Angel Olsen e St. Vincent

Nota: 9.0


 

Ouça no Spotify



















 

Veja o vídeo de "Ladies" abaixo:


 

Sobre Marcello Almeida

É editor e criador do Teoria Cultural.

Pai da Gabriela, Técnico em Radiologia, flamenguista, amante de filmes de terror. Adora bandas como: Radiohead, Teenage Fanclub e Jesus And Mary Chain. Nas horas vagas, gosta de divagar histórias sobre: música, cinema e literatura. marce.almeidasilvaa@gmail.com


 

Texto publicado originalmente no site Urge!

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