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Entre casulos e recomeços, Ed O'Brien nos apresenta o voo de Blue Morpho

Inspirado pela natureza, pela mudança e pelos recomeços, o músico entrega sua obra mais íntima até aqui

Ed O'Brien, do Radiohead.
Ed O'Brien, do Radiohead. Crédito: Steve Gullick


Ed O’Brien sempre foi visto como aquele músico e guitarrista responsável por criar atmosferas etéreas no Radiohead, o homem que preenchia espaços com texturas, camadas e inúmeros detalhes. E isso fica cada vez mais evidente em sua carreira solo, que começou com Earth, de 2020, sob o nome EOB. Ali já podemos notar muito da capacidade de O’Brien de criar canções que fogem da estrutura do Radiohead.





Quando eu digo fugir, é que, apesar de toda a ambientação e das experimentações que o músico faz, suas canções possuem uma identidade própria, íntima dele. E Blue Morpho, seu segundo disco recém-saído do forno, carrega muito disso.


Lançado em 22 de maio, o álbum navega por uma sonoridade com uma pegada bem mais introspectiva e atmosférica. É um trabalho que puxa muito para o psych-folk, ambient, trip hop e jazz. Muito disso vem também das participações especiais de Shabaka Hutchings e suas flautas e saxofones, Dave Okumu na guitarra e de um colega já íntimo da música, Philip Selway. O disco ainda conta com os vocais da cantora ESKA.


Um detalhe curioso e interessante, que explica muito sobre a contextualização do disco, é que ele nasceu inspirado em um período bastante pesado para Ed. O músico enfrentou a depressão durante e após a pandemia de Covid-19. Em entrevistas recentes, ele revelou que aquele foi um dos momentos mais sombrios de sua vida. E isso diz muito sobre Blue Morpho.


O'Brien sempre teve uma ligação próxima com o Brasil e a música brasileira. O músico já morou por aqui, e isso impacta diretamente seu processo de composição. O nome Blue Morpho vem daquela borboleta azul gigante que existe no Brasil. Inclusive, a relação dele com o nosso país é bem forte ao longo do disco. A faixa que encerra o álbum, Obrigado, ressalta essa influência.


E essa ideia da borboleta conversa diretamente com o que o disco quer transmitir. Não é apenas um nome; existem muitas camadas por trás dessa simbologia. A borboleta acaba carregando essa noção de transformação e dialoga diretamente com a depressão, com o período pós-pandemia e com o próprio Ed encontrando uma voz mais definida fora do Radiohead.





Por que o que podemos sentir ouvindo essa belezura de disco é que a mudança e a transformação deixam de ser apenas um conceito e se torna o próprio coração do disco. A faixa “Incantations”, que abre o álbum, já deixa muito disso explícito. Uma canção densa, melancólica e psicodélica de quase oito minutos, que fala bastante dessa jornada de cura pessoal e do poder transformador da natureza. A faixa funciona como uma viagem onírica, quase celestial. Há algo de espiritualidade pairando no ar. E isso impregna e acolhe.


Na sequência, a faixa-título, “Blue Morpho”, começa com sons de passarinhos cantando e com aquela leveza experimental e atmosférica tão característica de Ed. Se “Incantations” soa como uma travessia pela escuridão, a faixa-título nos apresenta o primeiro contato com a luz.


Os sons da natureza, aquelas cordas que soam mais como um dedilhado delicado e toda a ambientação etérea da música vão criando um sentimento de renascimento. A impressão que fica é que O’Brien está observando o mundo com outros olhos e, através desse olhar, acaba encontrando beleza justamente nas pequenas coisas que costumam passar batidas na correria do dia a dia.


Resumindo, a faixa parece transitar entre o terreno e o celestial, como a própria borboleta que dá nome ao disco. É uma canção onde não existe pressa. Tudo se move lentamente.


E, de repente, me deparo com “Sweet Spot". Que música linda. É aí que o disco começa a ganhar corpo e fluidez, porque existe algo profundamente orgânico em Blue Morpho. As faixas parecem respirar como organismos vivos. Crescem devagar, mudam de direção e florescem quando menos esperamos. “Sweet Spot” transmite muito desse sentimento.


E, por falar em percepção, sensação é a palavra que move esse disco. “Teachers” chega toda repleta de experimentações e elementos eletrônicos que instigam o ouvinte. Explico: imagine você caminhando pela mata depois da chuva. Você não observa apenas as árvores. Você sente o vento te atravessando, observa as folhas pelo caminho, os sons escondidos na natureza e toda a vida que acontece longe do seu campo de visão.



“Teachers” tem essa função bem aqui, no meio do álbum. Você vai se perguntar: que sensação estranha é essa? É a vida.





E, sinceramente, Blue Morpho parece menos um projeto paralelo e mais um músico finalmente confortável em mostrar a própria identidade fora da sombra do Radiohead, e “Obrigado” ressalta ainda mais isso. Quando ela encerra o percurso, a impressão que fica não é de chegada. É de continuidade. Como se a jornada permanecesse acontecendo depois que a música termina. Como se a própria transformação ainda estivesse em curso.


Isso nunca foi um conjunto de canções sobre superação. É um disco sobre aceitar a mudança. E talvez não exista tema mais humano do que esse.

Capa do disco Blue Morpho, de Ed O'Brien
Imagem: Reprodução

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