Especial David Bowie- 'Low' antológico e soberbo



Falar de David Bowie é um tanto difícil, não é fácil encontrar palavras para definir um artista, gênio e um verdadeiro galanteador de mentes. Entretanto vou arriscar algumas (tortas) linhas sobre um disco icônico e emblemático em sua trajetória um tanto conceituada no mundo da cultura pop. 'Low' (1977), é um disco instigante, marcado por transições que influenciaram em sua sonoridade ímpar. Sinala justamente o período em que Bowie foi morar em Berlim (uma tentativa de fugir das consequências de ser um rockstar e tentar se afastar um pouco do vício das drogas), o primeiro álbum de uma etapa fecundante para (o eterno) camaleão do Rock. Nessa fase ele já estava totalmente fissurado e fisgado pela música clássica e pelo Krautrock- influência de Kraftwerk pulsando em suas veias e artérias, eu diria.


Na verdade 'Low' é inteiramente experimental e ousado, possui uma atmosfera sombria, às vezes gélida e densa... te deixa atordoado, em estado de puro êxtase, pode parecer indecifrável de início, mas conforme a audição vai avançando, é possível ir intercalando, juntando os fragmentos e montando suas conexões com a verdadeira essência e beleza dessa obra que esconde sua ideologia em suas entrelinhas, sons experimentais e psicodélicos. O disco funciona como um canal, uma ponte para chegar na ambientação e atmosfera do emblemático 'Heroes'. Se me permitem divagar um pouco sobre ambas as obras, ouvir 'Low' e 'Heroes' em sequência pode se tornar uma experiência única - existe uma química que liga esses dois discos inexplicavelmente. A sensação que fica é aquela de uma viagem cósmica repleta de nuances e psicodelismo.

Costumo pensar e tentar compreender as melodias desse gracioso trabalho como aquele disco repleto de inclinações vanguardistas, assim como em 'Station To Station', mas completamente arranjado com novas roupagens que rompem com o passado de Bowie, 'Low' é daqueles álbuns impressionantes de ouvir, denso e desafiador, com certeza conquistou seu lugar no coração da cultura pop (e no meu).

A influência do Krautrock é bem definida por sintetizadores assimétricos e guitarras volúveis, como se crescessem através de uma atmosfera robusta e robótica, enquanto os vocais soturnos de Bowie são sobrepostos e cheio de efeitos, mérito nesse sentindo pode ser atribuído ao produtor Brian Eno que explorou ambientações distintas, servindo de uma espécie de canal para as ideias de David Bowie. A faixa que abre o disco "Speed of Life" já deixa um gosto magistral da atmosfera do álbum. A música ainda contou com a participação de Eno nos teclados e deixa bem claro a paixão enérgica do 'camaleão' pela música ambient e a eletrônica germânica. "Sound and Vision" embarca em um pop experimental, repleto de guitarras cintilantes e deliciosamente envolvente. Faixas como "Warszawa" e ''Breaking Glass" reacendem a singularidade de Bowie brilhantemente.


Nesse período uma influência de peso também para Bowie foi Brian Eno. Ele ficou maravilhado com o disco solo de Eno, 'Another Green World', de 1975. Para Bowie esse disco se situava como uma obra-prima e foi desse encontro que originou a parceria entre os dois, resultando em obras soberbas. 'Low' ainda contou com um time fabuloso de músicos como: Carlos Alomar, Dennis Davis, George Murray, Rick Gardiner e Roy Young. Cada um de uma parte do mundo com formações, sonoridades e ideias de música diferentes. O que realçou o contraste e magnetismo das canções, o resultado não poderia ser outro, um álbum excêntrico e empírico.


A medida que o disco avança, o poder experimental do uso assertivo de sintetizadores, efeitos harmonizadores e a precisão da percussão de Dennis Davis, se tornam pontos altos da obra. "Be My Wife" subverte a estrutura do Soul de uma maneira estupendamente cativante e sedutora. "A New Career In a New Town" possui um dos instrumentais mais lindos do disco, criando um clima psicodélico e introspectivo que deixa a singela sensação de que o disco terminou e começou outro totalmente diferente. São esses pontos que tornam 'Low' uma obra ímpar e incomparável.


O trabalho é reflexo dos sentimentos de Bowie e de suas vivências. Passa a ideia de liberdade... aquela coisa de se libertar dos próprios demônios, resistir as amarguras, tormentos e os vícios que puxam cada vez mais para baixo. Berlim foi extremamente importante nesse processo, um período que rendeu três ótimos discos históricos na cultura pop. Bowie simplesmente apontou uma nova direção para a vanguarda do Rock and Roll.

 

Ficha Técnica:

LOW

Data de Lançamento: janeiro de 1977

Gênero: Glam Rock, Art Rock e Proto-Punk

Data de Gravação: 1976

Duração: 50:08 min

Humor do Disco: Sombrio, psicodélico e peculiar

Ouça: "Breaking Glass", 'Sound and Vision" e "A New Career in a New Town"

 

Spotify:


 

Veja o vídeo de "Sound and Vision" abaixo:


 

Sobre Marcello

É editor e criador do Teoria Cultural.

Pai da Gabriela, Técnico em Radiologia, flamenguista, amante de filmes de terror. Adora bandas como: Radiohead, Teenage Fanclub e Jesus And Mary Chain. Nas horas vagas, gosta de divagar histórias sobre: música, cinema e literatura. marce.almeidasilvaa@gmail.com

 





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