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Especial safra brasileira/ 1973, parte 2: A filosofia inquieta de Raul Seixas em "Krig-ha, Bandolo!"

Um especial que explora o Brasil e a música brasileira em 1973. O segundo texto é sobre o primeiro disco solo de Raul Seixas, o ilustre "Krig-ha, Bandolo". Boa leitura a todos!

Foto: Ariel Severino.


Entra e sai ano sempre fica a análise de anos anteriores na arte e na cultura para servir de inspiração e até mesmo de nostalgia, seja para quem nasceu naquele período e para quem não nasceu, usa o recurso da pesquisa para conhecer e usufruir coisas marcantes daquele tempo com sentimentos que passam pela curiosidade de conhecer até a satisfação de apreciar algo que considera maravilhoso.


O ano em questão que será analisado aqui e nas futuras postagens desse especial será o de 1973, considerado por muitas pessoas, um ano extremamente agitado, fértil, impactante, emocionante e criativo que pode ser analisado em várias camadas culturais e sociais. Porém, o que será analisado será o Brasil e a música brasileira que vivia uma safra já em anos antes como 1972 um período prolifero, eclético e grande com muita qualidade.


O segundo álbum a ser falado nesse especial falaremos do “Krig-ha, Bandolo!” de Raul Seixas. Boa leitura!




Para falar desse disco, é preciso voltar ao tempo e falar do jovem Raul Seixas, antes do lançamento e da produção do disco. Nessa época, o baiano manifestou desde muito novo um amor profundo por duas coisas que iriam acompanhar sua vida toda: música e literatura. Esses amores foram fundamentais para respectivamente formar sua primeira banda chamada de Raulzito e os Panteras, se tornou produtor musical e amigo do renomado Paulo Coelho.


Esses dados são exatos e relevantes para compreender e avaliar como esse disco foi criado, pois "Krig-ha, Bandolo!" não foi a primeira coisa que Raul Seixas gravou, cantou ou mesmo produziu na sua carreira musical.


Raul, influenciado por artistas como Luiz Gonzaga e Elvis Presley, formou Raulzito e os Panteras, que como foi dito anteriormente, foi sua primeira banda. Apesar de terem lançado um modesto disco em 1968, suas vendas foram baixas e carretou no fim prematuro do conjunto. Ele ainda ficou conectado à música, se tornando por alguns anos produtor da gravadora CBS por intermédio do talentoso músico Jerry Adriani, um dos ícones da Jovem Guarda.



Como produtor, produziu muitas coisas ótimas e interessantes, entre eles discos solo de Leno da dupla Leno e Lilian, Jerry Adriani e Sérgio Sampaio, sendo com esse último participou dos cultuados álbuns “Eu Quero É Botar Meu Bloco Na Rua” de 1973 e “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10” de 1971. Todos têm participação do artista, seja como compositor ou como instrumentista. Isso fez com a CBS desse um ultimato a ele se queria continuar como produtor ou preferia ser músico por estar influenciando muitos discos com seu talento.


Após sair da CBS, ele participa do Festival da Canção em 1972 com "Let Me Sing, Let Me Sing" e "Eu Sou Eu e Nicuri é o Diabo" que fazem muito sucesso e assim é rapidamente contratado pela Philips (atualmente Universal Music) para produzir logo seu primeiro álbum solo pela gravadora e logo em seguida se torna amigo de Paulo Coelho, após ler um artigo dele na revista “A Pomba”.


“Krig-ha, Bandolo!” pode ser definido como um conjunto perfeito de ideias literárias, filosóficas e musicais de Raul Seixas que fazem desse registro ser importante, admirado, ouvido e divulgado por amantes de Rock pelo seu som impactante, por amantes da MPB que viram letras que possuem aspectos culturais bem fortes, por críticos do momento político que o Brasil vivia com conteúdo que é contra o totalitarismo violento e censurador dos militares e por amantes de literatura por possui grandes referências.



O título é uma menção ao Tarzan, personagem criado e lançado pelo escritor estadunidense Edgar Rice Burroughs em 1912 que se transformaria numa famosa saga literária com muitos livros e histórias em quadrinhos sobre as suas aventuras na selva. No idioma mangani, língua que ele Tarzan falava aos primatas, a frase "Krig-ha, Bandolo!" significa “Cuidado, aí vem o inimigo!”.

O disco tem 11 faixas excelentes que merecem a atenção na hora de ouvir. “Mosca Na Sopa” e “Dentadura Postiça” são autênticos cancioneiros fortes em letra e som contra os militares ao mostrar sem pudor que o governo era uma ditadura, sendo que “Mosca Na Sopa” conseguiu impactar ao mostrar lado politizado das pessoas, que assim como o baiano, eram contra aquele regime e “Dentadura Postiça” em apresentar os seus desapontamentos.


Em “Metamorfose Ambulante” temos um lírico que observa as transformações sociais e as analisa com cuidado ao mudar de pensamentos sem perder o senso critico em uma sonoridade leve e incrível. “As Minas do Rei Salomão” é uma canção que faz referência ao homônimo livro do escritor H. Rider Haggard que foi publicado originalmente em 1885, com letra bem bacana e som fervoroso. “Al Capone” é uma música cheia de influências e referências culturais na letra que vai de Jimi Hendrix à Lampião com direito a um espetacular som de guitarra que faz o som parecer uma mistura de Baião com Rockabilly de forma elétrica e contagiante. “Ouro de Tolo” apresenta uma crítica de Raul à mediocridade ao narrar com afiamento fatos medíocres para mostrar que não se deve se agir de forma mediana na vida em um som simples e maravilhoso.

"Krig-ha, Bandolo!" é um registro de 1973, com músicas atemporais e acessíveis, com uma sonoridade altamente influente. Um registro perspicaz e visionário de um artista que apresentou ideias e pensamentos inquietos que permaneceu assim em muitos outros trabalhos na sua discografia. Para demonstrar que estava atento ao seu tempo e, posteriormente, deixar mensagens que apresentam suas influências, seus sons e sua filosofia de forma bem receptiva.


Detalhes que consagraram Raulzito como um dos grandes do rock no Brasil, num período obscuro e sombrio. E assim como ele, muitos artistas puderam surgir com suas vozes marcantes e únicas. "Krig-ha, Bandolo!" ressalta o seu legado por infinitas gerações, mostrando o recado de que o rock nunca morrerá e a música brasileira irá sempre se reinventar.

 

'Krig-ha, bandolo!'

Raul Seixas


Gênero: Rock, MPB

Lançamento: 21 de julho de 1973

Ouça: "Mosca na Sopa", "Metamorfose Ambulante", "Ouro de Tolo".

Humor: Provocativo, Reflexivo, Atemporal


 

NOTA DO CRÍTICO: 10

 

Ouça "Ouro de Tolo" de Raul Seixas no YouTube:


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